Crítica

A pré-história da Matrix

Depois de Valsa com Bashir, Ari Folman regressa com um novo OVNI, inclassificável e desorientador, ancorado por uma interpretação notável de Robin Wright.

Pela sua própria natureza, Valsa com Bashir (2008) era um objecto “fora”, um OVNI - um “documentário animado” onde o israelita Ari Folman expiava, de modo catártico, a sua experiência no exército judeu durante os massacres de Sabra e Chatila. Mas, mesmo OVNI, ainda se conformava a uma narrativa mais ou menos tradicional e estruturada. O Congresso, o regresso de Folman à longa-metragem cinco anos depois, num registo completamente diferente, estica as fronteiras do que é ser um OVNI - ou devolve-as ao que elas eram há 40 anos, paredes-meias com o radicalismo contra-cultural do psicadelismo dos anos 1960 e 1970. Mas, por trás dessas alucinações lisérgicas, entre o Submarino Amarelo que George Duning criou para os Beatles em 1968 e o Homem Duplo de Philip K. Dick que Richard Linklater animou aqui há uns anos, reside uma meditação sobre o mundo moderno e uma profecia desconfortável sobre um possível futuro alienado.


Partindo de um romance do polaco Stanislaw Lem (autor de Solaris) que imaginava uma “realidade virtual” criada quimicamente através de drogas, Folman constrói uma fábula triste sobre uma “sociedade do espectáculo” regida com mão de ferro pelo complexo cultural-industrial, onde cada um é o actor no seu próprio filme, o herói da sua própria aventura, mesmo que por trás dessa aparência o mundo seja uma miséria. O truque de Folman reside em começar O Congresso numa imagem real solar e perfeitamente definida e de, a meio caminho, o fazer derrapar para uma animação onírica, surrealista, primitiva. A ligação é feita através de uma actriz, Robin Wright, que, praticamente forçada a ceder a sua imagem para um avatar digital manipulável ao bel-prazer dos estúdios, compreende tarde demais que a sua rendição à tecnologia é o primeiro passo para a queda da sociedade num paraíso artificial que obscurece a total ausência de futuro.

Interpretando uma versão alternativa de si mesma, Robin Wright, numa performance assombrosa de sensibilidade, torna-se na consciência e na última réstea de humanidade de um mundo em queda livre. É a sua entrega absoluta que dá a O Congresso a alma de que o filme necessita para não tombar no puro delírio psicadélico, a âncora de um objecto que faz questão de largar amarras para longe de todas as lógicas convencionais. No processo, torna-se numa trip que, à imagem da ficção científica tradicional, estimula os sentidos tanto como o intelecto, revela lentamente as múltiplas camadas de uma realidade em constante flutuação. É um filme literalmente inclassificável, que esconde por trás da sua aparência de midnight movie no limite do delírio um olhar quase de pesadelo sobre o futuro radioso. O Congresso é a pré-história da Matrix dos irmãos Wachowski, o relato do momento antes da abdicação da humanidade. Deste filme não se sai ileso.