Bancada do PSD adverte deputados sobre sentido de voto na co-adopção

Parlamentares do PSD e do PS foram convocados para não faltarem à votação, mas o desfecho é imprevisível. Há já quem lhe chame uma "totovotação".

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A "totovotação" acontece sexta-feira ao meio-dia

Voto a voto, cabeça a cabeça, deputados de várias bancadas, em particular do PSD e do PS, foram incansáveis a fazer contas para conseguir perceber o desfecho da votação desta sexta-feira do projecto de lei da co-adopção por casais do mesmo sexo. Ninguém arrisca certezas sobre os resultados – há quem lhe chame uma totovotação –, mas o debate sobre o sentido de voto gerou tensão na reunião da bancada do PSD.

Na reunião, uma deputada social-democrata emocionou-se e anunciou perante os colegas que decidiu mudar o seu sentido de voto de favorável para a abstenção, depois de ter sido contactada por estruturas do partido nesse sentido. Segundo relatos feitos ao PÚBLICO (a reunião decorreu à porta fechada), o líder da bancada do PSD, Luís Montenegro, referiu que os deputados têm liberdade de voto por se tratar de uma questão de consciência, embora devam ponderar as consequências políticas e partidárias sobre a viabilização do diploma.

Esta advertência levou Teresa Leal Coelho, vice-presidente do partido e que se demitiu da liderança da bancada na sequência da disciplina de voto sobre o referendo, a questionar Montenegro sobre o significado das consequências partidárias. O líder parlamentar cingiu as suas palavras ao impacto que uma decisão do sentido de voto pode ter no eleitorado do partido.  

Ao que o PÚBLICO apurou, alguns deputados foram contactados por dirigentes das distritais que lembravam que há moções aprovadas nas concelhias contra a co-adopção por casais do mesmo sexo e que essa é a ideia da maioria do eleitorado do PSD. O próprio Luís Montenegro sublinhou aos jornalistas, no final da reunião, que o partido “tem uma posição maioritária” que é contra a co-adopção e que reflecte a “maioria do eleitorado do partido”.

Os contactos que têm sido feitos por dirigentes de estruturas locais no sentido de influenciar o sentido de voto são considerados inaceitáveis para os que estão a favor ou se vão abster. Do lado da liderança do grupo parlamentar, a cúpula garante não ter pressionado ninguém a votar em que sentido fosse. E os que são contra o diploma do PS apontam o dedo aos que são a favor por promoverem uma campanha nos corredores.  

Uma coisa é certa: os deputados do PSD foram todos chamados a comparecer na votação desta sexta-feira e não tiveram direito a dispensas para trabalho político. Porque como dizia um social-democrata “isto está à pele”.

PS move-se pelo sim
Dentro do PS também houve quem se tivesse colocado no terreno. “Não estivemos a dormir, também estivemos a fazer as contas”, reconheceu o deputado e um dos proponentes do projecto, Pedro Delgado Alves. Sublinhando que é um trabalho que já vem sendo “feito há meses”, Delgado Alves reconheceu que se fez um esforço para “assegurar que o número maior de pessoas estará presente” na votação. Questionado sobre se houve contactos para trabalhar os mais resistentes à proposta, o deputado admitiu que houve uma tentativa para a sensibilização. “Mas também quem tinha que decidir, já decidiu”, disse.

Isabel Moreira, outra das socialistas que trabalhou na proposta, reconheceu que “ao longo destes meses houve um trabalho sossegado”. “Esse forcing foi feito, como é natural dentro de qualquer partido”.

Também não foram esquecidos os deputados da maioria que estavam inclinados para a votação a favor. Delgado Alves reconhecem que se “trocaram algumas impressões”. Mas sem pressões. “Quem votou a favor há um ano, não me parece que agora mude o sentido de voto”, disse Delgado Alves.

Mas as ausências – alguns deputados tinham viagens marcadas e não conseguem voltar a tempo – e algumas mudanças de sentido de voto para lados opostos estão a baralhar as contas. Nas bancadas mais à esquerda são certos os votos a favor de 14 deputados do PCP, oito do BE e dois do PEV. No CDS deverão ser 23 votos contra em resultado do que convencionou chamar uma “orientação firme de voto”, o que deixa a incógnita para as bancadas do centrão. Em caso de empate, a votação tem de ser repetida na mesma sessão plenária e caso volte a ser a mesma, o diploma chumba.