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Ocidente avança para sanções, mas Moscovo não treme

UE e Estados Unidos anunciaram congelamento de bens e revogação de vistos de vários políticos russos e ucranianos. Ucrânia mobiliza reservistas, receando novos movimentos separatistas.

Obama afirmou que Washington pode aplicar mais sanções
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Obama afirmou que Washington pode aplicar mais sanções Kevin Lamarque/Reuters

À vitória esperada, seguiu-se a resposta esperada. Um dia depois do referendo na Crimeia em que a integração do território ucraniano na Rússia foi praticamente consensual, os Estados Unidos e a União Europeia anunciaram que vão aplicar sanções a vários dirigentes russos e ucranianos.

A opção pela integração da península do Mar Negro na Rússia recolheu 96,77% dos votos, segundo as contas da comissão eleitoral, não havendo margem para grandes surpresas. As sondagens à boca das urnas apontavam para um resultado acima dos 95%.

Tal como previsto, os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE chegaram a acordo para a aplicação de sanções a 21 cidadãos russos e ucranianos, acusados de terem responsabilidades no processo que levou à realização do referendo. As medidas passam pelo congelamento de bens e pela revogação de vistos de circulação. As personalidades abrangidas pela lista de sanções englobam três chefes militares russos, o primeiro-ministro da Crimeia e alguns membros das duas câmaras parlamentares russas. No final desta semana, na cimeira de líderes da UE, poderão ser aprovadas novas sanções a personalidades mais próximas do Presidente russo, Vladimir Putin, de acordo com a agência Reuters.

Pouco depois, a Casa Branca anunciava que o Presidente Barack Obama tinha dado uma autorização executiva para a aplicação de sanções a 11 cidadãos russos e ucranianos, seguindo a mesma lógica de Bruxelas. A lista dos visados foi revelada e inclui vários políticos próximos de Putin, entre os quais o vice-primeiro-ministro russo e a presidente da câmara alta do parlamento, bem como líderes separatistas da Crimeia, como o primeiro-ministro regional, Sergei Aksionov.

Obama veio, logo de seguida, garantir que poderá haver lugar a mais sanções, “se a Rússia continuar a intervir na Ucrânia”. Ainda assim, o Presidente norte-americano afirmou que espera que seja encontrada "uma forma de resolver esta situação pela via diplomática, de maneira a atender aos interesses da Rússia bem como da Ucrânia". Horas depois do anúncio das sanções, fontes do Kremlin revelaram que Putin assinou um decreto em que é a Crimeia é reconhecida como "um Estado soberano e independente".

Sanções não assustam
A perspectiva das sanções não parece ter causado grande impacto junto dos visados. O vice-primeiro-ministro russo, Dmitri Rogozin foi o primeiro a desvalorizar as penalizações: "Camarada Obama, e o que fará àqueles que não têm contas nem bens no estrangeiro? Ou não pensou nisso?", escreveu Rogozin no Twitter, seguido de "Acho que o rascunho da ordem do Presidente dos EUA foi feito por algum brincalhão".

Os mercados financeiros também não acusaram o anúncio das sanções sobre a Rússia. Durante a tarde, a Bolsa de Moscovo contabilizava ganhos de 3,7% e o rublo tinha recuperado algumas perdas iniciais. A reacção, segundo a Reuters, reflectia o sentimento dos investidores em relação ao carácter apenas simbólico das sanções, uma vez que não incluíram administradores de grandes empresas russas como se chegou a antecipar. Na sexta-feira, o jornal alemão Bild noticiava que Alexei Miller, presidente executivo da Gazprom, e Igor Sechin, presidente da Rosneft, estariam na lista da UE.

Assim que os resultados finais do referendo foram anunciados, as autoridades pró-russas da Crimeia arrancaram para uma alucinante corrida legislativa. Em poucas horas, o novo Conselho de Estado da República da Crimeia pediu formalmente a integração na Rússia, anunciou a nacionalização de duas grandes empresas de gás ucranianas (a Chornomornaftogaz e a Ukrtransgaz) e deu três opções aos militares ucranianos: integrarem as forças armadas da Rússia, partirem para a Ucrânia ou mudarem de profissão. Esta é, de resto, uma das questões mais sensíveis no processo de anexação. Várias bases militares na península encontram-se cercadas por forças militares pró-russas – que Moscovo insiste nada terem a ver com as suas forças armadas.

Para Moscovo já seguiu o pedido formal para a anexação e Aksionov deslocou-se à capital russa para reunir com responsáveis do Kremlin. Segundo a agência russa Interfax, o pedido inclui a mudança da hora na Crimeia, para ficar em linha com Moscovo – se o pedido for aceite, a capital da Crimeia, Simferopol, passa de mais duas horas em relação a Portugal continental para mais quatro horas. Para além disso, o território prevê adoptar o rublo já na próxima semana, que deverá conviver com o hrivinia ucraniano durante seis meses. Aksionov revelou igualmente que o governo russo já concedeu uma primeira tranche de assistência financeira, no valor de 15 mil milhões de rublos (295 milhões de euros).

O Kremlin propôs a criação de um “grupo de apoio” para mediar a crise ucraniana, em resposta à proposta ocidental de um “grupo de contacto”, recusada na semana passada por Moscovo. O ponto de partida para uma negociação seria a implementação de algumas partes do acordo celebrado a 21 de Fevereiro entre a oposição e o Presidente ucraniano, Viktor Ianukovich, a garantia de que a língua russa seja o segundo idioma oficial e a descentralização do poder, abrindo caminho para a federalização da Ucrânia. A Rússia quer ainda que a Ucrânia declare a sua neutralidade política, afastando a possibilidade de integração na NATO ou na UE.

O governo de transição rejeita qualquer revisão constitucional no sentido da federalização e deu indicações de que se prepara para defender o território de novas incursões russas no Leste. O parlamento aprovou um decreto presidencial para uma mobilização parcial das suas forças militares e chamou 40 mil reservistas.

Numa clara mensagem dirigida para o Leste do país, o Presidente interino, Oleksander Turchinov, afirmou que qualquer acto de incitamento à desordem pública será visto como uma “cumplicidade com o agressor militar e um crime contra o Estado”.

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