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Os paradoxos do nosso único teatro lírico

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A ópera El Gato Maltés Oxana Ianin

Como se fosse a coisa mais natural deste mundo, o Secretário de Estado da Cultura anunciou ontem que o Teatro Nacional de São Carlos ficará sem director artístico nos próximos três anos. A temporada lírica continuará a ser programada por Paolo Pinamonti na qualidade de consultor, acumulando essas funções com as de director artístico do Teatro de la Zarzuela de Madrid.

Além de seleccionar repertórios e equipas artísticas, Pinamonti terá também como missão encontrar novos patrocinadores, mas pelos vistos não poderá ser o “rosto” do teatro. Afinal de contas, as suas funções oficiais são as de... mero consultor! Não estando em causa as competências profissionais de Pinamonti, com óptimas provas dadas tanto em Portugal como no estrangeiro, o modelo é no mínimo bizarro. Seria aceitável como solução temporária de transição, mas torna-se incompreensível quando pensado para um triénio.

Um dos argumentos apontados é o de que Pinamonti seria a pessoa ideal para reabilitar o teatro devido à sua experiência e rede de contatos internacionais, o que é uma opção legítima, mas nesse caso por que razão não lhe são dadas as condições para exercer em pleno o cargo de director artístico, tendo que optar entre Lisboa e Madrid? Por outro lado, as alegadas vantagens de uma colaboração com o Teatro de La Zarzuela parecem funcionar só numa direcção. Poder assistir a uma zarzuela de vez em quando faz sentido — noutras épocas o género chegou a ser bastante popular em Portugal — mas o que dará o São Carlos em troca?

Os contra-sensos não ficam por aqui. Esta quinta-feira foi finalmente divulgada mais uma fatia de temporada. Após a zarzuela El Gato Montés, que estreia esta sexta-feira, há três óperas até Junho, o que, à primeira vista, são boas notícias. Só que... serão todas em versão de concerto! Numa temporada normal é admissível ter um ou outro título em versão de concerto mas três seguidos é desvirtuar a missão de um teatro lírico. Versões de concerto podem fazer-se em qualquer sala e já são programadas por outras instituições.

Na verdade, a tendência tem sido convertê-las em versões semi-encenadas ou mesmo encenadas dentro das possibilidades do espaço como tem feito a Gulbenkian e a Casa da Música, o que torna a situação do São Carlos ainda mais paradoxal. É certo que as próximas óperas terão sido agendadas em tempo “record” , mas a falta de verbas não justifica que se sacrifiquem todas as encenações. Haveria decerto muito boas soluções a equacionar sem ter de se recorrer a encenadores-estrela pagos a peso de ouro.

Em contrapartida, Pinamonti aposta em cantores de certa nomeada para os papéis titulares de Poliuto, La Gioconda e Norma, respectivamente o jovem Sergio Escobar, Elisabete Matos e Dimitra Theodossiou, uma revelação no seu anterior mandato como director artístico. No entanto, a escolha de Donizetti, Ponchielli e Bellini, é circunscrita em termos estéticos e históricos.

Apesar de tudo, Pinamonti e o novo presidente do Opart José António Falcão (que nos últimos anos desenvolveram uma bem sucedida parceria na direcção do Festival Terras sem Sombra) parecem empenhados em fazer um trabalho sério, tendo até planos para cinco anos. Mas será que o conseguem pôr em prática com o magro orçamento e as constantes indefinições da tutela que não permitem programar a longo prazo?

Com este Governo, o (des)investimento na Cultura desceu a níveis vergonhosos e o São Carlos foi deixado à deriva durante demasiado tempo. Enquanto não lhe forem dadas condições financeiras dignas em termos de financiamento das estruturas fixas e da programação não há estratégias mirabolantes nem boas intenções que o salvem.

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