O rapaz do documentário

Izidor Ruckel foi adoptado por uma família americana quando tinha 11 anos. Hoje tem 31 e o tempo que passou num infantário na Roménia nunca lhe saiu da cabeça.

Izidor é hoje um activista defensor das dezenas de milhares de crianças que ainda padecem nas instituições romenas.

Apagam-se as luzes e começa a passar um antigo vídeo. Numa sala fria, dezenas de crianças com cabeças rapadas estão sentadas nuas em poças de urina, lutando por uma tigela de papa, presas a radiadores. A perna de uma menina forma um ângulo grotesco; usa as mãos para se deslocar no chão molhado. Várias crianças abanam a cabeça para a frente e para trás contra a parede. 

Não é fácil ver este filme, mesmo para quem se lembra de o ter visto já na televisão há duas décadas. O muro de Berlim tinha acabado de cair e as ditaduras comunistas da Europa de Leste estavam a entrar rapidamente em colapso. Alguns meses depois da execução do líder da Roménia, Nicolae Ceausescu, em 1989, os jornalistas ocidentais descobriram um submundo desesperante de crianças abandonadas, amontoadas em orfanatos sem aquecimento. Estimava-se que 180 mil estivessem a viver nessas condições, e vê-las no programa 20/20 da ABC levou milhares de americanos a correr para salvar as crianças esquecidas da Roménia.

Numa tarde de Outubro de 2012, alguns desses americanos sentam-se numa sala do hotel Homewood Suites, em Davidson (Carolina do Norte) com as crianças romenas que adoptaram. Adolescentes e jovens adultos são demasiado jovens para se lembrarem bem do seu país natal. 

Mas uma das pessoas na sala lembra-se. “Aquele da camisola vermelha é o Izidor”, diz uma voz quando um menino com um grande sorriso aparece no ecrã. O rapaz tem dez anos, mas é do tamanho de uma criança muito mais pequena, devido à malnutrição. Izidor Ruckel, de 31 anos, ainda é baixo, com uns olhos castanhos com olheiras e cabelo muito curto. Ele é a razão pela qual todos estão aqui hoje.

Quando era criança, a sua determinação em sair do orfanato lançou-o para os braços de uma família americana. Como adolescente recém-adoptado, lutou para que os seus amigos do orfanato fossem também para os Estados Unidos. Já adulto, tornou-se um activista, defensor das dezenas de milhares de crianças que ainda padecem nas instituições romenas.

Determinado a que elas não tenham de viver os pesadelos por que ele passou, quer ajudá-las da mesma forma que ele próprio foi ajudado um dia: tornando a sua história pública. A equipa da ABC chegou à instituição onde estava Izidor numa manhã fria de 1990 e conseguiu passar por um porteiro atordoado. Não era o primeiro orfanato romeno que a equipa do 20/20 visitava, mas era o pior. “Era como um asilo de loucos”, recorda Janice Tomlin, uma produtora que estava lá naquele dia. “Vimos crianças em coletes de forças, vimos crianças numa jaula… vimos um miúdo que estava literalmente a morrer à fome.”

Símbolo da decadência do império

Durante o regime de Ceausescu, o planeamento familiar e o aborto foram proibidos e as mulheres eram pressionadas a ter pelo menos cinco filhos para fornecer trabalhadores e combatentes ao país. Um número incontável de crianças foi parar a instituições, às vezes devido a deficiências, mas muitas vezes simplesmente porque os pais não tinha  possibilidades de as criar.

As crianças enrolavam os braços às pernas dos visitantes. Lá estava Marin, um rapaz cigano de cabelo escuro com um sorriso contagiante. Ana, cega e acamada, mas cantando uma melodia perfeitamente afinada. E Izidor, um rapaz de olhos brilhantes, a coxear. 

Os jornalistas produziram um documentário em várias partes que chocou os espectadores americanos e ajudou a desencadear uma vaga sem precedentes de adopções internacionais na Roménia e por todo o bloco de Leste. “O meu telefone tocava sem parar”, diz Tomlin, que mais tarde adoptou duas raparigas. “Os casais americanos, todos com histórias tristes de tentativas de adopção, queriam adoptar uma determinada criança que tinham visto na nossa reportagem.”

Os media de todo o mundo apresentavam os orfanatos da Roménia como o símbolo da decadência do império. “Foi incendiário”, comenta Adam Pertman, director executivo do Instituto de Adopção Evan B. Donaldson, com sede em Nova Iorque.

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Izidor Ruckel Michael S. Williamson

Milhares de americanos foram à Roménia para salvar as crianças. Mas no caos pós-revolucionário não havia praticamente nenhuma das regulamentações e supervisões que normalmente são necessárias para as adopções. Muitos pais adoptivos não sabiam nada sobre os efeitos provocados pela privação e negligência. Muitas daquelas crianças tinham-se tornado emocionalmente fechadas, incapazes de processar ou manifestar afecto. “As pessoas não sabiam que tinham de se preparar para criar uma criança que poderia ter necessidades especiais”, afirma Pertman. “As pessoas assumiram que só o amor conseguiria tudo.”

Em 1990, 121 crianças romenas receberam vistos de adopção americanos. No ano seguinte, o número chegou aos 2594. Os americanos continuaram a adoptar até ao início de 2004, quando a Roménia proibiu a maior parte das adopções internacionais devido a acusações de corrupção e rumores de que as famílias americanas estavam a traficar crianças e a vender os seus órgãos. Nessa altura, os americanos tinham adoptado cerca de oito mil crianças romenas e dezenas de milhares da Rússia, Cazaquistão e outros países do bloco de Leste.

Nuca cheia de cicatrizes

Dirigindo-se a uma audiência na Carolina do Norte, com um ligeiro sotaque e uma pontinha de rancor, Izidor descreve a vida no Hospital para as Crianças Irrecuperáveis, um edifício frio de betão, na cidade remota de Sighetu Marmatiei, na Transilvânia. Tem um registo formal e um pouco ríspido, mesmo que de vez em quando o salpique com algumas expressões como bro (mano) ou Jeez Louise (ena pá).

“Se fizéssemos alguma coisa que chateasse minimamente alguém, eles drogavam-nos ou batiam-nos ou punham-nos um colete de forças — qualquer coisa que nos mantivesse quietos”, conta. Tem a nuca cheia de cicatrizes. “Uma criança saudável num destes orfanatos?”, lança num tom de voz cativante. “Dêem-lhe um ano e as suas esperanças e sonhos e futuro ser-lhe-ão retirados.”

Izidor abre a sessão de perguntas. As pessoas felicitam-no pelo seu sucesso, ainda mais impressionante por ser tão improvável: aos 11 anos, foi tirado do orfanato por uma família americana da Califórnia e vive agora em Denver, onde se sustenta através de dois trabalhos mal pagos. Ser um “órfão profissional” é, como ele diz, o seu terceiro emprego.

É um dos poucos do grupo inicial de adoptados que têm uma vida autónoma e é certamente o mais activo. Sabe pela sua experiência pessoal o poder que pode ter um vídeo. E por isso, juntamente com outros adoptados romenos, planeia fazer um documentário sobre os actuais “órfãos” romenos. Este encontro era uma forma de angariar apoios para a viagem. Concluíram que precisavam de 30 mil dólares (22 mil euros). “Isto é uma coisa que pode mudar a história da próxima geração”, diz à plateia. “Ou até mesmo da geração actual.”

Izidor visitou algumas instituições governamentais em 2005. Apesar de as crianças já não morrerem à fome, diz, muitas são ainda negligenciadas e vítimas de abusos. Quando estas crianças institucionalizadas crescem, há poucos serviços que os ajudem a ajustar-se à vida de adulto, afirmam activistas dos direitos das crianças. Muitos acabam sem abrigo, expulsos dos locais onde cresceram.

Izidor reconheceu alguns dos seus amigos de Sighetu, que agora são crescidos e vivem na rua. “Sinto imensa pena deles”, conta. “Alguns destes miúdos nunca tinham posto um pé de fora, e quando fazem 18 anos não têm quaisquer habilitações.”
Depois da apresentação, enquanto recolhe os donativos e autografa as memórias que escreveu sobre a sua vida no orfanato, um rapaz de 14 anos com cabelo liso, escuro, debaixo de um boné de basebol com a pala virada para trás, aproxima-se e sorri envergonhado.
“Chamo-me Jared Smith”, diz. “Também sou da Roménia.”
“Então, como vai a vida?”, pergunta Izidor. 
“Umh, tem sido muito boa”, responde Jared. Ele o irmão foram adoptados quando eram muito pequenos por um casal da Carolina do Norte, e ele está interessado em ajudar crianças abandonadas da Roménia, conta. Izidor diz-lhe para pensar num voluntariado numa organização local que está a projectar enviar estudantes americanos para trabalharem com crianças na Roménia.
“Sinto que me tenho saído bem e que deveria fazer alguma coisa”, afirma Jared.

Izidor conhece essa sensação. Mas não está seguro de que se tenha saído bem. Quando uma mulher na fila lhe pergunta o que faz agora da vida, baixa a cabeça.
“Não trabalho num sítio lá muito bom”, diz suavemente. “Trabalho no aeroporto e o outro sítio é”, e aqui sussurra, “o Wal-Mart”.
“Não é um sítio mau”, afirma a mulher. Mas Izidor tem aspirações mais elevadas.
Depois de todos saírem, conta o dinheiro e os cheques: 820 dólares. É um começo.

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Um dos orfanatos em 1989: crianças malnutridas e abandonadas Isabel Ellsen/Corbis

Uma nova vida

Talvez por a sua vida no orfanato ter sido tão brutal, uma das memórias mais fortes de Izidor dessa altura foi uma noite em que alguém foi amável com ele. Uma enfermeira entrou enquanto ele estava a ser espancado por alguma infracção. Ela fez parar a sova e, esperando animá-lo, levou-o para casa. Era a primeira vez que se lembrava de ter saído do orfanato. Viu prédios de apartamentos e respectivos moradores. Sentiu a neve cair na cara.

“Parecia ter durado horas e foi um passeio de cinco minutos”, recorda. “Eu estava feliz. E assim que ela abriu a porta de casa, tudo cheirava a comida. Dava para sentir o cheiro de couve enrolada, sentia-se o cheiro do kishtele, um tipo de almôndegas… aquilo era amor.”

Durou apenas uma noite, mas ele queria mais. Izidor era baixo e tinha problemas numa perna, mas sabia ser persistente, charmoso com as enfermeiras, ou pôr os outros órfãos de parte para ter o que queria. Por isso, quando os americanos chegaram, desta vez à procura de crianças para adopção, ele garantiu que não passaria despercebido.

“Lembro-me de o Izidor se ter literalmente agarrado à minha perna e de me ter obrigado a sentar-me ao seu lado”, escreveria mais tarde John Upton, um produtor de cinema da Califórnia que se tornou intermediário dos americanos que queriam adoptar várias crianças de Sighetu. “Disse-me através do meu intérprete que queria sair daquele inferno.”

Meses depois, chegaram duas mulheres de San Diego. Uma era Marlys Ruckel. Agarrou num rapaz que tinha dez anos mas parecia ter seis, vestido com uma camisola e sapatos de menina. “Uma cara tão querida, com aqueles olhos escuros enormes”, recorda. “Mesmo sendo uma criança pequena, ele estava a controlar a situação. Perguntou: ‘Qual de vocês quer ser minha mãe?’ E a partir daí foi todo charmoso comigo.”

A nova vida de Izidor com os Ruckels, num subúrbio de San Diego, incluía três filhas biológicas e uma rapariga com problemas físicos e psicológicos que também tinha estado em Sighetu. Apesar de não ficar contente de a ver — eles não se tinham dado bem no orfanato —, tudo o resto parecia um sonho tornado realidade. Izidor tinha o seu próprio quarto, muita comida, um cão e um gato de estimação, uma mãe e um pai. Mas muitos dos seus amigos de toda a vida tinham ficado na casa das crianças irrecuperáveis, a lutar por papa. “Foi um fardo muito pesado para o Izidor”, lembra Ruckel. “Éramos perseguidos pelas caras daqueles que não tinham vindo. Eram como irmãs e irmãos para ele.”

Assim que o seu inglês ficou suficientemente bom, Izidor começou a telefonar para Upton, exigindo-lhe que fosse salvar os seus amigos. Upton acabou por trazer cerca de uma dezena de crianças de Sighetu para os Estados Unidos, contornando algumas regras para os fazer sair da Roménia.

Ana, a adolescente cega que cantava lindamente, foi adoptada por um casal de Michigan. Elena, a rapariga com uma perna torta, foi para uma família do Luisiana. Marin, o rapaz cigano, foi acolhido por uma família de Grass Valley, na Califórnia. Seis crianças foram parar a famílias em Hampton, na Virgínia.

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Izidor durante uma palestra onde mostrou o documentário que está a fazer com Alex King sobre a realidade dos orfanatos na Roménia Michael S. Williamson

Um inferno de criança

Izidor assimilou a língua e a cultura americanas. Fez amigos e aderiu à fé cristã dos pais adoptivos. Mas quando entrou na adolescência os seus impulsos mais negros vieram ao de cima. “Comecei a ficar com muitas saudades de casa, comecei a ficar muito zangado, não estava habituado ao amor”, recorda. “Tornei-me um inferno de criança. Não suportava a família. Costumava dizer-lhes: ‘Quero voltar para o orfanato’.” O lugar de Izidor na hierarquia mudara.

Os médicos disseram que ele tinha tido poliomielite quando era criança e, apesar de várias operações na Califórnia, continuava a ter de usar um aparelho na perna. Ele tentava não ficar para trás. Juntou-se à equipa de natação e concorria com miúdos sem incapacidades — mas, quando entrou na equipa de basebol, foi para carregar com os bastões e não para jogar. 

“No orfanato, ele era um dos mais fortes e um dos mais espertos, e acho que ele sentiu que aqui não”, diz Marlys Ruckel. Começou também a fazer perguntas sobre Sighetu. “Estava muito, muito zangado”, diz ela. “Não percebia porque é que os seus pais o deixaram lá, por que razão nunca voltaram para o ir buscar, e queria voltar para a Roménia. Queria voltar para lhes mostrar que estava bem. E estava zangado connosco também… Estava zangado com toda a gente. Quando descobriu que nunca poderia ser Presidente dos Estados Unidos, disse: ‘Então quero voltar para a Roménia e ser rei’.”
O Izidor adolescente tornou-se combativo, falava mal à mãe e batia no pai. Acabou por sair de casa, abandonar a escola no último ano e começou a beber e a fumar erva. Mas era consciente o suficiente para aparecer nos seus empregos em restaurantes de fast-food.

Poucos dias depois de fazer 18 anos, soube que a família tinha tido um acidente de automóvel sério. Abalado, reconciliou-se com eles, deixou a droga e recomeçou a frequentar a igreja. Mas continuava a fantasiar com o seu regresso à Roménia. E quando o 20/20 se ofereceu para o levar de volta a Sighetu para fazer um programa de follow-up, ele aproveitou a oportunidade. Tinha 21 anos.

“Foi como o rapaz da aldeia que volta à terra”, conta Tomlin, a produtora, que o acompanhou nessa viagem de 2001. “Todas as crianças se alinharam nas suas roupas de domingo, havia todo o espectáculo montado — cantaram, deram-lhe um ramo de flores. Digamos que foi bizarro.”

Reencontro com os pais

Para Izidor, o orfanato representava ao mesmo tempo sofrimento mas também, de forma estranha, conforto. Sabia bem estar de volta. Ao mesmo tempo, ficou furioso com a forma como as crianças continuavam a ser tratadas. Como era um visitante célebre, foi-lhe permitido andar de quarto em quarto, recolhendo imagens para o 20/20 que a equipa americana não tinha recebido autorização para captar: crianças a ser espancadas e colocadas em coletes de forças, a bater com as cabeças contra as camas e a sentar-se na sua própria urina.

Como última surpresa, o 20/20 conseguiu localizar a sua família biológica e levou-o ao seu encontro. Ele só os tinha conhecido uma vez, mesmo antes de partir para os EUA, quando apareceram no orfanato para uma aparente tentativa de conseguir algum dinheiro dos americanos que o queriam adoptar; o director do orfanato ordenou-lhes que se fossem embora.
Agora, estava subitamente na casa deles, uma barraca num campo de lama numa cidade chamada Tasnad, a cinco horas de Sighetu, onde os quatro irmãos biológicos de Izidor cresceram. Ao falar-lhes (com tradutor, porque o seu romeno estava enferrujado), emergiu toda uma vida de dor.
“Vocês abandonaram-me”, disse ele. “As crianças eram espancadas. Não havia aquecimento… Sabem? Viver em Sighetu foi o pior, era como viver no inferno.”

Os pais protestaram — ele tinha um problema na perna e uma mulher no hospital disse-lhes que o mandassem embora. Não tinham dinheiro para fazer visitas. Não sabiam a que ponto o orfanato não tinha condições.
Mas nada daquilo que eles diziam podia afastar a raiva que ele sentiu. 

A visita de Izidor à família de origem aterrorizara Marlys Ruckel. “Sentia que o ia perder”, disse ela. “Sentia ‘ele vai encontrá-los e claro que eles vão ficar com ele para sempre’.” Mas depois da visita recebeu um telefonema da Roménia. Era o seu filho a dizer-lhe: “Vou voltar para casa.”

A pessoa que regressou era um novo Izidor. Parecia mais calmo, mais confiante e adaptado. “Ele dizia: ‘Oh meu Deus, estou tão grato por vocês se terem esforçado tanto para ficar comigo e me ajudarem’”, conta a mãe. “Ficámos mais próximos desde então.”

Izidor manteve-se em contacto com um dos seus irmãos biológicos, regressando em 2005 para passar alguns meses com ele na localidade de Sighetu; comunicam-se regularmente por Skype, e também com uma das irmãs, que se mudou para Itália.

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No final da década de 1990, a adopção de crianças romenas tornou-se um negócio Isabel Ellsen/Corbis

 “Ofereceram-me bebés”

No documentário, Izidor fez parelha com Alex King, um videográfico de 25 anos com um passado idêntico ao seu, apesar de Alex ter sido adoptado aos seis anos. Conheceram-se depois de a mãe de Alex ter comprado uma cópia do livro de memórias de Izidor. Até agora, entrevistaram pais adoptivos americanos e uma mulher romena que dirige um abrigo privado de crianças nos arredores de Bucareste, que Izidor considera ser uma alternativa melhor às instituições do Estado.
Agora, numa casa espaçosa perto do aeroporto de Denver, um mês depois do evento na Carolina do Norte, estão a entrevistar Tomlin, a antiga produtora do 20/20, que veio do Texas para participar na sua angariação de fundos aqui.
Tomlin descreve o final da década de 1990, quando a adopção na Roménia se tornou um negócio. “Ofereceram-me bebés”, afirma, referindo-se a uma investigação que fez sobre o mercado negro de crianças.

A pobreza era tão grande que as pessoas tinham de levar “uma lâmpada para uma sala, depois para outra e para outra”, conta. “Penso que em muitos casos [os pais] pensavam que era temporário, só enquanto usavam fraldas, e que depois os iriam buscar — e de alguma forma isso nunca acontecia. Andei por todo o mundo, vi crianças a morrer à fome na Etiópia, vi coisas horríveis, horríveis.” Mas o que viu na Roménia, diz, “ninguém se pacifica com aquilo”.

Izidor ouve, com as mãos enfiadas nos bolsos, os olhos cobertos de dor. A casa, cheia de fotos de família, cães amistosos e um cheiro a bolo de café caseiro, pertence a Sara e a Chris Padbury, que adoptaram cinco crianças. Izidor vai muitas vezes à igreja com eles. É a vida que conseguiu montar, uma mistura de americano e romeno.

As montanhas com neve do Colorado e o ar gelado fazem Izidor sentir-se em casa. Outras coisas também. O seu apartamento tem pouca mobília, mas uma das prateleiras tem um altar de tchotchkes romenos — um pequeno barril de vinho em cerâmica com canecas a condizer e uma placa em madeira. As cortinas do seu quarto são em cor de vinho com um laço, como as que havia na casa da enfermeira. O toque do seu telemóvel é uma música tradicional romena. 

Ele é americano e não americano, romeno e não romeno; fala com sotaque as duas línguas. Onde quer que esteja, é diferente, o que o pode fazer sentir-se sozinho, mas também o eleva acima do mundo cinzento que o rodeia.

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Alunos de uma escola na Carolina do Norte onde Izidor Ruckel fez uma audiência sobre a situação dos orfãos romenos Michael S. Williamson

Na maior parte das noites, apanha o autocarro para o Wal-Mart para fazer o turno nocturno na caixa. Três dias por semana trabalha como assistente na garagem do aeroporto. Isso faz 62 horas por semana. Mal dá para a alimentação e para os 670 dólares de renda do seu apartamento de duas assoalhadas num condomínio modesto à saída da auto-estrada 70. Divide a casa com Chuck, um amigo alto e de ar infantil, da Califórnia, com óculos demasiado grandes e gorros de malha. Chuck, dez anos mais novo que Izidor, tem dificuldades em manter-se num emprego, por isso Izidor paga a renda e ajuda-o a procurar trabalho. Chuck também ajuda Izzy, dando-lhe boleias para o trabalho, cozinhando e limpando, pressionando-o para sair de casa a horas.

É uma vida com poucas excitações, mas cheia de conversas sérias e resmunguice amigável (“Nada de animais”, declara Izidor; Chuck jura imediatamente que vai comprar um cão). Izidor vai buscar o jantar para ambos num centro comercial próximo e comem no minúsculo sofá enquanto vêem DVD.

Depois, vão à varanda fumar um cigarro, mas Izzy volta para dentro impaciente, elevando a sua perna pela centésima vez nesse dia. “Bolas, odeio este apoio”, diz ele, resmungando com o aparelho de titânio e plástico. Já tem quatro anos e as juntas começam a soltar-se. “Vai partir. Já disse na Wal-Mart que se partir eu tenho de ficar de muletas durante uns dois meses até ter uma nova.”

Mas um aparelho novo custa 6000 dólares e o seguro que a Wal-Mart oferece custa 1560 por ano e não lhe garante antecipadamente que cubra um novo aparelho. Izidor dobra um cartão de visita para apertar o parafuso, endireita a perna e vai lá fora fumar.

As perdas de Izidor

A angariação de fundos no Colorado decorre numa gelada noite de sexta-feira, num prédio que pertence à igreja de Padbury. Veio um grupo de dançarinos romenos de Boulder para actuar, 85 pessoas confirmaram as suas reservas. Mas um par de horas antes do evento a polícia local fechou tanto a I-70 como a interestadual 25 devido à perseguição a um homem armado que ameaçou uma escola. Alguns convidados telefonaram a avisar que não iam. Só apareceram cerca de 20 pessoas e Izidor fica imóvel enquanto se serve de salada de batata. Quando não há mais ninguém a chegar, ele sobe ao palco e faz a sua apresentação.

Chuck pede autorização para se dirigir aos participantes. Diz que lhe parte o coração pensar em tudo por que Izidor passou. Diz que Izidor é uma das melhores pessoas que conhece. Depois, os amigos recolhem os envelopes deixados nas mesas: 1300 dólares. Na primeira semana de Janeiro, um leilão online de um poster autografado pela ginasta olímpica Nadia Comaneci e alguns livros e artesanato romenos rendem mais 250 dólares.

Alguns dias depois, Chuck e Izidor zangam-se. É sobre um assunto sem importância — Izzy deixou a porta destrancada enquanto via televisão permitindo que alguns amigos tivessem entrado enquanto Chuck fazia uma chamada privada pelo Skype. Mas a coisa escala para uma cena de berros, com Izidor a ameaçar ir-se embora.

É Chuck quem sai porta fora, ameaçando suicidar-se. Enquanto um frenético Izidor lhe fala pelo telemóvel, Chuck emborca duas garrafas de vodka e um pack de seis cervejas e engole dois frascos de comprimidos para dormir. Desliga o telefone a Izzy e deixa de atender as suas chamadas. Na tarde seguinte, uma mulher que tenta angariar pessoas para o seu grupo de estudo da Bíblia encontra o seu corpo no carro.

Devastado, Izidor cola fotografias do seu companheiro de quarto no Facebook e passa semanas a fazer um DVD de homenagem. Ao lembrar-se do seu último telefonema, a voz dele quebra-se. “Nem acredito que isto aconteceu debaixo do meu nariz.”

Em Março, outra perda: John Upton, o realizador e amigo que tirou tantas crianças da Roménia, é baleado e morto na Califórnia, numa disputa com um vizinho. Izidor pondera ir ao velório mas não tem dinheiro para a viagem.

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Izidor sofreu poliomielite em criança e apesar de várias operações continua a ter de usar um aparelho na perna. Na fotografia, está a montar o cenário numa escola para mostrar o seu documentário Michael S. Williamson

Adopções internacionais

Em Junho, Izidor, agora com 33 anos, e Alex montam uma versão inicial do seu documentário, com as entrevistas feitas até então.

Izidor saiu do orfanato em 1991, nas nunca o deixou realmente para trás. Manteve-se em contacto com muitos miúdos de Sighetu que foram para os EUA e outros que não, e faz parte de uma rede de pais, crianças e activistas, centenas deles, ligados à adopção na Roménia. Se se ligar a qualquer um deles a pedir informação sobre o assunto, é provável que respondam: “Já falou com Izidor Ruckel?”

Por isso faz sentido que em Outubro passado ele tenha sido um dos que foram contar a sua história ao Governo da Roménia. Deputados romenos juntaram-se para ouvir os defensores de uma lei que acabaria com a proibição da adopção internacional. Vários, incluindo alguns adoptados, vieram de Itália ou da Nova Zelândia; outros, como Izidor, participaram via Skype.

O testemunho de Izidor é apaixonado. Compara a vida numa instituição romena ao “holocausto” e critica o país pela falta de educação e treino para lidar com as crianças abandonadas. Avisa que não há ninguém na Roménia disposto a adoptar crianças com debilidades físicas ou mentais. Em vez disso, elas são deixadas “presas e enjauladas”. 

Do seu ponto de vista, a proibição impede o acesso de crianças abandonadas às oportunidades que ele teve. Ele e outros defensores consideram que a Roménia pode ser vista como um exemplo do que pode acontecer quando as adopções internacionais são proibidas num país com poucos recursos para tomar conta de órfãos. Cerca de 40 mil crianças estão em instituições na Roménia, segundo o Catharsis, uma organização romena de direitos das crianças. O Governo aponta para 22.500. As crianças com incapacidades ou de origem cigana têm hipóteses ainda menores de ser adoptadas localmente, dizem.

Outros países também impediram as adopções internacionais, sendo o caso mais recente — e mais conhecido — a Rússia, que nas décadas de 1990 e 2000 foi a origem de um dos números mais elevados de adopções internacionais. Num gesto que muitos encararam como jogo político, os deputados russos proibiram no ano passado, abruptamente, as adopções por parte de americanos, incluindo muitos que já tinham conhecido e já tinham criado laços com crianças que tinham sido autorizados a adoptar. Advogados temem que estas crianças continuem em instituições.

Ver Sighetu aberta 

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Enquanto Izidor fala, a sala de audiências em Bucareste fica silenciosa. Termina o seu depoimento — mas não acaba ali. Reparando que um senador que apresentara a lei e os seus representantes tinham entrado e saído da sala durante as três horas de testemunho, dirige a sua raiva para eles.

“Onde estava você?”, pergunta ao senador. “É muito embaraçoso ver os seus assessores saírem a meio do encontro.” O senador, envergonhado, justifica que tinha outros assuntos a tratar. A seguir, Izidor sente-se a afundar. E apesar do seu testemunho e apesar do encorajamento que recebeu dos Estados membros do Parlamento Europeu para se permitir a adopção internacional (muitos já o fazem), algumas semanas depois o Parlamento romeno mantém a proibição com 62 votos contra 40. Ramona Popa, porta-voz do gabinete do Governo romeno para as Adopções, afirma que, apesar de o gabinete não se opor em teoria às adopções internacionais, opõe-se à lei, que não é suficientemente detalhada para impedir problemas com o processo.

Desde que Izidor visitou a Roménia pela última vez, diz ela, o Governo encerrou grandes instituições e a lei que está em vigor desde 2005 ordena que as crianças em instituições recebam os serviços de psicólogos e assistentes sociais. “Agora há casas mais pequenas, que respeitam os direitos das crianças”, afirma Popa. “Se ele voltar outra vez, claro que verá que as condições são outras.” Izidor diz que tem dificuldades em acreditar nisso. Afirma ter visto documentos recentes com provas de que as condições ainda são más.

Mas a aproximação da votação de Novembro no Senado dá-lhe energia. Muitos romenos continuam sem se aperceber de como são más as condições nas instituições, diz. Talvez falando-lhes directamente, numa série de palestras, ele possa criar neles um desejo de mudança. A lei está agora na câmara dos deputados, o outro braço parlamentar do país, com mais audiências agendadas e mais uma votação. 

Izidor tem mesmo o sonho — de alcance longínquo, concede — de ver Sighetu aberta como centro educativo que ensinaria crianças abandonadas a ajustar-se ao mundo lá fora como adultos. Acima de tudo, diz, “abriria as portas, para que as pessoas pudessem entrar e sair livremente”.

Izidor e Alex estão determinados a chegar à Roménia na Páscoa. Não conseguiram grandes avanços no seu objectivo de angariar 30 mil dólares, mas Izidor está a poupar para um bilhete de avião e para ficar dois meses. Durante um tempo, esticou o seu horário para 77 horas de trabalho por semana e divide a casa. Em Julho, gastou 680 dólares para se candidatar à cidadania americana, e está prestes a fazer o exame.

Tomlin, agora uma produtora independente que filma o seu próprio documentário sobre órfãos romenos que segue desde 1990, propôs a Izidor contratá-lo para trabalhar lá com ela nesta Primavera, o que poderia atenuar alguns dos seus custos. Desde 1 de Janeiro que cada trabalhador pode ter um seguro de saúde, de acordo com a lei dos Cuidados de Saúde. E Izidor aceita finalmente a cobertura através da Wal-Mart. O custo do seguro desceu para 960 dólares anuais. Ainda não sabe se lhe cobre um aparelho novo.

“Às vezes, só desejo acordar e conseguir dobrar a perna, como o Forrest Gump”, diz ele. “Sabe, quando ele está a correr e o aparelho cai e ele consegue andar?” Para já, iça a sua perna e pega em mais um pedaço de papel dobrado.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post