Crónica Urbana

Já chegaram as magnólias

Da Praça Francisco Sá Carneiro aos Aliados, do Botânico a Serralves, a cidade antevê a chegada de temperaturas mais amenas quando os botões de magnólia despontam.

Há quem diga que ninguém anuncia a chegada da Primavera como elas. E como estávamos precisados de Primavera este ano! O Inverno, que ainda não se foi embora, parece que tinha apostado em chegar ao fim dos seus dias sem nos deixar antever, sequer, um raio de sol, mas de um momento para o outro foi derrotado. E mais ou menos ao mesmo tempo que chegaram as flores das magnólias, anunciadoras de que um tempo melhor está a caminho.
Não florescem todas ao mesmo tempo nem têm todas a mesma cor. Há quem as prefira brancas, quem não pare de fotografar as cor-de-rosa e quem se perca de amores por aquelas a que chamam roxas, mas que nem sei bem se são roxas, porque às vezes parecem apenas de um rosa muito denso e profundo. Eu gosto de todas, no que toca a magnólias não sou nada esquisita. E, nos primeiros meses do ano, quando começam a despontar botões que se abrem em flores delicadas e perfeitas, é uma alegria cruzarmo-nos com elas.

Perto do lugar onde vivo, nos arredores do Porto, há uma rua com a placa central coberta de magnólias. Em Janeiro e Fevereiro só apetece mesmo passar por ali e deixarmo-nos levar por aquela profusão de cor que enche, primeiro, a copa das árvores e, depois, atapeta a relva em redor das raízes. Na cidade, cruzo-me diariamente com as magnólias nas imediações da estação de metro da Trindade, na hora de regressar a casa, e, se acontece pensar verdadeiramente no assunto, sinto-me sempre grata por as ter ali, tornando mais bonito aquele pedaço de rua.

Não me surpreende, por isso, que quando, há nove anos, meia cidade andava preocupada com a transformação que a Avenida dos Aliados iria sofrer — sob a batuta dos arquitectos Álvaro Siza e Souto de Moura —, um dos motivos de tanta preocupação fossem as magnólias junto à Praça da Liberdade, ao fundo da avenida, ali bem perto da Igreja dos Congregados. 

O projecto, que alguns apelidaram de “sizento”, limpou a avenida dos canteiros de flores, das árvores que a povoavam e da calçada portuguesa, com os seus desenhos a negro sobre fundo branco. À câmara, começaram a chegar perguntas sobre as magnólias ao fundo da avenida. Também iriam desaparecer? Na blogosfera, nasceram protestos e também um abaixo-assinado que exigia a salvaguarda do património “insubstituível” da artéria central da cidade, incluindo da “calçada portuguesa, das zonas ajardinadas e das magnólias junto à Igreja dos Congregados”. 

Lançado em Junho de 2005, no blogue Avenida dos Aliados, o abaixo-assinado não conseguiu salvar a calçada portuguesa nem os canteiros floridos. Mas, em Janeiro de 2006, anunciava-se a boa-nova: “As esplêndidas magnólias junto à Igreja dos Congregados não serão removidas”, anunciavam os responsáveis pela página. 

Hoje ainda ali estão, dando sombra à estátua do ardina que lá se encontra. Mas, no Porto, as magnólias são das árvores mais diplomáticas da cidade e espalham-se por todo o lado. Não dizem que não ao lado oriental, quase sempre esquecido, e andam, por exemplo, pelos jardins da Quinta da Bonjóia. Gostam da Praça Francisco Sá Carneiro, para os lados do Estádio do Dragão e adoram o Largo 1.º de Dezembro, nas margens da Baixa. Estão nos Aliados, em Cedofeita, no Jardim Botânico, no Palácio de Cristal e no Parque de Serralves. E escondem-se, às vezes, atrás dos muros de casas particulares, um pouco por todo o lado.

PÚBLICO -
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No Porto, esta espécie de Primavera antecipada é enganadora. Sabemos que o Inverno ainda há-de voltar antes de se render em definitivo. Já é costume que assim seja. Mas estes dias de sol e calor que vivemos já são nossos. E as magnólias floriram quase todas, mas ainda há algumas a guardar-se para melhores dias. Dizem que as brancas florescem mais cedo. Que venham as roxas ou rosa-escuro, muito escuro. Cá as esperamos.