Câmara vai gastar meio milhão para tapar os buracos nas ruas de Lisboa

O mau tempo trouxe novos e mais profundos buracos às ruas da capital. A autarquia prevê reparações mas a chuva tem impedido que as obras avancem. Até lá, circular vai continuar a ser uma aventura.

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Oxana Ianin
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Se a situação já não era famosa, as chuvas dos últimos dias pioraram tudo. Os buracos nas ruas lisboetas transformam qualquer deslocação numa gincana. Quem por eles passa todos os dias, já aprendeu a evitá-los. O mais difícil, diz o taxista Mário Rocha, é mesmo encontrar vias sem crateras. Para as tapar, a Câmara de Lisboa garante que pretende gastar, desde já, quase meio milhão de euros em obras de manutenção, adiantando que algumas reparações já estão em curso.

O táxi de Mário Rocha balança como uma maraca quando não os consegue evitar. Entre as ruas, no meio das vias, em rotundas, este taxista com mais de 20 anos de experiência conhece bem onde estes espreitam.

A subir a Avenida Infante Santo, um buraco mete-se pelo caminho do táxi e obriga a uma guinada no volante. “Estamos sempre a desviar-nos, mas às vezes não se consegue. A semana passada arrebentei um pneu no Chiado”, conta. Agora a câmara já cobriu o furo junto ao Largo Camões.

Na paragem de autocarro paralela ao Parque Eduardo VII, a estrada abateu mais com o mau tempo das últimas semanas. “Aquilo já tem anos, mas agora piorou”, explica o taxista. A lomba acidental é grande, o que obriga os autocarros a desviarem-se da paragem onde devem parar.

Junto a esta, o motorista abranda. “Temos de entrar devagar, mas não complica o trabalho”, vai dizendo enquanto encosta o autocarro duplo antes da rotunda Marquês de Pombal. A traseira fica de fora. “A parte de trás não se consegue aproximar da paragem, só a frente” porque existe um vale acidental há mais de dois meses naquele local. A tradição dos remendos já a conhece: “Quando faz sol, eles arranjam.”

E há quem diga que a situação até tem melhorado. Cristina Garcia, a viver em Tomar há oito anos, diz que nota muitas diferenças desde que mudou de cidade. “Venho cá regularmente e reparo nas melhorias que as ruas de Lisboa têm tido. Antes a Fontes Pereira de Melo era só buracos. Entrava-se em modo centrifugação. Agora os remendos vêem-se e alguns dos abanões que se sentem não tem comparação com antes”. Mas compreende que quem viva aqui não pense o mesmo, diz.

O certo é que os buracos estão nas contas da autarquia. Ao PÚBLICO, a Câmara de Lisboa (CML) disse que, de uma forma geral, gasta um milhão de euros em intervenções nos pavimentos. Para responder às situações mais urgentes evidenciadas agora pelo mau tempo, conta gastar 442.858,83 euros (sem IVA) em obras de manutenção na zona ocidental, central e oriental da cidade.

Alguns trabalhos já começaram e dão conta de buracos tapados. Nesta lista que abrange 24 ruas está a Avenida Fontes Pereira de Melo. Mas ainda a fazer. Ali mesmo ao lado, na rotunda do Marquês, um buraco rectangular na faixa da direita faz Mário Rocha pisar o travão. “Um buraco em plena rotunda. Toda Lisboa é um buraco”, exclama.

Com o bom tempo “retomaram-se os trabalhos de pequenas recargas de pavimento, cujos resultados se prevêem ser visíveis a partir de Março”, adianta a câmara. A CML pretende reparar nesta fase mais de 60 pontos da capital, entre empreitadas de manutenção a intervenções pontuais. Nos trabalhos de “tapa buracos” dá-se prioridade aos locais onde é posta em causa a segurança da circulação dos utentes, às vias de maior circulação viária e aos acessos a hospitais, explica. Depois, os pontos de especial interesse turístico.

Na Avenida Ribeira das Naus, as obras continuam a requalificar a zona ribeirinha mas o pavimento parece esquecido. “Isto está tudo esburacado na entrada, já há bastante tempo”, comenta o taxista.

A câmara disse ao PÚBLICO que pretendia reparar o pavimento deste local entre 14 e 18 de Fevereiro mas a chuva trocou as voltas aos empreiteiros. Quando o tempo o permitir, estão na calha intervenções em 20 pontos da zona oriental. Já foi adjudicada uma empreitada no valor de 111.858,83 euros (sem IVA) que abrangerá as freguesias do Lumiar, Marvila, Beato, Olivais, Areeiro, Alvalade, Avenidas Novas, Santa Clara e Parque das Nações. Na zona ocidental, serão gastos 327 mil euros em 24 pontos das freguesias de Carnide, Benfica, Belém, S. Domingos de Benfica, Ajuda, Campolide e Campo de Ourique e Alcântara.

É precisamente em Alcântara que os automóveis encontram maiores desafios. Na Rua Prior do Crato, a manobra a que Mário Rocha obrigado é exigente. Só aqui, a câmara pretende avançar com obras numa área de 2000m2 num investimento de 20 mil euros.

Na zona central da cidade, nas freguesias de Penha de França, Estrela, Arroios, Santa Maria Maior, Santo António, S. Vicente e Misericórdia, o valor calculado a gastar em intervenções será de quatro mil euros. Além disso, a CML vai gastar quase 30 mil euros em materiais para as intervenções pontuais a cargo dos serviços camarários.

Mas a tarefa parece interminável. Se umas ruas escapam, outras são um flagelo. Em redor da Praça do Comércio, os pavimentos centenários gritam a sua idade: estão velhos, gastos e esburacados. Na Infante D. Henrique, na Rua Cais de Santarém, na Rua Cais da Lingueta, na Rua de Alfandega, na Rua do Arsenal, da sede do Município de Lisboa ao Cais do Sodré, muitas são as irregularidades que carros e peões têm de ultrapassar.

Numa cidade em que a extensão de ruas atinge cerca de 1800 quilómetros, a autarquia descarta a possibilidade de a causa das anomalias ser por falta de intervenções. “A manutenção de pavimentos é realizada, de forma continuada ao longo do ano, sem interrupções. Mas as condições climatéricas associadas à enorme extensão e idade dos pavimentos da cidade provocaram uma degradação de algumas vias rodoviárias”.

Um argumento que não cala as queixas. Na Rua de Alcântara, junto ao Largo do Calvário estão para reparar buracos quadriculares, rectangulares, triangulares. Os danos no pavimento são visíveis há mais de seis meses. Um dos responsáveis do restaurante com vista privilegiada para os buracos conta que os clientes costumam desabafar entre bicas e bitoques. “Reclamam sobre as passadeiras apagadas ou sobre as poças que se criam nos buracos e que acabam a chover-lhes em cima quando passa um carro. As ruas já nem são lavadas. Isto só não piora com o mau tempo porque já não tem onde piorar”.