Dar voz e música à palavra dita

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A voz e o corpo de Ode Marítima são de Diogo Infante. A música de João Gil. No São Luiz, desde ontem, a proposta é a de uma entrega total a um mundo que pode ser o nosso

Diogo Infante não é estranho à palavra. É aqui que gosta de estar. É a ela que se entrega, soltando uma atrás da outra. E ali está ele. Desesperado, excitado, confuso, seguro, amedrontado. Perto, longe. Uma contradição de sentimentos, de palavras. As palavras, voltamos às palavras. “Ah, tudo isto é belo, tudo isto é humano e anda ligado/Aos sentimentos humanos, tão conviventes e burgueses/Tão complicadamente simples, tão metafisicamente tristes!” Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, há muito que não existe ente nós mas as suas palavras continuam tão actuais como as dos poetas de hoje. Ode Marítima, em cena desde ontem e até 16 de Março no São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa, é prova disso.

Quantas vezes não estamos aqui quando queremos estar ali? Quantas vezes não queremos sentir tudo de todas as maneiras? É possível sentir tudo de todas as maneiras? O que é isso? Talvez seja por estar perdido nesta busca que aquele homem sozinho em palco parece aflito, desesperado. O que procura? Que luta interior está a travar consigo? Ali, sozinho, num cais de partidas e chegadas onde o olá e o adeus se cruzam no mesmo momento, e onde o mar é a experiência da distância. “Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos/Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer.” Foi Álvaro de Campos que escreveu mas é agora Diogo Infante que sente o poema, considerado um dos mais extraordinários sobre o mar da poesia moderna ocidental – o espectáculo tem a dramaturga Natália Luiza na direcção cénica.

“Quando olhei para o texto parecia-me absolutamente gigante, achei que não seria possível mas agora sinto que é como se tivesse conseguido amachucá-lo todo numa grande bola que tenho na minha mão”, diz o actor, explicando que a ideia do projecto surgiu em 2012 quando foi desafiado por Natália Luiza a dizer a Ode Marítima no Festival das Artes de Coimbra. “Nesse ano o tema era o mar”, lembra. Revela que ficou assustado com a ideia. “Mas depois quando li fiquei abananado e pensei que se tivesse ajuda no processo me aventurava nesta leitura. Desafiei então o João Gil para me acompanhar nessa noite e foi muito bom, sentimos que algo de especial tinha acontecido”, continua. Depois dessa noite achou que fazia sentido ir mais longe, começando então a materializar o espectáculo que agora estreia no São Luiz – em Abril viaja para o Porto onde estará em cena no Teatro Nacional São João de 3 a 13 –, e que o coloca em palco com o músico João Gil.

Controle e descontrole

É João Gil que discretamente cria intensidade no espectáculo. Ele está praticamente escondido mas a sua música aparece nos momentos mais marcantes, funcionando como rampa de lançamento para se atingir patamares emocionais e de catarse, por vezes. A palavra também não lhe é estranha, ou não fosse ele um dos músicos que mais poesia musicou em Portugal. Mas estar em palco a dar música à palavra dita, ou seja sem ninguém a cantar, é uma experiência mais intensa. “Se não derem por mim é porque consegui um bom resultado”, diz o músico, explicando que o seu papel na peça é o de facilitador. “Não posso interferir de qualquer maneira nem dificultar a audição de quem está a ouvir as palavras do Diogo”, acrescenta, defendendo que “quem se foca muito na música, despista-se”. E é este jogo de estar presente mas ausente que considera extremamente difícil. “Mas o resultado é frágil e ao mesmo tempo maravilhoso.”

“Naquela noite em Coimbra foi uma espécie de vómito, foi muito catártico, muito visceral, não tínhamos tido a possibilidade de nos prepararmos a este nível. Foi caótico”, conta Diogo Infante. “Agora tivemos tempo para pensar, nas entradas, nas saídas, nos estados de alma, o que é queríamos sublinhar, que jogos queríamos fazer.” Mas não é por estar tudo melhor ensaiado e mais bem preparado que deixou de ser mais sentido. Pelo contrário, cada vez que o actor repete as palavras de Álvaro de Campos, cada vez as sente mais. “Da primeira vez a sensação que tenho é que não sabia o que estava a dizer, agora há uma apropriação do texto, ele tem de ser meu”, diz Infante, garantindo que tem sido um trabalho extenuante. “É preciso haver um grande controlo técnico para poder haver um descontrolo emocional. Para as duas coisas funcionarem em harmonia é preciso um grau de concentração e atenção que acho que nunca fiz nada assim nada vida”, continua. Aredita que foram precisos 25 anos de carreira, que comemora este ano, para conseguir apresentar o espectáculo. “Cada vez mais vou testando os meus limites”, diz Infante, que se sente em Ode Marítima a entrar “num túnel do tempo que vai ganhado velocidade”.

Há momentos em que perco o controlo e deixo-me ir mas é assim a poesia”, acrescenta. Não teme as críticas dos “mais puritanos” que podem achar que a sua leitura não é a mais indicada à obra. “Quando há estes textos históricos há fortes convicções em relação a eles, mas se o estou a dizer é porque o estou a sentir”, assegura, lembrando a sua experiência, também sozinho em palco, em Sermão de Santo António aos Peixes, de António Vieira. “Agrada-me a ideia de dar voz a um texto que as pessoas só o iriam ler. Esta é a nossa função como intérpretes, é ajudar a ler”, conclui.

Depois deste trabalho quer voltar à contracena. “Acho que por agora chega de monólogos.”

 

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