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Cinco ideias sobre a 4.ª Jornada do Seis Nações

A Inglaterra apresenta-se mais arrojada, Gales continua dependente do poderio físico, a Irlanda voltou a inovar e a França mantém-se um enigma

1. A Inglaterra de Lancaster é diferente

Clive Woodward conduziu o XV Inglês ao seu único ceptro mundial, em 2003, seguindo uma lógica empresarial de cumprimento mecânico dos requisitos do jogo. Asfixia competente sem encantamento estético. Quando todos reconhecem a brutalidade dos ingleses na placagem e no “ruck”, a actual selecção de Stuart Lancaster procura assumir um inédito lirismo. Apresenta hoje, como antes, monstros como Lawes, Launchbury ou os irmãos Vunipola, mas tem novo espaço para a espontaneidade de Care, o arrojo de Brown, a airosidade de May, a indústria de Nowell. Acima de tudo, tem o encorajador anátema Twelvetrees, cujas fragilidades defensivas são justificadas pela capacidade que empresta à equipa de alargar o jogo mais cedo. Sempre organizada em duas linhas e três planos (podem ler mais no Mister do Rugby), a Inglaterra de Lancaster explora em cada momento a melhor solução, pecando ainda pela falta de instinto dos seus jogadores na procura do espaço e da vantagem. A este homem com passado na formação se deve o novo arrojo inglês. E mesmo que não vençam a competição, são a mais refrescante das equipas. Com a resiliência e rigor na colisão dos Saracens, com a vocação de continuidade dos Harlequins, com a organização ofensiva dos Saints.

2. O fim de “WarrenBall”?

Escrevi depois do Irlanda-Gales sobre as dificuldades galesas. A resposta frente à França foi avassaladora, mas teve demasiada debilidade gaulesa à mistura. A verdade é que Warren Gatland continua a precisar de domínio físico para arranjar espaço para as suas fenomenais linhas atrasadas, sobretudo quando joga com Mike Phillips (um desastrado Rhys Priestland não tem ajudado...). A questão é que não existem substitutos aparentes, pelo menos que entrem e joguem o que é necessário (excepção feita a Ball, um achado). É altura de Dan Biggar jogar mais e de apostar continuamente em Rhys Webb, simplesmente porque o seu passe é melhor e mais rápido. Quando os adversários surgem com Kryptonite, há que encontrar novas saídas. Quade Cooper e os Wallabies provaram em Novembro que se pode jogar e encantar sem “rebentar” os adversários fisicamente.

3. Irlanda fez jus a O’Driscoll

No seu último jogo em Dublin pela selecção irlandesa, Brian O’Driscoll mostrou a melhor face do seu râguebi actual (sobre a despedida de BOD recomendo a crónica do Francisco Pereira Branco). A Irlanda apresentou mais uma “inovação”, ao procurar os canais exteriores desde a primeira ou segunda fase, deixando de lado a receita avançada de “mauls” e pontapés, vista contra Escócia e Gales. Mais uma demonstração da versatilidade táctica de Schmidt, que transformou a Irlanda num verdadeiro candidato. No entanto, e apesar da vantagem na diferença pontual, a Irlanda tem uma visita complicada ao Stade de France, onde a selecção gaulesa pode fazer o habitual: vencer quando ninguém lhes dá hipótese.

4. O bom e o mau de Saint-André

Philippe Saint-André tem mais “tento na língua” que o seu antecessor, Marc Liévremont, que, notavelmente, é mais famoso pelas trocas acesas de palavras com jornalistas e antipatia gerada entre os jogadores, e menos pelo facto de ter alcançado a final da Taça do Mundo. Tem também a coerência de saber afastar um dos seus melhores jogadores por ter sido amarelado por palavras ao árbitro, tendo ainda a coragem de manter Plisson a abertura – demasiado longe da linha da vantagem – quando a crítica pede o regresso de Rémi Tales. Porém, não tem conseguido dotar a equipa gaulesa de um fio condutor. Nem sequer defensivamente. Sinceramente, não consigo dizer como joga a França, porque não existe padrão. Foram medíocres contra a limitada Escócia, a quem ofereceram os primeiros ensaios da competição em Murrayfield. Um por um, os franceses são uma selecção impressionante e podem, se defenderem bem, ganhar um jogo em dois ou três rasgos individuais (intercepção de Huget) ou assomo circunstancial de brilhantismo colectivo, potenciado pelo cansaço adversário (ensaio de Fickou frente à Inglaterra). Este jeito francês de surpreender cansa até o mais fiel, e urge encontrar um modelo consistente. Basta olhar para Clermont ou Toulouse e perceber o caminho.

5. Compreender o árbitro

Sem prejuízo das atenções derramadas sobre a “melee”, é ao nível do “ruck” que subsistem as maiores diferenças nos critérios de arbitragem. Como exemplo flagrante, dois lances de recuperação de bola pelo placador, virtualmente idênticos, mas com desfechos dispares. Em Dublin, a acção defensiva de O’Driscoll era elogiada na TV, que repetia um lance em que BOD placa, não chega a largar o placado (a denominada “daylight”), toca inclusivamente com um joelho no chão, mas ganha uma falta ao adversário por este não ter libertado a bola. Em Edimburgo, Tim Swinson placa um atacante francês isolado, não chega a largar completamente o adversário, consegue lutar pela posse de bola mas é penalizado por não ter garantido “daylight” entre corpos. Desta falta resultaram os últimos e decisivos 3 pontos para os franceses. Lances idênticos, ajuizados de forma decisivamente distinta. A concessão de penalidades é uma inevitabilidade no râguebi. Em relação a estas, o treinador recomendará compreensão urgente da norma adoptada pelo árbitro, e critério no local onde o risco é assumido. Por muito que Swinson se sinta injustiçado, os 22 metros defensivos, em frente aos postes, à frente por dois pontos e a três minutos do final, não são o melhor local para aventuras...

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