Opinião

É a realidade, estúpido!

Se há aqui um pensamento único, é só porque quem assinou aquele manifesto se esqueceu de pensar.

De José Pacheco Pereira a Manuela Ferreira Leite, passando por Teresa de Sousa e Manuel Carvalho, muito boa gente tomou os ataques ao manifesto dos 74 como a prova de que estaria em curso a tentativa por parte de certa direita (invariavelmente “jovem”) de impor um pensamento único, considerando ilegítima qualquer forma de dissensão (e procurando silenciar os “velhos”).

Escreveu Teresa de Sousa: “O problema é que um país em que o debate democrático se tornou quase impossível é um país vulnerável que está a arruinar o seu futuro.” Escreveu Manuel Carvalho: “O manifesto gerou ruído e raiva porque recusa aceitar de ânimo leve essa visão para o futuro que se limita ao ranger de dentes e à capitulação.” Lamento, senhoras e senhores, mas boa parte das reacções negativas nada tem que ver com isto – e é por isso que vale a pena regressar ao assunto.

Colocar a aversão ao manifesto no terreno ideológico é atribuir-lhe à partida méritos que ele não tem – como, aliás, bem o comprova o facto de os seus subscritores irem do CDS ao Bloco de Esquerda. O que me escandaliza no manifesto não é a existência de uma ideologia com a qual não concordo, até porque muito do que lá está é verdadeiro. A matemática, como já aqui referi na semana passada, bate certo. O que não bate certo é a adesão à realidade. A impossibilidade de aplicação do manifesto é de tal forma gritante que não se pode acolhê-lo, ou rebatê-lo, como se fosse uma alternativa política ao presente. Pela simples razão de que não é alternativa nenhuma.

Este é o ponto: o que me horroriza no manifesto não é a sua sensibilidade ideológica, mas sim a sua insensibilidade política. Não é a teoria, mas a prática. É ver tanta gente que desempenhou funções executivas fingir que é possível exigir a reestruturação da dívida aos nossos credores em Março de 2014, quando o país ainda nem sequer demonstrou a sua capacidade para alcançar saldos primários sustentados. Isto é mais do que ofensivo – é pueril, roça a infantilidade política, e para quem, como eu, considera que o Governo falhou escandalosamente na reforma do Estado, é um desviar de atenções e um enorme tiro no pé.

Com manifestos deste calibre, realmente, cumpre-se a profecia de Teresa de Sousa – o debate democrático torna-se impossível. Qualquer debate sobre o nosso presente só pode ser construído a partir de um conjunto de premissas mínimas, que o manifesto dos 74 abalroa alegremente, inventando uma realidade alternativa na qual poderíamos chegar junto dos nossos credores e exigir a reestruturação da dívida, não dar nada em troca e depois ir ao mercado buscar financiamento a 3%. Isto não é um manifesto. Isto é um filme da Disney.

O manifesto até pode “recusar a capitulação” do país, mas para isso exige a capitulação prévia da nossa inteligência. Eu até dou de borla a falta de pudor daqueles que, à direita, aumentaram a nossa dívida e agora exigem o seu corte; tal como posso dar de borla a falta de vergonha daqueles que, à esquerda, desvalorizaram a dívida nos tempos de Sócrates e a acham agora um escândalo nos tempos de Passos Coelho. O que eu não posso dar de borla é a transformação de um manifesto impraticável numa tábua de salvação para Portugal, quando quase tudo aquilo que nos pode tornar um país viável está ainda por fazer. Se há aqui um pensamento único, é só porque quem assinou aquele manifesto se esqueceu de pensar.