As grandes ideias “dão o mesmo trabalho” que as pequenas, diz o criador da Siri

O criador da Siri, a aplicação que serve de assistente pessoal no iPhone e que a Apple comprou por 200 milhões de dólares, veio a Portugal dar conselhos de empreendedorismo.

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Cheyer dirigiu o maior projecto de inteligência artificial dos EUA Enric Vives-Rubio

Uma narrativa habitual nas histórias de start-ups de sucesso é a dos empreendedores (frequentemente, muito jovens) que criaram uma aplicação ou serviço online e conseguiram atrair a atenção e o dinheiro de uma empresa gigante. Adam Cheyer, que esteve este sábado numa conferência em Lisboa, é um destes casos de sucesso.

É um dos criadores da Siri, a aplicação que funciona como um assistente virtual em todos os iPhones e iPads modernos. Permite ao utilizador usar linguagem próxima da que é usada no quotidiano para executar várias tarefas: lançar outras aplicações, fazer pesquisas, reservar uma mesa num restaurante (a aplicação não funciona com o português e várias funcionalidades estão limitadas aos EUA ou a um grupo reduzido de países).

Frente a uma plateia interessada em perceber como tornar uma ideia num produto de sucesso, Cheyer contou como viu uma oportunidade de negócio nos telemóveis  (inicialmente, havia planos para a Siri ser desenvolvida para outras plataformas para além do sistema da Apple). Descreveu o dia em que entrou numa loja da Apple, viu os ícones de aplicações anunciadas nas paredes e imaginou que poderia ali ver a sua criação. Incentivou o auditório a tentar grandes ideias “porque dão o mesmo trabalho” que as pequenas. E aconselhou quem o ouvia a apostar em projectos que possam chegar a muitas pessoas. Os interesses de nicho, disse, são bons “como hobby”.

Em 2010, com os restantes co-fundadores, Cheyer vendeu a Siri à Apple por cerca de 200 milhões de dólares (cerca de 144 milhões de euros, ao câmbio actual). Mas este cientista transformado em empreendedor já não é um jovem na casa dos 20, como boa parte da audiência que o ouviu falar sobre empreendedorismo e tecnologia, numa conferência chamada Go Youth, que decorreu durante o fim de semana, no ISCTE, e que foi organizada por um estudante da Universidade Católica chamado Tiago Vidal, de 19 anos.

Em 2010, o ano em que empresa por trás da Siri foi vendida à Apple, Cheyer já tinha um longo percurso como investigador e tinha sido director no maior projecto de inteligência artificial dos EUA, financiado pelo Departamento de Defesa. A Siri nasceu em 2007, como uma spin-off de um centro de investigação na Califórnia e aproveitando a tecnologia em que Cheyer trabalhava há anos. Feito o negócio, tornou-se engenheiro da Apple. Saiu em 2012.

O ano de fundação da Siri foi aquele em que o primeiro iPhone foi apresentado. Cheyer disse ter percebido nessa altura que “o móvel ia finalmente tornar-se realidade” – ou seja, os telemóveis iam massificar-se como dispositivos de computação pessoal. “O iPhone redefiniu o que é interagir com o ecrã, graças aos gestos. Foi uma revolução”, afirmaria pouco depois, numa conversa com o PÚBLICO, após a conferência.

Cheyer não falou apenas da sua própria experiência. Recordou como, há uns anos, lhe pediram para falar com um adolescente britânico que estava a desenvolver tecnologia de inteligência artificial capaz de resumir notícias. Algum tempo depois, Nick D’Aloisio, tornou-se milionário antes de acabar o secundário, ao vender uma aplicação chamada Summly ao Yahoo, num negócio de 30 milhões de dólares. A multinacional americana acabour por transformar o Summly numa outra aplicação de notícias, que dá aos leitores duas edições diárias que resumem os temas mais importantes do dia.

Trabalhar nas tecnologias de informação e criar uma empresa é hoje um percurso de vida com glamour. Abundam as histórias sobre start-ups vendidas por milhões e multiplicam-se, também em Portugal, os eventos dedicados ao empreendedorismo tecnológico. Estas empresas, disse Cheyer, ao PÚBLICO, são um grande motor de mudança. Mas reconheceu que existe algum deslumbramento com a tecnologia. “Na educação, por exemplo, a tecnologia é incrivelmente sedutora. As pessoas dizem que vão comprar iPads para as escolas ou novo software. Mas acho que o mais importante é um bom professor. Muitas vezes as pessoas distraem-se com todo o brilho da tecnologia e esquecem-se do essencial”.