A máquina de costura de Umm Jihad

O campo de Zaatari já é o segundo maior do mundo
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O campo de Zaatari já é o segundo maior do mundo Muhammad Hamed/reuters

Umm Jihad está habituada a ser chefe de família. Viúva há 16 anos, mãe de cinco filhos e de três filhas, tem 14 netos. Ser chefe de família na vila de sempre, Sheikh Maskin, na província síria de Deraa, e no campo de refugiados de Zaatari, no Norte da Jordânia, não é a mesma coisa, mas Umm Jihad faz o que pode.

Com as caravanas distribuídas pelo Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, Umm Jihad ergueu um simulacro de casa. Quatro caravanas, todas com as portas viradas para um quadrado de terra a fazer de quintal. Com os cobertores cinzentos que todos os refugiados recebem à chegada, faz capas com gola debruada e pompons – “Uma noiva já casou com uma das minhas capas”, diz orgulhosa – e cortinas com laçarotes quando é essa a encomenda. Com T-shirts velhas de adultos, faz vestidos de menina, de fatos de treino nascem pijamas coloridos para os netos. Quatro encomendas por dia, é a média actual.

“Tentei ser inovadora”, diz Umm Jihad, sentada num colchão, cigarro entre os dedos, com vários filhos e netos a ouvir. A mãe, que estava de cócoras no quintal improvisado também já veio juntar-se. Jihad, o mais velho, é o único filho que está em Zaatari e não mora aqui, na casa da família, na casa onde o dinheiro que entra – para além dos cupões do Programa Alimentar Mundial, 24 dinares jordanos por pessoa a cada mês – vem das inovações de Umm Jihad.

Quando vende a outros refugiados, diz, só cobra o trabalho: um dinar jordano (um euro e muito pouco). Desde que os clientes tragam os materiais. Mas a fama de Umm Jihad já saiu de Zaatari. Uma das filhas vive com o marido e com os netos em Mafraq, a cidade a dez quilómetros de distância, capital da província onde nasceu Zaatari. “Os vizinhos viram a roupa dos meus netos e pediram para eu mandar umas peças”, conta. “Agora, recebo telefonemas de jordanos.”

Umm Jihad não teve muito tempo para pensar no futuro quando decidiu sair da Síria. Ayman, um dos filhos, sentado de cócoras no colchão ao lado da mãe, olhar perdido, tinha sido apanhado numa troca de tiros. “Foi atingido por quatro balas, os médicos conseguiram retirar duas mas outras duas ficaram, estão muito perto do coração”, diz a mãe. Quando o pior aconteceu, Umm Jihad só conseguiu trazer o filho da rua e deitá-lo na cama. “Os homens do Exército Livre [primeiro grupo de rebeldes, formado por desertores] ajudaram, tiraram-no de casa e levaram-no a um hospital de campo. Mas eles não podiam fazer muito.”

Então, Umm Jihad pegou nos filhos e nos netos e organizou a fuga. “Quando chegámos aqui foi um grande choque. Não sabia que havia um campo. Nem queria acreditar quando vi as tendas. Agora, pelo menos temos um tecto a cobrir-nos a cabeça.”

A família juntou-se toda em Zaatari num espaço de cinco dias. Umm Jihad veio à frente, com o filho ferido e outros dois a ajudar. Primeiro, pensaram em sair daqui. “Percebi que não conseguia. Aqui é tudo mais barato e há muita coisa que não pagamos. A vida lá fora ia ser mais dura.” Então, Umm Jihad gastou parte do dinheiro que trouxera na máquina de costura e pôs mãos à obra.

As tendas não foram responsáveis pelo único choque de Umm Jihad na chegada a Zaatari. “Sei que é difícil de perceber. Quando cheguei aqui sentia falta de ver uma barata, uma lesma, um pássaro…” A toda a volta deserto, Umm Jihad precisava de verde e de vida. “Um dia, fomos dar a volta ao campo e descobrimos um pedaço de verde do outro lado. Ficámos meia hora a olhar para aquilo.”

Assim que pôde, Umm Jihad decidiu que precisava de ter animais nesta casa improvisada de Zaatari. Agora, entre duas caravanas, no seu quintal de terra, há uma gaiola alta com mais de uma dezena de pombos lá dentro. “Quando me aborreço, pego no meu chá e olho para eles. Não sei se me entendem.”