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Megafone

É quase isso: almoçamos amanhã?

Os portugueses gostam de resolver tudo à mesa. Não há nada como um bom almoço de negócios, algo que nem é trabalho, nem tempo livre. E que pode acabar num bordel

Aviso: este texto contém asinhas de camarão. Grelhadas.

Os portugueses só estão bem a comer ou a ver futebol. Se puderem ver futebol enquanto comem, então atingem uma felicidade apenas comparável à do Dalai Lama. Ou da Serenella Andrade.

Até os negócios podem ser resolvidos à mesa. Devem! Sim, os portugueses adoram almoços de trabalho, algo que não é bem trabalho, mas também não é bem tempo livre. Por outras palavras, uma espécie de boneca insuflável da hora de almoço: não é sexo, mas também não é masturbação.

Este tipo de encontros têm sempre uma conversa introdutória, não qual se “enchem chouriços”, até chegar o momento importante e onde muito está em jogo. Voltemos ao sexo: esta conversa é como os preliminares, uma vez que, se o principal correr mal, ninguém se vai lembrar destes dez minutos iniciais.

Enquanto se discutem os assuntos importantes, ninguém come. Conheço alguém que diz que se sente mal por ser o único à mesa a comer, enquanto os negócios são discutidos. Mas eu compreendo: a comida está a arrefecer. Devia haver uma mãe ou um pai à mesa, nos almoços de trabalho, para nos mandar comer. E, mais importante, para dar um cachaço a quem se portasse mal.

Imagina o teu chefe a comer peixe e a ficar à rasca com uma espinha. Ou com um osso de camarão. O camarão não tem osso, mas não interessa para o caso. Um plano de reestruturação financeira pode ir por água abaixo, não por ser mal elaborado, mas porque o teu chefe tem um objecto pontiagudo espetado no esófago. Pior poderá ser o teu dilema: salvar o chefe ou o plano de reestruturação? Pode surgir uma terceira apetitosa hipótese: comer aquela última asinha de camarão.

O camarão não tem asinhas, mas vai dar ao mesmo.

Um verdadeiro almoço de negócios demora muito mais do que o previsto. Se for mesmo bom, acaba pelo jantar. Se for excelente, acaba num bordel.

Já sem o teu chefe, que entretanto foi tirar a espinha do esófago.

Os almoços de trabalho podiam trocar, de vez em quando, com os casamentos, no que diz respeito ao final da refeição. O pessoal mantinha-se sóbrio e formal nos casamentos e acabava os almoços de trabalho bêbado, com a gravata na cabeça, a camisa cheia de vinho, e dançava o “Apita o Comboio” ou o “Dancing Queen”, de forma épica.

Pior do que um mau almoço de trabalho é ter que trabalhar depois de um mau almoço de trabalho. Não é só a moleza provocada pela barriga cheia e pelo efeito do vinho. É querer que alguém fique com uma espinha de tubarão encravada no esófago e saber que isso é improvável. É querer que alguém seja comido por um tubarão e não existirem tubarões à mão. Um mau almoço de trabalho deveria dispensar-nos da tarde. E da manhã seguinte, caso fôssemos, na mesma, a um bordel, com a malta da empresa.

Chega a hora da sobremesa. O almoço até correu mal, mas as partes parecem começar a ceder. Há um entendimento no horizonte. É como sexo de reconciliação. Já não interessa quem paga a conta.

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