Opinião

E os criadores abandonaram a criatura

Definitivamente, os criadores abandonaram a criatura. Portugal e a Europa precisam de um novo rumo.

O Congresso Nacional do PSD revelou um partido em que o líder, também primeiro-ministro, é minoritário num órgão nacional, o conselho nacional encabeçado por Miguel Relvas. Um partido com sinais de isolamento interno do líder em relação ao caminho escolhido na governação, divorciado da realidade do país e isolado ao nível do projecto europeu. E o anúncio do cabeça de lista da coligação de governo às eleições de 25 de maio, ainda sublinharam mais o isolamento do PSD em relação aos seus parceiros políticos do Partido Popular Europeu.

Ao longo de 32 meses, com fidelidade quase canina, o Governo de Portugal tem concretizado a receita da austeridade excessiva e do empobrecimento de uma Europa em que a direita tem maioria no Conselho Europeu, na Comissão Europeia e no Parlamento Europeu. Sem questionar, sem defender os que são vítimas das políticas de austeridade custe o que custar e sempre com compreensão pelas imposições e desprezo pelas dificuldades e sacrifícios, a maioria PSD/CDS quis ser o bom aluno, mesmo quando tinha comportamentos de cábula. Cábula ao alterar os objectivos do défice para 2013 e, ainda assim, ter de recorrer a um perdão fiscal para melhorar a receita.

Cábula quando fez disparar a dívida pública para 130% do Produto Interno Bruto enquanto insiste na narrativa dos designados sinais positivos rotulados de insustentáveis por várias entidades e economistas.

Cábula quando não tem em conta o aumento dos desempregados inscritos, que pelo sexto mês consecutivo há um aumento do número de casais sem emprego ou que os resultados da balança comercial são assentes na contracção das importações e em exportações sem incorporação de relevante valor acrescentado. Os combustíveis representam 55% do aumento das exportações.

E foi neste quadro político que perpassou um certo sentimento de abandono. Do país em relação a um Governo esgotado, alheado e sem ânimo. E da maioria PSD em relação à Europa de Angela Merkel.

Primeiro fizeram sair dois relatórios, o do FMI e o da Comissão Europeia, que destruíram a conversa dos bons sinais, do milagre económico e da sucessão de eventos encadeados para que os membros do Governo repetissem à exaustão a cartilha num espectáculo próximo da stand-up comedy.

Depois foi a total ausência de personalidades do Partido Popular Europeu no congresso do PSD, num sinal de isolamento do partido e do projecto político, em ano de eleições para um Parlamento Europeu que vai ter uma palavra na escolha do sucessor de Durão Barroso. Quanta ingratidão. Tanto apego à linha política da direita, de uma Europa refém do sector financeiro; apostada numa lógica de empobrecimento e de punição, a Europa do cada um por si, totalmente avessa ao espírito inicial de construção de um espaço de paz, de coesão social, de coesão territorial e de solidariedade, e depois nem uma palavra?

E apesar do PSD e o CDS terem ido além da troika em muitos aspectos e de terem assumido novos cortes e mais sacrifícios em cada uma das nove avaliações já realizadas, os portugueses interrogam-se sobre essa colossal ausência. Uma ingratidão sem limites.

No congresso do PS no ano passado viram o líder do PSOE, o espanhol Alfredo Pérez Rubalcaba e o presidente do Parlamento Europeu, o alemão Martin Schulz, agora candidato dos socialistas a presidente da Comissão Europeia.

No Congresso do PSD ninguém. Nem os portugueses, nem o país, nem os congéneres europeus. Ou o PSD tem vergonha da Europa que temos e dos rostos que a protagonizam, na Comissão Europeia e nos Governos de direita dos Estados-membros, ou esses membros do Partido Popular Europeu têm vergonha dos resultados da governação do PSD/CDS, apesar de desesperarem por um exemplo de bom aluno. Ainda que, bem vistas as coisas, o aluno não passe de um cábula, sem resultados.

Definitivamente, os criadores abandonaram a criatura. Portugal e a Europa precisam de um novo rumo.

Secretário nacional do Partido Socialista