O espírito livre continua na estrada

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Hoje, na ZDB, o palco vai ser só de Mike Watt. Finalmente. Chegou a oportunidade de conhecer um homem que continua fiel às melhores promessas do punk-rock americano. Fica o aviso: este concerto não é para cínicos da pop

Mike Watt responde com um entusiasmo reservado, sem gargalhadas ou auto-deslumbramento. Tem 56 anos, não se lhe escuta qualquer paternalismo. E apesar da distância — está em San Pedro, na Califórnia, e o Ípsilon em Lisboa — é como se a conversa decorresse face a face. Já se adivinhava: Watt é conhecido pela energia afável e pela simpatia, amiúde temperadas por uma modéstia sincera. Foi o baixista de uma banda fundamental na história do rock americano, os Minutemen, e vai estar hoje na Galeria Zé dois Bois, Lisboa, em nome próprio, na companhia dos Missingmen.

“É a primeira vez!”, exclama. “Estive em Lisboa com os Stooges [em 2011] e toquei com o Steve Mackay [na ZDB]. Mas nunca tinha mostrado uma coisa só minha. Estou muito contente. Sabe, sempre desejei tocar em Portugal. Nos anos 1980, tocávamos na Bélgica, na Holanda, em Inglaterra, nos países do Norte da Europa, mas raramente íamos ao Sul. O circuito era assim. Não conseguíamos levar as digressões mais longe.” O baixista californiano tem razão. Os Minutemen, como os Black Flag ou os Hüsker Dü, passavam ao largo da Península Ibérica, de regresso aos EUA, e até os Pixies e os Sonic Youth só se tornaram visitas frequentes nos anos 1990.

Especule-se sobre a ausência efectiva do power-trio de San Pedro: não terá contribuído para a indiferença mascarada a que sua música ainda é, entre nós, votada? Banda admirada nem sempre é banda amada. Quase 30 anos depois do acidente de automóvel que vitimou D. Boon (o guitarrista e letrista, por muitos considerado a alma da banda), este regresso de Watt a Lisboa podia ser uma homenagem. Se não repare-se: Minutemen, Missingmen. Ambos trios. Baixo, guitarra (Tom Watson) e bateria (Raul Morales). As associações são evidentes. “Claro, mas é mais do que isso. Voltar a fazer música assim não foi fácil. Depois da morte do D. Boon estive duas décadas sem ouvir os nossos discos. Não conseguia, não conseguia. Até que fui abordado por um documentarista que queria fazer um filme sobre a nossa história [entretanto contada por Tim Irvin em We Jam Econo] e aos poucos fui recordando as canções, a forma como as compúnhamos.”

O fim inesperado dos Minutemen provocou uma comoção que ultrapassou o underground musical — o cineasta Thom Andersen, autor de Los Angeles Plays Itself, chegou mesmo a proclamar o fim do rock — antes de Mike Watt iniciar um novo projecto, os Firehose, com o outro ex-Minutemen, George Hurley. A obra, entretanto, estava feita — quatro álbuns, meia dúzia de EP — e influenciaria gente muito diversa. O punk-funk magro e nervoso (inspirado em James Brown, nos Funkadelic e nos Gang Four) não passaria despercebido a Flea ou a Rob Wright e John Wright (a dupla dos Nomeansno) e a celebração sem favoritismos, numa mesma canção, da folk, da country, do hard-rock, do pós-punk e do jazz serviria de inspiração aos Tortoise, aos Yo La Tengo, aos Built To Spill, aos Neutral Milk Hotel e a tantos outros.

Recuar com sabedoria

E havia as canções: artesanais, pequenas, mas cheias de significação política, sem proselitismo, que reivindicavam um parentesco com Bob Dylan, John Forgerty, Eric Bloom, John Doe ou Joe Strummer. “Foi esse formato que quis revisitar em Hyphenated-man [o seu quarto álbum a solo, de 2011]. Adoro as canções curtas. Pode concentrar-se tanta coisa num tema de três, quatro minutos.”

O encontro há nove anos, em pleno Museu do Prado, com o tríptico Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymus Bosch, convenceu o músico a voltar às canções-miniatura (nos anos 1980 tinham sido os Wire a sugerir esse caminho aos três músicos). “Fiquei fascinando por aquelas pequenas figuras. Cada uma inspirou uma canção e todas as canções nesse disco compõem, se quiser, o meu auto-retrato. Vejo ali coisas da minha adolescência e do meu presente. Medos, desejos.”

Um dos desejos de Watt era fazer parte de uma das suas banda preferidas, o que veio acontecer quando em 2003 foi convidado para integrar a nova encarnação dos Stooges, ao lado de Iggy Pop, Ron e Scott Asheton. “Foi um período incrível. De repente, estava tocar com os músicos que me tinham atraído para o punk-rock. E ainda descobri coisas com eles, com as histórias e com as experiências por que passaram e me contaram. Não direi que foram meus professores [risos], mas, por vezes, só quando deixamos de ser chefes ou patrões é que aprendemos algo de novo ou importante. Foi o que fiz. Recuei para segundo plano e deixei-me estar.”

Entre cidades, palcos e armazéns, a estrada era e continua a ser o lugar preferido de Watt. Escute-se, a propósito, History lesson — part II, belíssima faixa de Double Nickels on the Dime, a obra-prima dos Minutemen. É todo um elogio que se tece à poesia da música urbana, à amizade que se forja nos afectos e nos gostos comuns, nos concertos, nos discos partilhados. “Para mim o punk foi sempre coisa de espíritos livres. Adorávamos viajar, tocar onde calhava, nas grandes e nas pequenas cidades. Queríamos tocar para as pessoas, comunicar com elas. Era o que nos fazia sair de San Pedro. Havia bandas que não gostavam de digressões. Nos adorávamos.”

Outra coisa permaneceu desde esses tempos: uma paixão pelo baixo que resistiu ao domínio da guitarra imposto pelo grunge nos anos 1990. “Acho que é um instrumento que continua cheio de possibilidades. Para mim, continua por explorar. Mais do que ligar a bateria à guitarra, o baixo acolhe e projecta os sons dos outros instrumentos. E sinto-me muito confortável quando o toco. Pede um envolvimento diferente do corpo, das mãos.”

Resumindo, Mike Watt é um homem de fidelidades, o que motiva o aparecimento de uma questão porventura ingrata: o que lhe diz hoje a afirmação da cultura digital? “Tenho sentimentos contraditórios. Nasci e cresci noutra cultura. A dos vinis, das capas dos discos, das cartas. Se sinto falta dela? Sim, claro. Mas a Internet também me veio facilitar a vida [risos]. Não creio que valha a pena resistir muito a estas mudanças. Apenas manter uma certa moderação e, talvez, alguma desconfiança. Não quero parecer velho ou nostálgico, mas hoje há muitas coisas que ficam à superfície, como imagens.”

Palavras de um espírito livre.