Mitos tóxicos do nacionalismo catalão

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 Foi organizado pelo Conselho de Diplomacia Pública da Catalunha (Diplocat), criado para defender no estrangeiro o direito à autodeterminação. Em Outubro, esta acção foi dobrada pela revista Sàpiens que editou um livro — Catalonia Calling, o que o mundo tem de saber — enviado a mais de 14.500 personalidades internacionais. É uma persuasiva exposição sobre os “direitos históricos” da Catalunha à independência.

A Diada de 2014
A sete meses do referendo sobre a independência (9 de Novembro), a batalha pela opinião pública — na Catalunha e também na Europa — vai intensificar-se. Um dos terrenos privilegiados é o da História. O Conselho Assessor para a Transição Nacional (CATN), nomeado pela Generalitat para “assessorar o processo de independência”, multiplica as iniciativas de propaganda. Tanto o Diplocat como o CATN são supervisionados por Homs.

Madrid considera o referendo inconstitucional. Para o governo catalão de Artur Mas, o “direito de decidir” é sagrado. Não é certo que a consulta se chegue a realizar. A mobilização tem um objectivo intermédio: a Diada de 11 de Setembro, o “dia místico” da nação em que se comemora a queda de Barcelona em 1714, no fim da Guerra da Sucessão.

Trata-se de celebrar a Diada num clima de máxima exaltação nacional. A mobilização pesará na relação de forças — tanto no cenário de uma negociação com Madrid como no de uma ruptura. A Mas interessa manter as duas saídas em aberto. Os radicais esperam que o clima de “exaltação nacional” desemboque numa “declaração unilateral de independência”.

“História falsa”
Há uma “questão catalã”, que remonta à sublevação de 1640-1652. De resto, a História de Espanha passa por recorrentes tensões entre o centro e as periferias. Não é isto o que está em causa, mas a tentativa de “reinvenção da História” por parte do nacionalismo catalão.

O livro Catalonia Calling é paradigmático e segue as directivas do CATN. Há dois pontos fulcrais. O primeiro é uma alucinação: a ideia de que a Catalunha foi um Estado soberano durante 700 anos. Para isso apaga a existência do Reino de Aragão, de que a Catalunha fazia parte. A Coroa de Aragão é transmutada em “Coroa catalano-aragonesa”.

O segundo é a tese dos “300 anos de espoliação” da Catalunha por Espanha desde 1714, espoliação que ainda hoje continua. O que os nacionalistas não explicam é por que, nesses 300 anos, a Catalunha se tornou na região mais rica e dinâmica da Espanha.

Em Novembro, o Centro de História Contemporânea da Catalunha — também dependente da Generalitat — organizou um simpósio intitulado “A Espanha contra a Catalunha”. Foi aberto por Homs, que proclamou: “A celebração do tricentenário de 1714 não é o de uma derrota, mas de uma vitória. O projecto [espanhol] de assimilação fracassou e a prova é que estamos aqui hoje.” Acrescentou: “A Catalunha terá uma oportunidade de redimir a derrota sofrida há 300 anos se apostar numa via segura mediante uma consulta soberanista.”

Foram anunciadas dezenas de iniciativas, desde uma marcha por 52 municípios “onde é visível a cicatriz dos cenários de guerra” [da Sucessão] até um videojogo que permitirá às crianças “fazer uma viagem ao passado”. A “engenharia histórica” começa na infância.

Dezenas de historiadores criticaram o simpósio. Ricardo Garcia Cárcel, da Universidade Autónoma de Barcelona e especialista dos séculos XVII e XVIII, denunciou o título — “historicamente indefensável, absurdo e anticientífico” — e a manipulação nacionalista “alimentada por pseudo historiadores que montam um discurso ao serviço de uma causa”.

O britânico John Elliott, historiador da Catalunha e do império espanhol, resumiu: “É um disparate.” Acrescentou: “Uma sociedade precisa dos seus mitos, mas se os mitos dominam e entorpecem a investigação autêntica chegamos a um ponto em que um povo se fecha sobre si mesmo e adopta uma postura de agravo, pensando que os seus desastres foram culpa dos outros.”

Lamentou numa entrevista: “Os jovens catalães aprendem uma História falsa. Chocou-me, numa universidade catalã, ouvir um jovem que até estudava História e acreditava que a Guerra Civil [1936-39] tinha sido uma guerra entre a Espanha e a Catalunha.”

É significativo que o primeiro relatório do CATN, de 25 Julho de 2013, fundamente na História a legitimidade do referendo. “Em termos de legitimidade é a História que importa.” Remonta ao ano de 987. Anotou o constitucionalista catalão Francesc Carreras: “Nas democracias actuais, a legitimidade dos poderes políticos — e dos seus actos, como a convocatória de uma consulta — não deriva da História mas da vontade dos cidadãos expressa nos termos da lei. A legitimidade política coincide com a democrática. Qualquer outra postura é algo próprio de épocas passadas, anteriores às revoluções liberais.”

Regressão catalã
Há meses Joaquin Coll, historiador do catalanismo, deixou uma advertência sobre esta obsessão: “A carga historicista do tricentenário de 1714 empurra a política catalã para o romantismo e para a agonia. A única coisa que os nacionalistas não se podem permitir é que em 2014 não aconteça nada, quanto mais não seja uma nova derrota para comemorar.”

A vitimização produz nacionalismos infelizes que inventam um inimigo para poder sobreviver. Observou o jornalista catalão Enric Company: “O bloco social que se está a condensar politicamente em torno do independentismo não se expande impulsionado pela consciência da força da Catalunha mas, ao contrário, pela certeza de uma fraqueza que ameaça a sua sobrevivência como nação.”

Não cabe aqui analisar o estado do confronto entre Barcelona e Madrid e entre os catalães. Fica a pergunta do sociólogo Enrique Gil Calvo, da Universidade Complutense de Madrid: “Isto levanta inquietantes enigmas culturais, designadamente a conversão dos catalães a um nacionalismo étnico, vitimista e anti-espanhol. Como é possível que o povo mais culto, moderno e ilustrado da Pensínsula Ibérica tenha caído em semelhante regressão irracional?” 

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