Buscas ao avião malaio estendem-se por uma área do tamanho da Austrália

É uma "operação sem precedentes", diz o Governo da Malásia. Agência australiana concentra buscas numa zona remota do Sul do Índico. China mobiliza 21 satélites para varrer o seu território

Nas buscas estão envolvidos seis aviões de vigilância da Austrália, Nova Zelândia e EUA
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Nas buscas estão envolvidos seis aviões de vigilância da Austrália, Nova Zelândia e EUA Royal Australian Air Force/Reuters

As operações de buscas ao avião da Malaysia Airlines desaparecido dia 8 estendem-se por uma área do tamanho do território da Austrália. Encontrar os destroços ou qualquer vestígio do Boeing 777 é agora uma tarefa titânica, tanto mais que nenhuma das pistas até agora seguidas permitiu aos investigadores definir uma causa provável para o aparente desvio do voo MH370. Desesperados por notícias, os familiares dos passageiros chineses admitem iniciar uma greve de fome.

“A área total de buscas é agora de 2,24 milhões de milhas náuticas quadradas [7,7 milhões de km2]”, revelou o ministro da Defesa e dos Transportes da Malásia, Hishammuddin Hussein, para explicar a dimensão “única e sem precedentes” de uma operação, em terra, no mar e no ar, que envolve 26 países e milhares de pessoas, da Ásia Central ao Sul do Índico.

Uma zona impossível de passar a pente-fino num período de tempo aceitável na era das comunicações digitais – em que todas as perguntas exigem resposta imediata – e que representa apenas uma fracção da zona onde o avião poderá estar. Índicios recolhidos por um satélite que orbita sobre o Índico indicam que o Boeing 777 terá continuado a emitir sinais durante seis horas após ter desaparecido dos radares. Com base nestes dados, foram traçados dois arcos opostos, um estendendo-se para Sul, entre a ilha de Sumatra e o Sul do Índico, o outro ligando a Tailândia ao mar Cáspio.

A pedido da Malásia, a Austrália assumiu o comando das buscas no corredor a sul, mas face à imensidão da zona, a Autoridade de Segurança Marítima australiana (AMSA) decidiu concentrar as operações "apenas" numa área de 600 mil km2 – aproximadamente a área da Península Ibérica –, a cerca de 3000 mil quilómetros a oeste de Perth.

“Uma agulha num palheiro continua a ser uma boa analogia”, disse John Young, responsável da agência, explicando que mesmo com a limitação da zona de buscas serão precisas “algumas semanas” até que toda a área tenha sido coberta. O Sul do Índico é uma das zonas mais remotas do globo e também aquela onde o oceano atinge maiores profundidades. As buscas, nas quais participam seis aviões de vigilância, são complicadas pelos ventos e agitação marítima forte, e pela distância a que a zona está da costa australiana.

China inicia buscas no seu território
Buscas com a mesma envergadura estão a ser feitas no corredor a norte da última posição conhecida do voo MH370, que deixou de comunicar com os controladores aéreos 40 minutos depois de descolar de Kuala Lumpur com destino a Pequim. Os investigadores estão convencidos que alguém a bordo desligou os dois principais sistemas de comunicação e desviou “deliberadamente” o avião da sua rota.

Contrariando o que inicialmente dissera, o Exército da Tailândia revelou nesta terça-feira que um dos seus radares detectou um avião que poderia ser o MH370 a dirigir-se para o estreito de Malaca, minutos depois de as comunicações a bordo terem sido desligadas. Uma informação que coincide com os dados recolhidos por um radar militar da Malásia, mas que vem sublinhar a reticência dos países da região em partilhar informações com nações rivais. Questionado porque não divulgou antes esta informação, um porta-voz da Força Aérea tailandesa disse que “ninguém prestou grande atenção ao facto”. “Só damos atenção às ameaças contra o nosso território.”

A China anunciou ter colocado 21 satélites a procurar vestígios do avião nas regiões do país “situadas neste corredor norte”. Não se sabe, no entanto se Pequim, que tem liderado as críticas à forma como a Malásia está a gerir as operações, respondeu ao pedido para fornecer os dados dos seus radares relativos à madrugada de dia 8. O embaixador chinês na Malásia revelou também que as investigações aos 153 cidadãos chineses que viajavam no avião desaparecido indicam que nenhum deles “participou no desvio do avião ou foi autor de um atentado” a bordo.

É a este beco sem saída que têm chegado até agora todas as investigações policiais. A Reuters escreveu, citando fontes dos serviços secretos europeus e americanos, que as análises efectuadas pelos vários países aos 239 ocupantes não forneceram qualquer pista que pudesse explicar o desaparecimento do avião. A polícia malaia diz também não ter indícios que confirmem as suspeitas de que algum dos pilotos tivesse planeado o suicídio ou o desvio do aparelho.

Rota do avião alterada por computador
Entre as muitas pistas que os investigadores seguem está a suspeita, revelada pelo jornal New York Times, de que a primeira mudança de rota – uma acentuada viragem a oeste quando o avião se preparava para entrar no espaço aéreo do Vietname – não foi efectuada manualmente mas através de um código inserido no sistema de gestão de voo. Trata-se de um computador, situado entre o piloto e o co-piloto, onde são colocadas as coordenadas dos diferentes pontos que constam de um plano de voo. Os códigos são inseridos antes da descolagem, mas podem ser alterados durante o voo, sempre que há necessidade de mudar ou corrigir a rota.

Uma informação que, uma vez mais, indica que os dois pilotos se mantinham aos comandos do avião ou que alguém experiente na pilotagem de um Boeing teria entrado no cockpit, uma vez que os peritos consideram improvável que um passageiro tivesse pirateado o sistema de forma remota.

Dados, buscas e rumores que não satisfazem os cada vez mais impacientes familiares dos passageiros e tripulantes desaparecidos. Em Pequim, no hotel onde as autoridades concentraram as famílias dos 153 passageiros chineses, a revolta vira-se para as autoridades da Malásia, acusadas de má gestão das operações de busca e de falta de transparência na comunicação das informações existentes. “Não temos informações e toda a gente está a ficar inquieta”, disse aos jornalistas Wen Wancheng, cuja filha seguia a bordo. O representante explicou que as famílias exigem que o embaixador da Malásia vá ao local prestar informações pessoalmente e revelou que “algumas pessoas começam já a falar em greve de fome”.