A fábrica onde as mantas alentejanas ganham vida

As mantas alentejanas começaram por ser utilizadas pelos pastores para se protegerem do frio, hoje em dia são utilizadas como tapetes, cortinados, colchas e tapeçarias decorativas. Esta arte quase extinta, símbolo da cultura alentejana, é criada numa fábrica em Reguengos de Monsaraz.

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São apenas três pares de mãos e três pares de pés que produzem todo o tipo de artigos a partir das típicas mantas alentejanas. As tecedeiras trabalham oito horas por dia e, apesar de estarem sentadas, fazem “ginástica” o dia todo para darem resposta às inúmeras encomendas que recebem todos os dias.

“A manta serve para muita coisa, almofadas, biombos e puffs”, explica Mizette Nielson, a proprietária. Os hotéis que têm problemas de acústica aproveitam os têxteis para questões de isolamento, “é um dois em um: decoração e isolamento”.

Mizette tem contribuído para manter esta herança viva e tem nas suas mãos o desafio de não deixá-la morrer. É nesse espírito que quer assegurar a continuidade da actividade, adaptando-a ao longo do tempo.

A versatilidade das mantas é tal que já se fizeram cabeceiras com tapetes a condizer e um conjunto de 100 tapetes para hotéis, os desenhos foram escolhidos “com base em desenhos antigos alentejanos que foram adaptados”. Assim as mantas que originalmente eram uma espécie de cobertor de lã, usadas apenas por pastores e feitas com modelos simples, tornaram-se peças decorativas muito cobiçadas.

Esta criação artística acontece num antigo lagar de azeite, com uma área de 1600m2, adaptado a centro de exposições, fábrica de tecelagem e habitação. Mal galgamos a entrada parece que recuámos décadas, estamos na Fábrica Alentejana de Lanifícios, que de fábrica só tem o nome, já que tudo é produzido em teares manuais e conta-se pelos dedos de uma mão quem aqui trabalha.

Numa sala grande, tanto em espaço como em altura, com um tecto feito de vigas de madeira e um chão de cimento, com apenas duas pequenas janelas na parede e quatro aberturas no telhado, encontram-se 11 teares de todos os tamanhos, o mais pequeno tem 1,20m de largura e o maior 2,40m. Os teares mecânicos encontram-se desmontados a um canto, pois ali só se utilizam os originais, provavelmente já com 100 anos. Por toda a fábrica acumulam-se amostras, de várias cores.

Apenas três mulheres trabalham naquele espaço despido e frio, sentadas em frente aos teares, debaixo de grandes candeeiros que iluminam o que estão a fazer, abstraindo-se do barulho do bater das traves que ecoa pelas paredes. Fátima tem 53 anos e já está na fábrica há 12, conta que ali trabalham muito “por encomenda”: “E no intervalo vamos fazendo algumas coisas para a loja”. Pode estar sentada durante as oito horas, mas os braços e as pernas não param um segundo, por isso ao final do dia o corpo está cansado: “Saímos daqui estafadas”.

As tecedeiras fazem ginástica o dia inteiro. Firmam-se na burra, uma trave na traseira do tear, e enquanto carregam nos pedais puxam a maniota com a mão direita e empurram o batente com a esquerda. A lançadeira (onde se coloca a lã) voa da direita para a esquerda e da esquerda para a direita. É preciso muita coordenação, pois existem quatro pedais e os pés vão passando de um para o outro, dependendo do padrão que se deseja.

Ao gosto do freguês

Rita, de 29 anos, foi para a fábrica em Janeiro. Vivia em Lisboa há mais de dez anos, dava aulas de Educação Visual, mas quando não foi colocada voltou para casa dos pais, que fica precisamente na rua onde se encontra a fábrica. Propôs um estágio a Mizette e acabou por ficar: “Não tem nada a ver com dar aulas, mas estou a gostar muito do que faço. A tecelagem é uma das coisas que eu mais gosto”. Apesar de já não se encontrar rodeada de crianças considera que “o trabalho não é nada rotineiro, pelo contrário é muito gratificante e curioso”.

Mizette conta que vêm muitas estagiárias de fora, de faculdades de têxteis, com o propósito de aprenderem, só que “às vezes não convém, porque é material e tempo que se gasta, é preciso ter alguém com bases”. Mas como é a última fábrica de têxteis na Europa faz muito sucesso lá fora: “Temos visitantes todos os dias, de todos os lados do Mundo”.

Por ter apenas três tecedeiras, as pessoas têm de esperar para receberem os seus pedidos e as grandes encomendas demoram mais tempo: “A maioria delas provém da loja, de pessoas que vão passar o fim-de-semana a Monsaraz”. É que além da fábrica, Mizette ainda tem uma loja, afirmando que as duas “estão muito ligadas”, mas que “as pessoas preferem ir a Monsaraz por ser mais turístico”.

Quanto ao produto final, as medidas e os padrões podem variar conforme o gosto do cliente, tendo como base as linhas tradicionais. Sempre em lã, sem qualquer mistura de fibras sintéticas, podem ter riscas, espigas, quadrados, castelos, losangos ou fuzis. Em cerca de três dias, é terminada uma manta grande (com uma dimensão de dois metros e quarenta por três), mas já chegaram encomendas bem mais demoradas, como uma passadeira com 26 metros de comprimento.

Mizette fala sobre os pedidos que já lhe foram feitos dizendo que “é giro acompanhar as tendências de interior”. Conta que durante anos as encomendas incidiram apenas sobre o preto e branco, passaram depois ao amarelo e cinzento e, mais recentemente, aos tons terra, vermelho e ferrugem. “Na última temporada, também o verde e o azul forte entraram na lista de pedidos”, o que complica as quantidades que são necessárias mandar tingir.

Sendo um produto tipicamente português ,a lã utilizada também faz um percurso totalmente nacional: é comprada em rama em Castelo Branco, lavada e fiada na Guarda e tingida em Mira de Aire. Além das encomendas feitas na loja em Reguengos ou na própria fábrica, as mantas podem ser compradas na loja A Vida Portuguesa, em Lisboa e no Porto, mas não se encontra uma igual em mais lado nenhum, pois “o facto de ser um trabalho manual torna o produto exclusivo”. Quanto ao preço, os valores variam muito: “Como leva imenso tempo calculo pelo peso e dias de mão-de-obra, é o mais justo”, diz Mizette.

Mizette nasceu na Holanda e antes de vir para Portugal, em 1962, viveu em França, Inglaterra e Espanha. Foi directora de agências ligadas à moda, publicidade e cinema. Fez parte da produção do filme 007 "Ao Serviço de Sua Majestade”, o único da série rodado em Portugal, e organizou o primeiro concurso Miss Portugal.

Quanto ao destino desta fábrica Mizette conta: “Estou a procurar alguém que continue. Levou muito tempo para voltar a colocar as mantas de Reguengos no mapa, agora é algo economicamente visível e não quero que se perca isso”. Irá ensinar as bases e passar os conhecimentos que adquiriu durante os anos todos que esteve à frente do negócio. Pretende assegurar a continuidade desta actividade, que faz parte do património e da herança do Alentejo.