Morreu Alain Resnais, um inovador de 91 anos

O realizador de Hiroshima Meu Amor e É Sempre a Mesma Cantiga morreu na noite de sábado em Paris. Quase um século de cinema à aventura.

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Alain Resnais no festival de Cannes em Maio de 2012 Yves Herman/Reuters

Quando o júri do Festival de Berlim atribuiu a Alain Resnais por Aimer, Boire et Chanter, há duas semanas, o prémio Alfred H. Bauer para o filme da competição que abria novas direcções à arte cinematográfica, não faltou quem franzisse o sobrolho: um prémio de “inovação” a um cineasta de 91 anos que adaptava uma peça teatral de modo estilizadamente artificial?

Mas, para quem conhece bem a obra do realizador, falecido em Paris, no sábado, 1 de Março, o prémio Alfred H. Bauer — entregue em anos anteriores, por exemplo, a Miguel Gomes por Tabu — fazia todo o sentido.

Desde a curta-metragem sobre os campos de concentração Noite e Nevoeiro (1955) e a sua lendária estreia na longa com Hiroshima Meu Amor (1959) até às experiências formais e lúdicas de obras mais recentes como É Sempre a Mesma Cantiga (1997), Corações (2006) ou As Ervas Daninhas (2009), Resnais fez sempre questão de olhar para as coisas sob um novo ângulo, de procurar rumos inesperados e originais. De ir à aventura.

Ninguém esperaria, forçosamente, que Aimer, Boire et Chanter ficasse como o último filme, o “testamento cinematográfico” do realizador.

Já a sua obra anterior, Vous n'avez encore rien vu! (2012, inédita em Portugal), fora recebida como um “adeus”, através da reunião de um grupo de actores que participaram, em momentos diferentes, na encenação de uma peça por um encenador recém-falecido. E o novo filme, adaptando uma peça de Alan Ayckbourn, Life of Riley, conta a história de três casais orbitando uma sétima personagem, amigo comum, diagnosticado com uma doença terminal: uma personagem que nunca é vista nem ouvida, mas que parece dirigir os acontecimentos como um demiurgo antes de morrer.

O elenco do filme presente em Berlim — as actrizes Sabine Azéma, Sandrine Kiberlain e Caroline Silhol e os actores André Dussollier e Hippolyte Girardot - fazendo as vezes de Resnais, que ficara em Paris, não negou que George Riley, o amigo ausente, podia ser lido como um alter ego do cineasta, omnipresente mesmo que invisível. Mas Sabine Azéma, colaboradora regular do cineasta desde a década de 1980 e sua esposa desde 1998, disse ao PÚBLICO que, por inevitável que fosse, era muito desagradável ouvir falar a cada novo filme de “testamento” cinematográfico. Como se a idade avançada de Resnais fosse mais importante ou mais interessante que a arte que ele produzia, como se estivessem todos à espera que ele morresse, em vez de fazerem o que o próprio cineasta fazia através dos seus filmes: celebrar a vida.

Há que dizê-lo, a morte esteve sempre no horizonte do cinema de Resnais, desde Noite e Nevoeiro até Aimer, Boire et Chanter – pensemos em Providence (1977), o ajuste de contas de um escritor (John Gielgud) com a sua família, ou Amor Eterno (1984), sobre um homem que regressa à vida depois de ser dado como clinicamente morto. A seriedade que muitos atribuem a Resnais, contudo, foi-se aligeirando ao longo das décadas.

Contemporâneo da Nouvelle Vague e do movimento do Nouveau Roman, assinou com as suas primeiras longas, Hiroshima Meu Amor (escrito por Marguerite Duras) e O Último Ano em Marienbad (1961, escrito por Alain Robbe-Grillet), dois dos filmes seminais da modernidade cinematográfica europeia de um período contudo fértil em grandes realizadores. A importância e influência de ambos os filmes acabariam por ofuscar as obras — contudo apaixonantes — que viriam a seguir, Muriel (1963), A Guerra Acabou (1966) e Je t'aime, je t'aime (1968).

Depois de uma década de 1970 marcada por dois filmes mal recebidos — Stavisky, o Grande Jogador (1974), com Jean-Paul Belmondo, e Providence, rodado em inglês com John Gielgud e Dirk Bogarde — Resnais regressou à “primeira linha” com O Meu Tio da América (1980, que em Portugal esteve longos meses em cartaz no defunto cinema Star) e A Vida é um Romance (1983).

A partir de Mélo (1986), baseado numa velha comédia teatral de Henri Bernstein, o realizador começou a trabalhar (e a subverter) as convenções do teatro filmado e do cinema numa série de comédias só aparentemente ligeiras: o díptico Fumar/Não Fumar (1993), É Sempre a Mesma Cantiga (igualmente assinaláveis sucessos públicos entre nós), a opereta filmada Pas sur la bouche (2003), Corações As Ervas Daninhas.

Nomeado por oito vezes para os Césares (o equivalente francês dos Óscares) de Melhor Filme e Melhor Realizador, Resnais foi premiado em ambas as categorias por Providence Fumar/Não Fumar, com É Sempre a Mesma Cantiga igualmente vencedor de Melhor Filme.

Em Veneza, recebeu o Leão de Ouro por O Último Ano em Marienbad, o prémio da crítica internacional por Muriel e o Leão de Prata para melhor realizador por Corações; em Cannes, O Meu Tio da América valeu-lhe o Grande Prémio do Júri e As Ervas Daninhas um prémio excepcional pelo conjunto da sua carreira.

Aimer, Boire et Chanter, 19.ª longa-metragem de Resnais e terceira adaptada de uma peça do dramaturgo inglês Alan Ayckbourn, foi o seu terceiro filme premiado em Berlim, após Fumar/Não Fumar É Sempre a Mesma Cantiga, ambos galardoados com o Urso de Prata da Melhor Contribuição Artística. Mais razões que justificam o prémio “inovação” atribuído ao novo filme (adquirido para distribuição portuguesa pela Alambique mas ainda sem data de estreia): a vontade de celebrar um cineasta que raramente se revelava publicamente e que procurava sempre convidar o público a ir à aventura consigo. Com Alain Resnais, nunca era apenas e sempre a mesma cantiga.