Crítica

A linguagem da noite

Pequenas tragédias das existências quotidianas pela voz inventiva de um dos grandes cronistas da malandragem paulistana

No mesmo ano, 1963, em que Rubem Fonseca — um dos grandes contistas brasileiros, a par de Dalton Trevisan — publica o livro de contos Os Prisioneiros, dá-se também a estreia de João Antônio (1937-1996) com Malagueta, Perus e Bacanaço, então distinguido com dois prémios Jabuti. Ambas as obras surgem num contexto de grandes mudanças sociais no Brasil, de crescimento desmedido das cidades à custa do êxodo de comunidades rurais, numa altura em que a atenção dos artistas (sobretudo na literatura) se desloca também do mundo rural para o mundo urbano e, sobretudo, para o suburbano. São colecções de pequenas tragédias das existências quotidianas, singulares dramas humanos em grandes metrópoles (Fonseca no Rio de Janeiro, João Antônio em São Paulo), histórias da violência que é íntima da solidão, do submundo de polícias e de malandros, do sofrimento dos excluídos, da resistência, da brutalidade do vazio numa sociedade onde toda a transgressão acaba, de uma maneira ou de outra, por ser punida, histórias daqueles que vivem nas margens e que habitam a noite dos botecos e dos prostíbulos (“Safados por todos os cantos. Magros, encardidos, amarelos, sonolentos, vagabundos, erradios, viradores”).

Os contos de João Antônio estão carregados de expressivas marcas de oralidade urbana (por vezes ainda pontuada por umas quantas expressões de falares do campo, das zonas rurais onde as personagens têm as suas raízes), num discurso que não é uma simples reprodução de falas, antes as reinventa, estiliza, por vezes exagerando os tiques. É o próprio que o confessa num texto de 1980, agora incluído na edição portuguesa: “Utilizo linguagem deles, jeitos, códigos, vou até à sintaxe malandra. Gíria. Gíria é bom para espíritos intensos, de vulcânica agitação e sublime vibração. Devo advertir que os fiz amorosamente e certos exageros há, é claro.”

Malagueta, Perus e Bacanaço reúne nove contos divididos em três partes: Conto Gerais, Caserna e Sinuca. Na primeira (onde parecem não faltar notas autobiográficas da infância e da adolescência) conta-se a história triste de um pugilista que se vê obrigado a deixar os ringues, a de alguém que vai aperfeiçoando na noite a arte de chutar tampinhas de garrafas de cerveja, e a de um jovem que de repente se interessa por tudo o que é japonês (“Judô, folclore japonês, depois teatro e fotografia”) e depressa se apaixona pela mulher japonesa de um amigo; a segunda parte é preenchida com histórias da vida militar, de soldados esfomeados, presos, humilhados (“Tenho sofrido muito nestes meses de quartel, ouvi muito xingamento, muito deboche e muita ofensa”); a terceira, Sinuca, inclui a obra-prima de João Antônio, que dá título ao livro, em que o autor nos leva pela mão a atravessar a noite dos botecos de bilhar e de snooker de São Paulo, desde o bairro da Água Branca ao da Lapa, passando pelos da Barra Funda e dos Pinheiros. “Eram três vagabundos, viradores, sem eira, nem beira. Sofredores. Se gramassem atrás do dinheiro, indo e vindo e rebolando, se enfrentassem o fogo do joguinho, se evoluíssem malandragens, se encarassem a policia e a abastecessem, se se atilassem, teriam o de comer e o de vestir no dia seguinte; se dessem azar, se tropicassem nas virações, ninguém lhes daria a mínima colher de chá — curtissem sono e fome e cadeia.”

Numa noite de sábado, o trio composto por Malagueta (“piranha rápida, professor de encabulação e desacato, velho de muito traquejo”), Perus (o moleque) e Bacanaço (“malandro fino, vadio de muita linha”), anda à caça de otários por salas esconsas e cheias de fumo onde se joga sinuca a dinheiro. Combinam jogadas, fingem-se desconhecidos, ensaiam tramóias, não confiam na sorte apenas na trapaça, cada um movendo o taco como melhor sabe, protegendo-se com tacadas habilidosas, certeiras só quando é preciso, fugindo de outros jogadores e de antigos tiras, ganhando, perdendo, tornando a ganhar e a perder, para acabarem como começaram, “quebrados” (sem dinheiro). A sinuca é uma arte que os malandros levam a sério, uma arte de enganar antes de ser enganado, tacada após tacada. “Para quem está do lado de fora, como para os otários do jogo, as muitas coincidências do joguinho são predestinações. Como se não houvesse tabelas, efeitos, puxadas, trucagens e outros recursos que em sinuca se chamam picardia. Assim falam os trouxas e os coiós e os papagaios enfeitados e os mocorongos e os cavalos de teta.”

Na escrita inventiva de João Antônio não há lugar para heróis, todos são singulares perdedores, como se pode ver nestas magistrais crónicas dos feitos dos malandros (outros nem tanto) paulistanos.