Susana Vera/Reuters
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Os pobrezinhos tão engraçados

O pão não dá liberdade. Mais vezes a tira do que a dá. Só haverá liberdade a sério quando, como cantou Sérgio Godinho, houver ‘’a paz, o pão, habitação, saúde, educação’’

Recentemente o P3 deu notícia da instalação no Porto de uma organização de distribuição de restos de restaurantes pelos pobres. É mais ou menos isto, dito por palavras mais faustosas.

Não é fácil escrever sobre o assunto. Aliás, se pensarmos seriamente sobre ele colocar-nos-emos, no domínio da ética, num confronto delicado. Há uns meses, a Helena Roseta arriscou dizer, com a coragem que lhe é reconhecida, que “toda a gente se oferece para voluntariar e ir para a rua distribuir comida aos sem-abrigo, como se fossem dar milho aos pombos”. O supremo tribunal do puritanismo e dos bons costumes, ou seja, as redes sociais, não se demorou para condenar liminarmente, em auto de fé, a arquitecta e para a colocar na lista liderada pela Pepa, pela Pepsi Sueca e por Fernando Tordo.

Nas ruas de Lisboa e Porto abundam, cada vez mais, as sopas dos pobres, os movimentos massivos de solidariedade. Solidariedade, dizem alguns, porque a mim parece-me mais caridade, ou, em casos específicos, caridadezinha. Faz-me lembrar um notável poema de Armindo Mendes de Carvalho: ''Os pobrezinhos/ tão engraçados /pedem esmolinha/ com mil cuidados/ Todos sujinhos/ e tão magrinhos/ a linda graça/ dos pobrezinhos''.

Vamos por partes.

Do ponto de vista das pessoas em situações urgentes é melhor haver comida do que não haver. A barriga vazia enche-se com comida, sejam restos de vitela ou vitela mesmo, e não com política e isso ninguém pode contestar. O problema é que encher barrigas é a mesma coisa que mantê-las cheias numa condição de profunda indignidade e de dependência. Retira-se a fome e a liberdade.

Estas iniciativas avulsas da "sopa dos pobres", ora ligadas à igreja, ora ligadas a instituições, ora impulsionadas por famílias, são o melhor contributo para a sustentação da pobreza e da fome em Portugal e aí reside o grande paradoxo que comecei por enunciar. É que tirar a "barriga de miséria’" é institucionalizar a pobreza, alimentar um sistema viciado à partida e que é o principal autor da própria miséria.

O pão não dá liberdade. Mais vezes a tira do que a dá. Só haverá liberdade a sério quando, como cantou Sérgio Godinho, houver "a paz, o pão, habitação, saúde, educação’". Valores que, isoladamente, de pouco valem para a robustez da sociedade.

O espírito missionário e o assistencialismo beneditino não servirão para mais do que confortar a consciência de quem o pratica enquanto se aceitar que há, em Portugal, quem pague dois euros por uma hora de trabalho. Enquanto, sobretudo, não nos revoltar que isso seja feito nos termos da lei. Enquanto câmaras municipais prosseguirem os seus planos de gentrificação e higienização social dos centros e das zonas privilegiadas das cidades, como fizeram, no Porto, com o Aleixo ou com os quarteirões prioritários. Gostam tanto de pobres que encontraram lugares próprios para os enjaular.

Eu não gosto de pobres. Odeio-os tanto que gostava de os ver a acabar, um a um. E estou quase certo que a única forma de acabarmos com a pobreza é tornarmos ilegais as suas origens. A única arma de combate à pobreza, ou, pelo menos, a mais eficaz, é, pelo que se sabe, a democracia. É a "liberdade de mudar e decidir".