De braços cruzados, à espera que o mar se acalme

Foram dois meses. Para alguns, três. A pescar um dia por outro, presos no tempo restante a terra por tempestades como poucos viram.

De regresso à faina, os pescadores da Póvoa de Varzim e das Caxinas, em Vila do Conde, ainda não tiveram tempo de fazer contas ao prejuízos, e os da pequena enseada de Angeiras, em Matosinhos, ainda nem sequer puderam pôr os barcos na água.

Pareceriam estátuas — não fosse o vento a revolver-lhes o cabelo e a remexer-lhes as preocupações — estes homens que, como António Viana, se põem assim, imóveis, a olhar o mar. O Atlântico ainda espuma de fúria neste Inverno de múltiplas tempestades e em comunidades tão dependentes da pesca como as de Caxinas e Poça da Barca, em Vila do Conde, ou Angeiras, mais a sul, já em Matosinhos. Há uma angústia contida pelos palavrões, insultos impotentes perante o temporal que os amarrou a todos em terra nos últimos meses. Uns só querem esquecer, outros garantem que este Inverno se fez assim duro para ser lembrado.

Encontrámo-los há semanas, a desenjoar do Stephanie, bem abrigado do sudoeste pelas paredes de uma casa abandonada. “Nunca se viu assim”, atirava contra o vento, sessentas bem disfarçados, Viana, pescador e observador diário dos humores do oceano. Outro António da mesma geração, o Craveiro, armador do Craveiro Flores, até tem bem presente os invernos em que era impossível trabalhar de Novembro a Janeiro. Mas esses eram os tempos em que, findos os seis meses da pesca do bacalhau, a vida se fazia no portinho local, apenas uma enseada com um farolim, em cuja praia chegaram a estar varados, como se diz por aqui, centenas de barcos. Muitos, mas pequenos, confirma uma fotografia ampliada a decorar a marginal, recordação desse cardume de miniaturas incapazes de se fazerem ao mar com um vento mais frescalhão e vagas de dois ou três metros.

Esse modo de vida, o da pesca local, que aqui é uma memória, não desapareceu do país. Estatisticamente, em comunidades espalhadas por dezenas de enseadas pela linha de costa fora, vale mais de 84% da frota portuguesa, que rondava em 2011 as 8500 embarcações. Já os caxineiros abandonaram a sua praia aos turistas e deram largas a uma ambição enorme, que se tornou a sua imagem de marca. A nortada como que os espalhou pelos maiores portos de pesca, a partir dos quais governam, com as suas companhas, uma parte dos 15% de embarcações de dimensões intermédias, ditas da pesca costeira, que mantêm o cunho artesanal pelas técnicas e artes que empregam.

Na capitania de Vila do Conde e Póvoa de Varzim, há, registados, bem mais de 200 barcos, a maior parte deles a empregar mais de dez pessoas ou até mais de vinte (no caso das traineiras do cerco). Por aqui se podem já fazer algumas contas e imaginar o que um Inverno como este traz aos milhares que ainda não trocaram a pesca por ocupações mais terrenhas. Em todo o caso, se não sairmos do lugar, quase somos enganados: o porto da Póvoa tem tanta areia que, sem a prometida dragagem, será possível fazer praia no seu interior, no Verão. A barra abriu à navegação pouco mais de 15 dias neste Inverno e são por isso poucos os que o usam como abrigo. 

Artes estragadas

Nos dias que correm, Leixões, em Matosinhos, com os seus cais à pinha, mostra-nos um amontoado de barcos à espera de uma oportunidade. É como se o mar se tivesse divorciado deles, expulsando-os porta fora. E atirando, ainda por cima, alguns dos seus haveres pela janela. Há duas semanas, o areal da praia das Caxinas estava transformado num cemitério de púcaros. Centenas destas armadilhas de abrigo muito apreciadas pelo polvo deram à costa, num ténue sinal dos prejuízos provocados pelos recentes temporais. No Facebook, Manuel Marques, mestre do Marques da Silva, levantava um pouco mais o véu, ao mostrar-se a alar covos inutilizados, armações de ferro partidas pela massa de água nervosa em que o mar se transformou. É José António Craveiro, 35 anos, três à frente do barco do pai, que nos mostra, no telemóvel, o perfil do amigo, neste esforço de recuperação das artes de pesca perdidas. “Ontem, também perdi horas para encontrar uns potes a milha e meia do local onde os tinha deixado. Não compensa. Neste momento, temos de aproveitar alguma coisa a trabalhar com as redes, p’ró prejuízo.” 

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Joaquim Ferreira trabalha em terra, a fazer redes. O pai é pescador há 37 anos

É o que todos andam a fazer. Os mortos, que é como quem diz as artes estragadas, contam-se no fim da batalha. E essa, a ver pela meteorologia da semana que passou, só agora parece estar perto do fim. A terceira semana de Fevereiro tinha sido, para muitos, e desde meados de Dezembro, a primeira em que conseguiu trabalhar praticamente todos os dias. Mas o fim-de-semana trouxe novas previsões de vento e ondulação forte e, até à passada quarta-feira de manhã, poucos tinham arriscado.

Segue o Teu Destino. Entre os muitos nomes que vincam a ligação umbilical desta gente ao mar, faltava este no emaranhado de barcos atracados no porto de Leixões, na segunda-feira. Estava lá o Herança de Deus, de José Manuel Coentrão. Estava lá o Jaimito, de Jaime Reina, e o Caminho da Luz, governado pelo jovem Vítor Gavina Maio, de 25 anos. Mas os maridos de Olívia Pontes e Natália Marafona, Joaquim e Albertino Novo, saíram de Matosinhos na segunda de manhã. Ainda duvidaram. Esperaram uma hora. Mas foram. Só para largar redes. Elas esperavam por eles, com a futura nora de Olívia, Vânia, ali mesmo, junto ao cais, “que eles foram numa fugida”, como se diz entre esta gente. Mais tarde, haveriam de se fazer ao mar para alar o que pudessem e garantir, pelo menos, uma maré. 

Com o tempo marcado por uma ida ao hospital no mês passado, a sócia de Natália fixou que, do Natal até 19 de Janeiro, terão ido uma vez ao mar. Depois, valeu-lhes a terceira semana de Fevereiro, na qual (re)partiram 285 euros pelos nove homens do mar e pelo pessoal de terra. Neste caso, como em muitas outras empresas de Caxinas, muito deste dinheiro fica em família. Para além de irmãos, e das cunhadas — a extensão deles em terra —, a empresa emprega as filhas de ambas e o filho de Olívia, Ruben. Um rapaz que deixou o ensino superior para seguir um destino a que a mãe julgou que ele iria escapar. Mas foi choque que durou pouco. 

Ao orgulho de ver o jovem de traje académico, muito comum numa população que nas últimas décadas passou a valorizar, formal e simbolicamente, a formação superior dos seus, esta mulher de 45 anos acrescentou o orgulho de o ver, afinal, tomar uma opção que agora compreende. “Foi acertada. Os colegas dele da universidade estão desempregados”, frisa. Por opção ou por falta dela, nos últimos anos, a crise de emprego noutros sectores levou gente de outras profissões a esquecer os enjoos, as noites mal dormidas, o sobreesforço, e a arriscar trabalhar num barco. E numa comunidade onde a emigração e, mais recentemente, o transporte de mercadorias de longo curso roubam mão-de-obra à pesca, os mestres, como Jaime Reina, o seu amigo José Manuel Coentrão, e outros, agradecem. 

Em todo o caso, dada a incerteza dos elementos, e das capturas, no Inverno como noutras alturas do ano, o ex-futuro engenheiro electrotécnico que há-de chegar daqui a minutos ao cais, no Segue o Teu Destino, não tem propriamente um emprego. “Isto é perigoso, eu sei. É preciso arriscar. E este Inverno, meu Deus… Nós vimo-nos e desejámo-nos para pagar as despesas do barco. Perdemos muitos aparelhos. Mas imagina os camaradas. Vivem sob pressão. Batem-nos à porta, a pedir ajuda. Outros querem sair, procurar vida”, desfia a mãe, Olívia Pontes, dando conta de um quadro comum ao Herança de Deus, ao Jaimito e a muitas outras embarcações.  

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O casal Laura Marques e José Garcia Lopes, ela operária numa fábrica de conservas, ele tripulante do Vem se Vier

"Foi muito tempo de Inverno"

Com Espanha transformada também ela em fraca opção, neste Inverno, alguns dos que aproveitam a liberdade contratual do sector para tentar melhor sorte vão, de cédula na mão, bater à porta de Américo Postiga, que com o irmão Domingos gere uma sociedade com quatro barcos, nos quais trabalham, entre pessoal de terra e do mar, 50 pessoas. Há quem chegue sem nada, a pedir adiantado para poder começar. Quinze euros que seja para comprar comida para a semana, algum tabaco e luvas para trabalhar. “O pessoal está à rasca”, assume Américo, que nesta empresa faz o que noutras cabe às mulheres: gerir toda a logística a partir de terra.

Quatro barcos nas mãos de uma sociedade é caso único, em Vila do Conde/Póvoa de Varzim, onde tal como no país, cada unidade, familiar, gere uma embarcação, duas às vezes. Mas o armador de 40 anos que tem o Novo Milénio, o Vasques Calafate, o Nossa Esperança e o Vem se Vier — este, a sua menina-dos-olhos, uma embarcação em aço com excelentes condições de trabalho — viu os seus problemas multiplicados por quatro. “Nestas fases somos gestores, psicólogos, fiadores. A pressão é tremenda”, deixa escapar este armador que há uma semana, no sábado, a Revista 2 encontrou no seu armazém, a terminar as contas das quatro unidades, para pagar às respectivas companhas. Entregou a cada homem entre 160 e 190 euros. 

Foi algo como isso que José Garcia Lopes, o “Zé da Vila”, camarada do Vem se Vier, recebeu naquela manhã. Depois do almoço, quando nos acolhe em casa, um apartamento no chamado Bairro dos Pescadores, fez mais alguns cálculos, para dizer que, desde Dezembro, ganhou 400 euros. Pouco, para uma família de três em que o filho que ainda têm em casa, de 25 anos, é também pescador. Laura Pereira Marques, a mulher, 48 anos como ele, 30 nas fábricas de conservas, interrompeu a limpeza da casa para dar testemunho das dificuldades.

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Francisco Rodrigues da Silva é um dos homens que trabalham no armazém, em terra

Eu trabalho. Imagine quem não trabalha, a situação das pessoas”, alerta Laura. “Nós fizemos duas vezes contas, em três meses”, diz ele. “Em três meses, que isto começou antes do Natal", acentua a mulher. "É. Hoje partimos pela terceira vez”, completa o homem, enquanto nos oferece um cigarro. “Acalmou o tempo, mas para o perdido não dá.” E o “não dá” soa em uníssono neste casal que foi à igreja há 30 anos e criou três filhos. “Eu falo por mim, não é? Mas há mestres que perderam aparelhos. Cada um tem os seus gastos. Se não ganhamos dinheiro, como é que fazemos uma bolsa, para ir para o mar? Quem tiver tabaco, mais a fruta e o vinho, e outras coisas gasta uma média de 50 euros para uma semana, que de resto o barco dá as refeições”, descreve o homem, pescador desde os 14. 

“Agora imagine. Se ganhar 150 euros numa semana e a mulher não trabalhar, sobra-lhe cem para comer e pagar as despesas da casa. Nesta terra, se uma mulher não trabalhar, não dá para sobreviver. Dá para pagar a água e a luz, que está tudo muito caro e as despesas ao fim do mês são as mesmas. Tenho amigas que não trabalham e que comem, desculpe o termo, fiado nas lojas, porque não têm mesmo. Foi muito tempo de Inverno”, atira, já sentada, Laura. “Nós vivemos uma vidinha mais remediada. Tivemos de ir buscar ao bocadinho que tínhamos poupado. E não somos pessoas de luxo. Se uma mulher tiver um bocadinho de pensar, custa, mas consegue-se guardar um bocadinho”, garante Laura, admitindo, contudo, que não é fácil gerir a situação perante o “elevado desemprego” entre as mulheres da localidade.

Um povo solidário

Há 38 anos a lidar com uma comunidade fortemente vinculada à pesca, Domingos Araújo, responsável pela paróquia de Nosso Senhor dos Navegantes, tem uma ideia do seu rebanho: “O caxineiro não é agarrado às coisas. Se for preciso, gasta-se.” O pescador habituou-se a viver do pescado, “genericamente, eles podiam ser mais poupados. Mas o gastar, se for bem gasto, faz mover o comércio local, e isso também é importante”, assinala. Mas o sacerdote, filho de uma casa de agricultores de Barcelos, habituados a outras formas de olhar para a vida, assume que “a aliança da crise do país com esta crise pontual acentuou os problemas nas famílias de pescadores”. 

Em todo o caso, insiste que “a chamada crise não é de agora, é estrutural. A equipa da acção sócio-caritativa, a Conferência Vicentina, já lida com isto há muitos meses, diria até anos”, explica o pároco. “Se alguém me perguntar: ‘Há fome nas Caxinas?’, eu diria que não. Se em tempos houve, hoje não. Há pessoas que vivem de forma apertada, com as suas dívidas, mas vivem. E se houvesse casos pontuais de extrema pobreza, há estruturas capazes de ajudar. Nós estamos a socorrer 140 a 150 famílias por mês. É, em todo o caso, muita gente, entre as cerca de 17 mil pessoas da paróquia. São casos que advêm da crise, do desemprego, da carestia de vida, das prestações por pagar. Com alguns dramas em que pai e mãe perderam o emprego. E, nesses casos, pelo que vamos sabendo, o apoio da família é essencial”, adianta o padre. 

Conhecedor profundo de uma sociedade que cresceu de um quase nada plantado sobre as dunas, de uma miséria — é a palavra mais usada na narrativa comum — para um espaço social e urbano com claros sinais de “qualidade de vida”, o sacerdote acentua que as crises são também testes à solidariedade. “Eu não tenho dúvidas de que a comunidade se auto-ajuda. É um traço que se mantém, ainda que não como há 20 ou 30 anos. Mas é um povo muito solidário, que sabe partilhar. Aqui, as pessoas sentem o palpitar do vizinho.” O que não espanta, num lugar onde há laços entre boa parte das famílias e raros são os que não têm alguém preso a terra, a contragosto, por estes dias.

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Fernando Rodrigues com o seu barco em Angeiras, Matosinhos

"Anda tudo com o mesmo problema"

Quase todos os que vivem do mar se conhecem. Como acontece também a 20 quilómetros a sul, em Angeiras, onde João Brito, pescador reformado, nos indica, com três gestos rápidos, os vultos daqueles a quem o Inverno não deixou trabalhar. Na enseada desabrigada, à espera da obra do prometido portinho que já poucos acreditam que se fará, o mar, que parou quase toda a frota de Matosinhos, não deu hipótese alguma aos barcos que aqui se vêem varados. Nas casas metidas sobre as dunas, umas cem pessoas vivem da pesca, em pouco mais de 20 barquitos que, mesmo quando são de fibra, como o Santo António, têm pouca fibra para tanto temporal. 

Aqui pesca-se em companhas de dois, três no máximo, e, sem um profeta que lhes abra o caminho entre as águas, pouco mais lhes resta que esperar.

“A minha sorte é que tenho os meus sogros que ainda são novos e me ajudam com o comer. Já tenho duas prestações da casa por pagar, confessa Fernando Rodrigues, 52 anos, arrais do barco com nome do santo de Lisboa, no qual trabalha com um filho de 26 anos. “A minha mulher ainda tem emprego, nas limpezas. Se não fosse isso, não sei o que seria”, queixa-se, explicando que ainda no ano passado investiu oito mil euros num motor novo para um barco que, desde Dezembro, foi três dias à água. A 30 metros, no areal, Joaquim Pereira e o genro Fernando Correia arrumam umas redes para um saco, antes que o mar, afoito como anda, as venha reclamar.  

“Anda tudo com o mesmo problema. Eu também”, interrompe, ao lado, Manuel Esteves, casado com uma caxineira, Leontina Cruz, que arrastou para aqui, onde a traz numa vida muita semelhante à que os pais dela levavam, na pesca local, na tal enseada onde agora não há barcos. É outro que faz as contas ao prejuízo e que espera, como todos, milhares por esse país fora, que a ministra Assunção Cristas cumpra a promessa feita há duas semanas, numa deslocação à Póvoa de Varzim, de tornar mais célere o cálculo e atribuição do subsídio de compensação. Dinheiro de um bolo de seis milhões de euros que fermentou à custa das multas e das licenças de pesca dos últimos anos em que, explicou Cristas, os valores pedidos não ultrapassaram os 250 mil euros.

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Victor Hugo Marafona, tripulante do Nossa Esperança

O subsídio está também a ser pedido nas Caxinas. Mas o dinheiro “vem se vier”, desconfia a mãe de José António Craveiro, Lurdes Flores, lembrando-se de um ano em que se gastaram 20 euros por pescador a pedir declarações de inexistência de dívidas às Finanças e Segurança Social, para nada, em muitos casos. As regras de então ditavam que só teria direito ao apoio quem operasse a partir de portos cujas barras tivessem estado encerradas em cinco dias consecutivos ou dez interpolados num período de 30 dias. “Nessa altura, o Estado ficou com cerca de 20 mil euros. Ninguém percebeu que em Matosinhos, um grande porto comercial, o facto de a barra estar aberta aos grandes navios não significa que haja, no mar, condições para trabalharmos? Ainda estes meses tivemos dias assim”, critica o vizinho da frente, Américo Postiga. 

À espera de subsídios

As associações de armadores de portos a norte da Figueira da Foz concordaram em concentrar na Associação Pró-Maior Segurança dos Homens do Mar, liderada pelo caxineiro José Festas, o encaminhamento das candidaturas para a Direcção-Geral dos Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos. O responsável operacional pela Associação de Armadores da Pesca do Norte, o advogado Duarte Sá, explicou à Revista 2 que as várias entidades envolvidas no processo definiram uma metodologia que, aproveitando a actual redacção da lei, não se atém apenas às condições das barras: cruzará as listagens de dias de trabalho entregues por cada armador com dados da Docapesca (descargas) e da meteorologia, para contabilizar os dias em que se não trabalhou e o respectivo montante a receber.

Numa reunião já esta semana com responsáveis da secretaria de Estado, José Festas confirmou que esta metodologia é a que será seguida, e disse também ter recebido garantias de que será aberta uma linha de crédito para o sector, mostrando inclusive esperança que, até este fim-de-semana, as suas condições fossem anunciadas pelo Governo. “É urgente”, corrobora Duarte Sá. “Na banca ninguém empresta e há muita gente, nos serviços ligados à pesca, como as reparações e o fornecimento de combustíveis, que não está a receber, o que é preocupante. Muitos armadores endividaram-se para construir os seus barcos e muitos vão ter de comprar novos aparelhos. Alguns estão numa situação frágil”, alerta este jurista que acompanha a classe, por via desta associação, desde o final da década de 80.  

Na segunda-feira, enquanto esperava pela hora para levar uma companha a Matosinhos, e organizados os papéis dos seus barcos, Américo Postiga teve tempo para um café e um balanço. Neste Inverno, o Vem se Vier fez mais uma maré ou outra que os outros três barcos, mas no geral pouco se trabalhou, assume. Mas as despesas fixas, essas, permanecem, como já ouvíramos da boca do vizinho da frente, António Craveiro, e de todos os restantes mestres. Américo abre o livro, só para dar um exemplo. “Só em seguros, no nosso caso, são oito mil euros por trimestre. Fui falar à Mútua dos Pescadores, para ver se baixavam o prémio, mas eles dizem-me que não o podem fazer, pelos prejuízos que tiveram de cobrir também com o mau tempo, no ano passado.” 

O preço do peixe

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Joaquim Pereira e o genro, José Fernando Correia, guardam redes num saco

Às despesas que têm sempre de assumir, os mestres e armadores somam outra questão, inevitável quando se conversa com eles: o preço do pescado. Jaime Reina e José Carlos Coentrão são os que mais insistem neste tópico depois de, nesta fase complicada, e após um longo interregno, terem visto o valor do peixe baixar na lota. “Então a gente ouve-os na televisão, nos mercados, a dizer num dia que falta peixe, que ninguém vai ao mar. E como é? No terceiro dia já há assim abundância”, critica o mestre do Jaimito, 37 anos, da sua varanda, de onde, ao longe, para lá de uma urbanização compacta, se avista o mar da Póvoa e o desactivado farol de Regufe. 

Ao lado, José Manuel, de 45 anos, concorda, e atira para a fogueira o custo do gasóleo e de outros factores de produção, que nunca entram em linha de conta quando lhe oferecem 2,5 euros pelo quilo de polvo. Depois vamos ao hipermercado e até ficamos atordoados ao ver o que ganham, completa Jaime, que repete várias vezes que seria importante que alguém fizesse um estudo e analisasse eventuais distorções — que o sector garante existirem — no circuito de comercialização do pescado em Portugal. “Acho que devia haver uma margem máxima, uma percentagem de ganho que não poderia ser ultrapassada na revenda, sugeria Natália Marafona quando a Revista 2 a encontrou no porto de Leixões”, à espera do Segue o Teu Destino.

Dos pequenos pescadores de Angeiras aos ambiciosos mestres de Caxinas, para lá do custo económico da actividade, que consideram ser pouco compensado à chegada do peixe a terra, todos se queixam de que o risco que correm é outro factor que ninguém tem em conta quando se avalia o preço do que pescam. No final de Outubro, os caxineiros viram um dos seus barcos, o Jesus dos Navegantes, naufragar à saída da Figueira da Foz, num acidente que provocou quatro mortos. Um outro tripulante do mesmo barco desaparecera após cair ao mar, no Verão de 2013. E ainda há dias, contou António Craveiro, um outro barco trouxe mil contos de pescada e um homem de costelas partidas. Isto não é um mar de rosas, tem muitos espinhos. E quem paga?”, reclama, puxando já pela sua voz rouca.  

O Inverno não assusta apenas quem está no mar. “Às vezes, nós estamos em casa, e sentimos o vento nas janelas. Principalmente de noite. Nunca se dorme, naquela sugestão de que vai acontecer alguma coisa. Já vivemos nessa ansiedade. Não só eu como muita gente”, rememora Laura Marques, que sabe como alguns barcos correm alguns riscos para, nesta época de agitação marítima, aproveitar para pescar robalo, uma espécie com bom valor comercial. “É perigoso. O robalo dá com o mar vivo e mais perto da costa. Alguns já naufragaram assim. Com a crise, as pessoas atiram-se à vida. E às vezes com estes mares o aparelho pode ir à hélice e o barco fica desgovernado”, enuncia o marido. Tendo perdido dois cunhados num estranho naufrágio em Gibraltar — do qual nunca se achou vestígio do barco ou dos tripulantes —, "Zé da Vila" sabe bem que no mar “vem se vier”, não é apenas o nome do barco onde anda. Este foi assim baptizado pelo pai de Américo e Domingos apenas porque nunca mais saía do estaleiro. 

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Américo Postiga é armador e gere quatro barcos e 50 homens

De bolsos vazios

Entre o desespero pelas dívidas por pagar ou o arrojo a mais, “neste Inverno, alguns arriscaram”. Mas, prova da dimensão das tempestades deste ano, a verdade é que, entre os afoitos caxineiros, “a maioria não foi ao mar”. José Garcia não sente que tenha corrido riscos. “É aquele tempo fresco [ventoso]. Se não trabalhas mais de força, trabalhas mais devagar, pronto. O perigo é a entrar ou sair das nossas barras”, descreve o pescador que trocou uns trabalhos em terra pelo mar por ver, ainda adolescente, o irmão mais velho com dinheiro no bolso, semana a semana. “Sabes como é, se pedia umas calças à minha mãe, ela dizia que o meu irmão ganhava e por isso podia comprar. Era assim que os velhos nos picavam, e foi assim que eu me tornei pescador.” 

Em Angeiras, o ex-bacalhoeiro João Brito desvia os olhos do mar para nos garantir, em jeito de jura, que não viu, desde que o filho lhe saiu da barriga da mulher, há 44 anos, um Inverno como este. “Foi de escrever atrás da porta”, diz, para explicar depois que era assim que os antigos falavam de fenómenos que, de tão raros, era preciso não esquecer, marcando-os. Nas Caxinas, onde à porta de alguns armazéns se sente o cheiro fétido das redes que foram resgatadas ao mar após meses ao abandono, prendendo peixes à sua podridão, por estes dias ninguém esquece. Seja ainda pelos bolsos vazios, ou porque demorará algum tempo até que o frágil reequilíbrio desta sociedade dependente da natureza seja reposto.

Aqui, só António Viana e os da sua geração, ou mais velhos, olham para o mar, feito estátuas, a tentar adivinhar-lhe, no sobressalto das vagas, os humores para o dia que há-de vir. Os mais novos trazem o oráculo nos smartphones e esperam que a previsão não lhes traga figuras mitológicas ou princesas do Mónaco travestidas de temporais, marcados graficamente a cores carregadas. De Angeiras, chega, desprovido de qualquer tecnologia, um sinal de esperança, num raro rosto luminoso com que a Revista 2 se cruzou neste vaivém entre Vila do Conde e Matosinhos. “Vamos ver se a próxima lua nova faz as coisas em condições”, dizia, num jeito profético, o reformado José. Fazendo jus à alcunha de “Sereno”. 

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