John Kerry diz que a Rússia quer solução diplomática para resolver crise na Ucrânia

Encontros sucederam-se em Paris. Ministro russo reuniu com chefes da diplomacia da França, Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha. Ucrânia acusou forças russas de terem tomado controlo parcial de uma base de lançamento de mísseis na Crimeia.

Foto
Kerry, entre Alexander Turchinov, Presidente interino da Ucrânia, e Arseniy Yatseniuk, primeiro-ministro AFP

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, disse esta noite em Paris ter recebido indicações do interesse da Rússia em encontrar uma solução diplomática para resolver a crise na Ucrânia. “Existem várias ideias em cima da mesa”, notou Kerry, garantindo que as negociações estão em aberto e informando de novos encontros nos próximos dias.

O governante norte-americano falou aos jornalistas no fim de um dia de intensos contactos diplomáticos em Paris, que juntaram os responsáveis dos Negócios Estrangeiros dos EUA, Reino Unido, França, Alemanha e Rússia. O encontro foi promovido pelo Presidente francês, François Hollande.

A reunião em que participaram John Kerry, Sergei Lavrov, William Hague, Laurent Fabius e Frank-Walter Steinmeier  começou ao início da tarde, avançou a Reuters.

Repetindo que os Estados Unidos consideram que a Rússia “errou” ao movimentar as suas tropas na Crimeia, e observando a unidade da comunidade internacional na condenação da decisão de Moscovo, o chefe da diplomacia norte-americana insistiu que “a violação da soberania da Ucrânia não ficará sem resposta” - e que esta poderá passar pela aplicação de sanções. “Essa é uma possibilidade que não está afastada” garantiu.

Sem produzir nada de concreto, as discussões vão continuar esta quinta-feira em Bruxelas, onde os ministros da União Europeia reunirão com os dirigentes ucranianos, e também em Roma, onde John Kerry voltará a conversar com o seu homólogo russo, Sergei Lavrov.

“Iniciámos um processo que, segundo todos esperamos, nos poderá conduzir num sentido contrário à da escalada dos últimos dias. Foi muito construtivo, mas temos de ser realistas: estas são matérias duras e difíceis e o momento é muito sério. Mas pelo menos hoje já nos encontramos numa situação mais favorável do que ontem”, considerou John Kerry.

A AFP noticiou que os chefes da diplomacia norte-americana e russa, Kerry e Lavrov, conversaram directamente, na presença de François Hollande, após um almoço do grupo de trabalho internacional sobre o Líbano, no momento do café, no terraço do Eliseu. Um jornalista da AFP confirmou o encontro, em que, afirmou, também estavam Fabius e Steinmeier.

Anteriormente tinha sido anunciada a ausência do ministro russo Lavrov noutra reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros em que, com a presença do ministro interino da Ucrânia, Andri Deshchitsia, foi discutida a crise.  Essa ausência foi confirmada pelo secretário de Estado norte-americano, John Kerry: "Tinha zero expectativas que esse encontro pudesse acontecer. Mas também não foi para isso que pedimos ao ministro para vir aqui", confessou.

O ministro britânico, William Hague, esteve também reunido com Andri Deshchitsia, entre outros, na residência do embaixador norte-americano em Paris. O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, também esteve presente, segundo a BBC.

Os encontros desta quarta-feira acontecedem uma cimeira extraordinária da União Europeia sobre a Ucrânia, marcada para quinta-feira. Durante a manhã, Kerry, que terça-feira esteve na Ucrânia, esteve em contacto com Hague e com o ministro interino dos Negócios Estrangeiros ucraniano.

Entretanto, os ministros dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, dos EUA e da Ucrânia concordaram quanto à necessidade de enviar observadores internacionais para a Crimeia e para o Leste do país. A OSCE anunciou esta quarta-feira que pretende enviar um grupo de monitores de 18 países para a Ucrânia. "Estamos concentrados na situação urgente no terreno na Ucrânia neste momento", afirmou o representante dos EUA na organização, Daniel Baer.

À chegada a Paris, Andri Deshchitsia teve palavras de diálogo. "Queremos dizer algumas coisas aos russos. Queremos manter um bom diálogo e boas relações com o povo russo. Queremos resolver este conflito de forma pacífica e não queremos lutar contra os russos", afirmou, citado pela Reuters.

Esta quarta-feira de manhã, Lavrov afirmou, no final de uma visita a Madrid, que o Ocidente deu um mau exemplo ao apoiar manifestantes que tomaram o poder na Ucrânia, violando a Constituição do país.  "Não permitiremos um banho de sangue na Ucrânia. Não permitiremos qualquer atentado contra a vida e a saúde dos que vivem na Ucrânia, nem contra os russos que vivem na Ucrânia", afirmou.

Na linha das declarações de Putin, que na terça-feira afirmou que não há tropas russas em acção na Crimeia, Sergei Lavrov disse em Madrid que o Governo de Moscovo não pode ordenar aos homens armados que actuam na região da Crimeia que regressem às suas bases porque são “forças de autodefesa” e não soldados russos.

“Se se está a referir às unidades de autodefesa criadas por residente na Crimeia, não lhes damos ordens, não recebem ordens nossas”, disse numa conferência de imprensa com o ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, Jose Manuel Garcia-Margallo. “Quanto ao pessoal militar da frota do Mar Negro, está nas suas bases.”

O ministro dos Negócios Estrangeiros da França, Laurent Fabius, disse, esta quarta-feira, que as potências internacionais devem procurar retomar o diálogo sobre a Ucrânia. As autoridades de Kiev devem trabalhar tanto com a União Europeia como com a Rússia, "não com uma ou com a outra", afirmou, citado pela Reuters.

O secretário do Conselho de Defesa e Segurança da Ucrânia, Andri Parubi, disse a jornalistas esperar que a crise na Crimeia possa ser resolvida pelo diálogo, em breve. "A noite passada houve poucas situações de emergência e poucos conflitos", declarou. "Espero que nos próximos dias seja encontrada forma de resolver tudo através de negociações".

A rejeição pela Ucrânia, ainda liderada por Viktor Ianukovich, de um acordo de associação e comércio livre com a União Europeia, e a aproximação à Rússia, em Novembro, deu origem aos protestos de rua que levaram à actual crise político-militar.

Os Estados Unidos acusam os russos de terem deslocado tropas para a  Crimeia, num "acto de agressão". O Governo de Moscovo argumenta com a necessidade de defesa dos habitantes de origem russa e declarou que no terreno estão apenas "tropas de autodefesa". Na terça-feira, Kerry manifestou surpresa pela negação de Putin da presença de soldados de Moscovo na Crimeia.

A Rússia assumiu nos últimos dias o controlo de facto daquela região ucraniana, onde a tensão se mantém mas sem episódios de violência. Já nesta quarta-feira, o Governo interino da Ucrânia acusou forças russas de terem tomado o controlo parcial de uma base de lançamento de mísseis na Crimeia.

Bandeira ucraniana em Donetsk
A bandeira ucraniana voltou nesta quarta-feira a ser hasteada no edifício da administração local de Donetsk, no Leste do país, substituindo a russa que ali tinha sido colocada no sábado. Testemunhas citadas pela Reuters informaram que o edifício, que estava ocupado desde segunda-feira por manifestantes pró-russos, foi evacuado pela polícia. A operação decorreu na sequência de informações de que as instalações estariam armadilhadas com bombas.

Um alto responsável da administração Obama citado pela Reuters disse, entretanto, que o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, propôs ao líder russo, Vladimir Putin, que faça regressar as tropas que tem na Crimeia às suas bases, e que em troca sejam enviados para a região observadores internacionais que garantam os direitos da população russófona. O assunto, abordado na conversa que Obama e Putin tiveram no sábado, foi também discutido com a chanceler alemã Angela Merkel, com quem Obama falou na terça-feira sobre a situação na Ucrânia.

Os Estados Unidos voltaram também a repetir que Obama não estará presente na cimeira do G8 marcada para Junho em Sochi, na Rússia, a menos que haja uma alteração na posição do Governo de Moscovo sobre a Ucrânia.