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Viva o Inferno!

Descomplexadamente inspirado no “Daily Show” de Jon Stewart, o Inferno é o primeiro programa diário do género em Portugal. E a julgar pela minha fidelidade, deve estar a ter sucesso

Não, não estou a exultar pelo lugar mitológico, em contínuo ardimento, onde todos os males, mauzões e pecadores vão parar. É que não tenho muita paciência para mitologias…


Estou a falar de um programa de televisão. Sim, no mais inovador e interessante dos canais televisivos nacionais, o canal Q, brilha o Inferno. Segundo o lema auto-proclamado de “olhar para o lado cómico do dia” o Inferno traz-nos, diariamente, a revisão irónica da actualidade.


Descomplexadamente inspirado no “Daily Show” de Jon Stewart, o Inferno é o primeiro programa diário do género em Portugal. E a julgar pela minha fidelidade, deve estar a ter sucesso…


O programa aborda os temas mais importantes da actualidade e tem diversas rubricas semanais onde vários membros da equipa Q expõem os seus pontos de vista sobre o mundo: Ana Markl, com o seu posto de comando, traz-nos o ridículo e o absurdo das outras televisões (e matéria-prima não lhe falta); Cláudio Almeida, sempre a pés juntos, mostra-nos o outro lado da verdade das atribulações futebolísticas; Marta Borges, a comentadora chique, que, por gozo de liberdade, diz abertamente o que outros pensam mas ainda não vão tendo a coragem para dizer em público (e se ela lhes lê bem o pensamento…); Luís Pedro Nunes, o homem que vasculha o lixo cibernético e nos traz, com o seu energético sarcasmo, as últimas idiotices da moda e do sexo; ou ainda Susana Romana que, investida de poderes de professora primária, nos explica, como se tivéssemos cinco anos, as coisas que, de facto, não dá para entender doutra forma. Há ainda espaço para entrevistas, conduzidas sempre sob a égide do humor inteligente.


Os apresentadores (Pedro Vieira, Inês Lopes Gonçalves, Guilherme Fonseca e Maria João Amorim) cumprem com rigor o que se pretende: “pivoteiam” mordazmente este telejornal infernal.


Enfim, este Inferno reafirma três coisas: que fazer boa televisão é possível (basta existir quem acredite e quem invista); que o humor é das formas mais inteligentes de dizer a verdade (a outra é a poesia); que há muita competência nas novas gerações.


Deixo, apenas, duas notas finais: um encómio a Nuno Artur Silva, que materializou no canal Q um laboratório de ideias do qual o Inferno é apenas mais um excelente produto (entre outros como o “Clube da Palavra”, “Uma Macacada Qualquer/Rádio Calipso”, “O que fica do que passa”, “O paradoxo do tangência” ou “Ferro Activo”); uma declaração de enviesamento, pois que tendo nascido em 1979, pertenço à geração de muitos dos membros deste programa (e do canal Q). Partilhamos as mesmas referências (o Herman José no humor, o Júlio Isidro e o Carlos Cruz na TV, o Vasco Granja nos desenhos animados, o Grunge, ou o Pulp Fiction) e temos proximidades culturais e ideológicas.


De resto, acredito que os espectadores do Inferno se revejam nas minhas palavras. Aos outros, espero ter-lhes aberto as portas do dito.