Venezuela vale-se dos seus aliados para travar resolução dos Estados Americanos

Governo de Caracas elogia a "firmeza da região latino-americana" que travou o envio de uma missão de observação à Venezuela.

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Uma rua barricada pela oposição na cidade de San Cristobal AFP/Leo Ramirez

Oito horas de reunião foram insuficientes para um consenso no seio do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA) para a adopção de uma resolução relativa à crise política e de segurança na Venezuela e o envio de uma missão de observação ao país, onde os confrontos de rua entre a oposição ao Governo e as forças do regime se arrastam há quase um mês.

Convocados pelo Panamá para um debate extraordinário sobre a situação venezuelana, os países americanos avaliaram diferentes propostas para uma “resposta conjunta” da organização à crise venezuelana: desde a chamada dos ministros dos Negócios Estrangeiros para uma ronda de consultas, à redacção de uma resolução apelando ao fim do conflito e reconciliação nacional, ao envio de observadores internacionais ao país. Mas naquela que foi considerada como “uma grande vitória” pelo Governo de Caracas, a Venezuela fez-se valer dos seus aliados regionais – Cuba, Bolívia, Equador, Nicarágua e vários países do Caríbe – para inviabilizar todas as alternativas.

O único resultado concreto do encontro, para já, foi o corte de relações diplomáticas e económicas da Venezuela com o Panamá, por alegada “conspiração” contra o país. “Como ficou evidente, conseguimos travar os propósitos intervencionistas dos responsáveis pela convocação deste conselho”, reagiu o embaixador venezuelano na OEA, Roy Chaderton.

Pelo seu lado, o ministro das Relações Exteriores, Elías Jaua, congratulou-se com a “firmeza da região latino-americana em defesa dos valores da paz, democracia e defesa da soberania” e garantiu que o Governo de Caracas “está a fazer frente à situação nacional, controlando-a paulatinamente e sem cair em provocações”.

A OEA era das poucas organizações internacionais que ainda não se tinha pronunciado sobre a situação na Venezuela – as Nações Unidas e a União Europeia emitiram comunicados de repúdio da violência e apelo ao diálogo. A “demora” do debate na OEA provocou “tensões desnecessárias” entre os Estados membro, admoestou o secretário-geral, José Miguel Insulza, que criticou a Venezuela por tentar impedir a realização da reunião. “Quero repetir que a OEA não está aqui para intervir nos assuntos internos dos seus países membros, mas para ajudar no que for possível à superação das crises”, frisando que “quando um Estado é afectado por duras comoções e divisões internas, que podem pôr em risco a democracia, é natural que os demais se preocupem”, disse.

“É inegável que hoje existe uma crise política profunda [na Venezuela], cuja característica principal está na divisão e confrontação da grande maioria dos actores políticos e sociais em lados irreconciliáveis”, observou Insulza, notando que a situação política “impede que se enfrente adequadamente a grave situação económica e de segurança que se vive no país já há algum tempo”.

Violência continua
Em Caracas e várias outras cidades do país, o braço-de-ferro entre a oposição e o regime prolonga-se, com alguns focos localizados de violência. Na noite de quinta-feira, dois homens – um civil e um agente da Polícia Nacional – morreram na sequência de um tiroteio durante um “raid” de brigadas paramilitares motorizadas no bairro de Los Ruices, nos arredores da capital. Os motociclistas queriam desmontar as barricadas erigidas pelos moradores.

Em entrevista exclusiva à CNN, o Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, defendeu a actuação do seu Governo na resposta aos protestos populares e ao que designou como um “plano violento da oposição” para depôr o seu Governo. “O que é que aconteceria nos Estados Unidos se um grupo iniciasse uma desestabilização para que o Presidente Obama se demitisse e deixasse o país e eles pudessem mudar o Governo constitucional? Seguramente, o Governo iria reagir, e usar toda a força que a lei lhe confere para restabelecer a ordem e colocar aqueles que estão contra a Constituição no seu devido lugar”, comparou Maduro.

Entretanto, os países da União das Nações da América do Sul - Unasur, o fórum regional alternativo à OEA criado em 2008, vão reunir esta quarta-feira no Chile (onde será empossada a Presidente Michele Bachelet) para debater a questão venezuelana. “Vamos tomar partido sobre a verdade, e a verdade é que o acossado é o Governo legítimo da Venezuela. Nicolás Maduro é um humanista que jamais seria capaz de reprimir o seu povo. O que se passa é uma tentativa de desestabilização”, disse o Presidente do Equador, Rafael Correa, ao anunciar a agenda da reunião.