Opinião

Pinto Monteiro e Adolf Hitler

O Estado é eterno. É todo-poderoso. Não recua. Vive mil anos. Tal como o Terceiro Reich, não é?

Pinto Monteiro, antigo Procurador-Geral da República e um homem que tanto tem feito pela justiça em Portugal, decidiu pronunciar-se sobre o fecho dos tribunais da seguinte forma: “Não venham com a troika. A Justiça fecha os tribunais porque quer fechar os tribunais. A troika é como a história do papão. É o que se dizia ao pequeno: ‘vem aí o papão’. Agora é a troika. Para poupar mais uns tostões arruína-se populações que só têm quase os tribunais. Fecha tudo, fecha o banco, fecha as Finanças, fecha tal... Era melhor proibirem populações que têm menos de x, fecharem-nas à força como fazia antigamente o regime nazi.”

Ora cá está. O “regime nazi”. Foi nos anos 50 que o filósofo Leo Strauss, embora de origem alemã e filho de pais judeus, decidiu denunciar a falácia a que chamou “reductio ad Hitlerum”, que consiste na tentativa de refutar os argumentos de um oponente comparando-os a iniciativas ou a convicções partilhadas por Adolf Hitler ou pelos nazis. Em vez de se discutir seriamente o assunto que está em causa e de tentar rebater racionalmente as opiniões contrárias, atira-se lá para o meio suásticas e bigodinhos e já está. Evita-se assim perder tempo com actividades extremamente aborrecidas, tais como pensar ou argumentar.

Citando Strauss: “Um ponto de vista não é refutado por ter acontecido, mas por ter sido partilhado por Hitler.” Infelizmente, Pinto Monteiro nem sequer alcança esse tipo de sofisticação: não se conhecendo a posição de Hitler sobre o fecho de tribunais em áreas com pouca população, o ex-PGR aconselha apenas o governo a agir como os nazis, criando guetos para quem reside em concelhos desertificados. Tendo em conta a dificuldade em vislumbrar qualquer relação entre fechar um tribunal no interior e enfiar portugueses num gueto ao estilo de Varsóvia, somos obrigados, a bem do rigor, a afastar Pinto Monteiro de Leo Strauss (Leo Strauss com certeza agradece) e a aproximá-lo da famosa lei criada pelo senhor Godwin.

Mike Godwin é um advogado norte-americano que em 1990 notou que a utilização da cartada nazi não parava de crescer à sua volta e formulou uma frase de tal modo certeira sobre as discussões online que ficou a partir daí conhecida como Lei de Godwin. Diz ela: “À medida que uma discussão online se prolonga, a probabilidade de surgir uma referência ou uma comparação envolvendo Hitler e os nazis aproxima-se de 1.” Pinto Monteiro não estava online quando comparou fechos de tribunais a guetos nazis (são declarações prestadas à Rádio Altitude, da Guarda), mas utilizou exactamente o mesmo grau zero de sofisticação argumentativa.

É certo que após a referência nazi, Pinto Monteiro ainda tentou um esboço de alegação, acrescentando: “As terras do interior estão a morrer. Não há nenhuma poupança que justifique a deslocação das populações, em terras em que só já há os tribunais. Penso que isso é uma vergonha e alguém devia pôr cobro a essa vergonha.” Não faço ideia quem seja este “alguém”, que deveria “pôr cobro” à “vergonha” (Churchill, De Gaulle, Eisenhower?), mas uma pessoa fica logo consolada quando tem gente desta craveira intelectual a opinar sobre o país. Para Pinto Monteiro, a desertificação não justifica que se feche coisa alguma. As pessoas foram-se embora, as crianças não nascem, não há gente para servir, mas o Estado, esse, não se move. O dinheiro não interessa. O Estado é eterno. É todo-poderoso. Não recua. Vive mil anos. Tal como o Terceiro Reich, não é?

Jornalista, [email protected]