Torne-se perito

Inspecção da Saúde investiga caso de doente que morreu depois de não ter vaga em quatro hospitais

Doente ficou com infecção após operação no Hospital das Caldas e transferência foi recusada em quatro unidades. Acabou por ser recebido em Abrantes, onde morreu uma semana e meia depois.

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O doente ainda foi operado mais duas vezes mas não resistiu à infecção Fernando Veludo/Nfactos

A Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS) abriu um processo de investigação ao caso do doente operado no Hospital das Caldas da Rainha e que foi depois recusado por quatro unidades hospitalares por falta de camas nos cuidados intensivos.

O doente foi admitido no Hospital das Caldas da Rainha, com suspeita de um cancro raro. Após uma operação ao intestino terá contraído uma infecção, segundo avançou o Diário de Notícias desta quinta-feira. Na sequência da infecção o doente precisou de ser transferido com urgência para um hospital com unidade de cuidados intensivos. Os hospitais de Santa Maria, em Lisboa, Loures, Santarém e Leiria disseram não poder receber o doente por falta de camas.

O doente chegou quatro horas mais tarde ao Hospital de Abrantes, onde esteve semana e meia internado e foi operado mais duas vezes, tendo morrido na segunda-feira. Segundo o mesmo jornal, a família pondera apresentar queixa e questiona a prática do cirurgião que assistiu o doente na primeira operação. Além disso, o Hospital das Caldas, pelas suas características, deveria ter uma unidade de cuidados intensivos – uma reclamação que é, aliás, antiga.

Ministério nega que tenha existido recusa
O Ministério da Saúde, através de um comunicado, lamentou a morte do paciente e adiantou que já pediu “um cabal esclarecimento do caso” à IGAS. “Neste momento, a IGAS já deu início ao processo de investigação com vista a obter a correcta e total averiguação dos factos que antecederam ao falecimento em causa”, lê-se na nota onde a tutela refere que “a administração do Centro Hospitalar do Oeste [a que pertence o Hospital das Caldas da Rainha] assegurou que o processo de referenciação do doente para outro hospital do Serviço Nacional de Saúde decorreu com normalidade”.

O ministério nega também que tenha existido uma recusa, referindo que “a unidade de cuidados intensivos escolhida, pertencente ao Centro Hospitalar do Médio Tejo, resultou do facto de ser aquela que tinha vaga e meios técnicos adequados – incluindo cirurgia – para responder às necessidades clínicas da situação. Não se tratou de uma ‘recusa’, mas sim de uma transferência de acordo com os princípios e necessidades que a situação exigia”. O Centro Hospitalar do Oeste está também a averiguar o caso e o Hospital de Abrantes ainda pondera uma forma de acção, diz a Lusa.

O caso acontece um mês depois de um outro que a IGAS está a acompanhar e que diz respeito a um jovem que teve um acidente de viação e que após ser admitido no Hospital Distrital de Chaves precisou de ser transferido para outra unidade com cuidados intensivos de neurocirurgia. O doente acabou por só encontrar vaga no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, depois de ter sido recusado em vários hospitais do norte e centro do país.

Na altura, o Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro, de que o Hospital Distrital de Chaves faz parte, garantiu que contactou os cinco hospitais da região Norte e Centro que poderiam ter recebido o doente: São João, Santo António, Vila Nova de Gaia, Braga e Coimbra. Perante a recusa, o doente fez 400 quilómetros de ambulância até Torres Novas. Nesse local as condições meteorológicas já permitiam o uso de um helicóptero e o resto do percurso foi feito dessa forma.

A questão do número de camas nos hospitais e a sua redução nos últimos anos tem gerado polémica, até porque segundo os dados invocados pela Ordem dos Médicos aquando do debate sobre o tema, Portugal tinha em 2012 uma média de 3,3 camas por cada mil habitantes quando na OCDE esse número sobe para 4,9; na Alemanha ultrapassa os oito; e o recomendado pela Organização Mundial de Saúde é 4,5. No espaço de quatro anos, o país perdeu mais de 1600 camas, e não se sabe quantas destas são de cuidados intensivos.

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