Deputados ucranianos adiam formação de governo interino

Parlamento promete executivo até quinta-feira. Klitschko anuncia candidatura à presidência.

Manifestantes anti-Ianukovich guardam um edifício do Governo
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Manifestantes anti-Ianukovich guardam um edifício do Governo Baz Ratner/Reuters

O Parlamento da Ucrânia está a tentar formar um governo interino para evitar um vazio de poder com a saída do Presidente, Vikor Ianukovich, que continua em parte incerta depois de ter sido acusado por assassínio em massa devido à morte de manifestantes.

O presidente do Parlamento, Oleksandr Turchinov, nomeado presidente interino, anunciou na manhã desta terça-feira que o executivo, que pretendia ter a funcionar ainda durante o dia, será adiado para quinta-feira. Turchinov anunciou ainda que se vai reunir com as forças de segurança para abordar os riscos de separatismo em algumas regiões do país, sobretudo no Leste e no Sul entre as populações russófonas.

Ao início da tarde, o líder do partido da oposição Udar, Vitali Klitschko, anunciou a sua candidatura às eleições presidenciais, marcadas para 25 de Maio. "Estou absolutamente convencido que chegou a altura para a Ucrânia mudar as regras do jogo completamente. Tem de haver justiça", afirmou Klitschko, citado pela Interfax-Ucrânia.

Klitschko é a primeira figura da oposição a apresentar oficialmente a candidatura à presidência da Ucrânia. Antes do início dos protestos em Novembro, o ex-pugilista já tinha mostrado intenção de se apresentar às eleições presidenciais de 2015. Ainda é incerto quem poderão ser os outros candidatos, mas é provável que Arseni Iatseniuk e Oleg Tiagnibok, os outros dois líderes que mais se notabilizaram durante os protestos, se apresentem. 

Outro dos nomes mais falados é o da ex-primeira-ministra Iulia Timochenko, recentemente libertada. Na segunda-feira, foi avançada a notícia de que Timochenko irá passar os próximos tempos numa clínica alemã para tratar dos problemas de costas de que sofre.

O governador da província de Kharkov, Mikhailo Dobkin, do Partido das Regiões, anunciou na segunda-feira que vai apresentar às eleições presidenciais. Dobkin é a primeira personalidade da área política mais próxima de Ianukovich a perfilar-se como candidato , mas não é certo ainda se irá concorrer pelo partido ou como indepedente.

UE apoia novas dirigentes

A primeira visita de um alto dirigente internacional após o derrube de Ianukovich ficou a cargo da chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, que pediu à Rússia que deixe a Ucrânia "seguir o seu caminho", de acordo com a Reuters. Ashton iniciou na segunda-feira uma visita à Ucrânia, onde se reuniu com os líderes da oposição.

A responsável europeia mostrou um "forte apoio" aos novos líderes e apelou à formação de um "governo inclusivo". "Acreditamos também que é muito importante deixar uma mensagem forte sobre a integridade territorial, a unidade e a independência da Ucrânia", afirmou Ashton.

Sobre uma possível ajuda financeira da União Europeia, Ashton apenas referiu que Bruxelas está a trabalhar com o FMI, mas que o fundo irá fazer a sua própria avaliação do panorama económico do país. Em equação poderá estar a concessão de linhas de empréstimo de curto e longo prazo, segundo a Interfax-Ucrânia.

O Parlamento votou para afastar o Presidente no sábado e na segunda-feira autoridades emitiram um mandado de captura contra Ianukovich pela morte de mais de 80 pessoas na Praça Maidan, em Kiev, centro da contestação ao Presidente. Sexta-feira à noite havia rumores de que tinha deixado Kiev para a parte oriental da Ucrânia, mas não se sabe o seu paradeiro desde então.

As reacções internacionais ao novo poder na Ucrânia começaram pela Rússia na segunda-feira, com o primeiro-ministro, Dmitiri Medvedev, a dizer: “Estritamente falando, hoje não temos ninguém com quem falar. Se se considerar que as pessoas que se passeiam por Kiev com máscaras negras e kalashnikovs são o governo, então será difícil trabalhar com um governo assim”. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, disse entretanto que Moscovo vai "continuar a sua política de não intervenção na Ucrânia".

Já dos Estados Unidos vieram dar sinais de reconhecimento da nova realidade e fazer um pedido a Moscovo: o novo poder em Kiev não significa que tenha de haver um país perdedor, seja a Rússia seja outro qualquer, disse a porta-voz da Casa Branca Jen Psaki. “É no interesse de todos apoiar um futuro próspero para o país”, disse Psaki, que pediu ainda ao Congresso para aprovar com urgência um pacote de ajuda à Ucrânia.

O vice-secretário de Estado norte-americano William Burns vai deslocar-se a Kiev para participar em reuniões durantes os próximos dois dias com os novos dirigentes ucranianos, de acordo com a BBC.

A economia será um dos maiores problemas do país e responsáveis norte-americanos disseram que o Fundo Monetário Internacional (FMI) está a considerar um pacote de até 15 mil milhões de dólares (mais de 10 mil milhões de euros) para estabilizar um novo governo de transição em Kiev. O investimento norte-americano seria adicional, provavelmente dirigido a saúde e educação.

Este é, no entanto, é apenas um dos desafios do novo poder: a divisão entre leste e oeste, as mudanças que os manifestantes exigem num país desiludido com a revolução laranja de 2004. E, sobre tudo isto, a Rússia e a sua influência, não só sobre a parte russófona do país mas também como fornecedora de gás.