Em defesa de Cavaco, foi proibida publicidade ao Carnaval no multibanco

A empresa responsável pela inserção do anúncio alega que a caricatura do chefe de Estado “deprecia” um símbolo nacional.

O cartaz foi considerado um atentado à dignidade do Presidente
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O cartaz foi considerado um atentado à dignidade do Presidente DR

O cartaz do Carnaval de Loulé foi proibido de ser publicitado nos écrans das caixas multibanco, à semelhança do que aconteceu em anos anteriores, por alegadamente retratar de forma “depreciativa” o Presidente da República. O que está em causa é uma caricatura de Cavaco Silva, montando num burro ( Zé Povinho), com o chefe de Estado, coroado de Rei Momo, a insinuar com a oferta de uma cenoura.

O corso carnavalesco, sob o lema “único e irrevogável”, faz da sátira politica o principal motivo da brincadeira, com desfile marcado para hoje, amanhã e terça- feira,na avenida José da Costa Mealha. A empresa Spectacolor, responsável pela comercialização do espaço publicitário das caixas multibanco, recusou a inserção de publicidade sobre o evento por considerar que a representação de Cavaco Silva constituía um “atentado contra a dignidade da pessoa constante da caricatura”. Em causa, justifica a empresa em nota enviada à câmara, está a imagem de “um símbolo de uma instituição fundamental que constitui a Presidência da República e o Estado Português”.

Interpelada pelo PÚBLICO, a empresa respondeu que actuou no estrito cumprimento da lei: “Estava obrigada a recusar a inserção da publicidade do Carnaval de Loulé nas caixas multibanco” pelo código da publicidade, argumentou. “Ridículo, voltou a censura”,reagiu e autor do cartaz, Luís Furtado. O artista lembra, a este propósito, que já caricaturou muitas outras figuras da política e a reacção “não passou de umas risadas”.

A “democracia mascarada”

Mas a tentativa de “brincar” com os protagonistas e cenas da vida politica, neste secular carnaval, não se ficam pelo cartaz. Do conjunto dos 16 carros alegóricos que constituem o corso, destaca-se Angela Merkel, a professora “sensual” que explica a 28ª avaliação da
troika aos “alunos” Pedro Passos Coelho e António José Seguro. O primeiro aparece a levar um puxão de orelhas, sob o olhar do “bem comportado” líder da oposição, António José Seguro. Por outro lado, o regresso de José Sócrates num carro pré-histórico, também dá direito a caricatura.

A politica é, pois, o tema forte deste Carnaval, não faltando ainda Paulo Portas e José Eduardo dos Santos, rodeados de diamantes e petróleo, existindo ainda lugar para os ex-ministros Vitor Gaspar, Santos Pereira e Miguel Relvas, catalogados de “desempregados de luxo”, à porta do Centro de Emprego.

O primeiro rosto que Furtado imaginou para servir de cartaz, confessa, foi o de Pedro Passos Coelho. Porém, num segundo momento, pensou: “o Presidente da República é da terra [Boliqueime] e também é culpado por muita coisa que está a acontecer”, e foi então que fez de Cavaco o “rei” da festa. 

A Spectacolor alegou que a lei proíbe a publicidade que “se socorra, depreciativamente, de instituições, símbolos nacionais ou religiosos ou personagens históricas”. Logo, o Presidente da República e o burro (Zé Povinho) foram afastados dos olhares dos cidadãos que se dirigem às caixas multibanco. Luís Furtado, invocando o direito à liberdade de expressão e à defesa da criatividade, desabafa: “isto é uma democracia mascarada”.