Declamar poemas e contar histórias nos recantos de Lisboa

As tertúlias literárias, tão típicas no início do século XX, estão de volta à cidade de Lisboa. Em cafés, bares, restaurantes e outros espaços da capital declama-se poesia e lêem-se contos.

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As Tertúlias às Quintas no Teatro Rápido dr
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As Tertúlias às Quintas, organizadas por Samuel Pimenta (na foto à esquerda) no Teatro Rápido dr

Pequenas pilhas de livros, cadernos com letras manuscritas e algumas folhas soltas ocupam os tampos das mesas de madeira. Entre tragos de vinho tinto e de chá fumegante, poetas ou amantes de poesia declamam versos sem pedir licença. Não existe uma ordem previamente definida. Ouvem-se breves aplausos, as partilhas poéticas terminam para logo darem lugar a outras de um modo espontâneo, mas sem atropelos. A maioria dos poemas fala de rios, de mar e de praia, mas esta tertúlia literária, que decorre no Chiado, não está subordinada a nenhum tema em particular. “Acho que assim as pessoas se sentem mais livres no momento da escolha”, explica Samuel Pimenta que dinamiza as Tertúlias às Quintas, no Bar do Teatro Rápido.

A ideia de organizar sessões mensais dedicadas à poesia partiu da sua vontade de declamar poemas, mas também de promover reuniões em torno da palavra. “As pessoas sentem necessidade deste tipo de encontros, de estar juntas, de conversar, de debater ideias e de apreciar as palavras e a musicalidade da palavra falada”, explica Samuel. Perante a assistência que também participa com leituras, o jovem criador vai declamando poemas seus e de outros autores. “Aqui não há pedestais”, realça momentos antes de a tertúlia começar. “Estamos todos nas mesas, sentados ao mesmo nível, seja a pessoa que está a assistir, seja a pessoa que está a participar activamente, estamos todos em pé de igualdade e isso para mim é muito importante”, comenta Samuel Pimenta, que publicou o seu último livro, O Relógio, em finais de 2013, pela editora Livros de Ontem e Geo Metria, no mesmo ano, pela editora brasileira Literarte – Associação Internacional de Escritores e Artistas.

O Teatro Rápido aceitou prontamente o formato proposto pelo autor, não fosse situar-se a escassos metros do Café A Brasileira, um espaço que no início do século XX dinamizava tertúlias e reunia intelectuais, como Fernando Pessoa e Almada Negreiros. “As tertúlias sempre fizeram parte do Chiado e ficaram esquecidas durante muito tempo. Desde o início que as quisemos aqui ter”, disse Alexandre Gonçalves, director do Teatro Rápido.

Como que a supervisionar as leituras, de óculos redondos e chapéu na cabeça, Fernando Pessoa surge retratado, juntamente com outras personagens, num quadro colorido exposto numa das paredes do bar do teatro. O poeta português e a sua escrita não são esquecidos durante a tertúlia. “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”, são as primeiras palavras do poema O Infante, de Fernando Pessoa, proferidas quase no final do serão, por um jovem de voz profunda.

Da improvisação à encenação

Também Paula Cortes, blogger, partilha poesia pessoana ao microfone do Bar Povo, no Cais do Sodré. Acompanhada pelo som grave do contrabaixo, a estudante de Psicologia lê pausadamente alguns versos. As mesas não têm lugares vagos e há muita gente de pé, num aglomerado que se estende até à porta. No Bar Povo, todas as noites se canta o fado, mas à segunda-feira faz-se silêncio para se ouvir declamar poesia. Paula Cortes é participante assídua da tertúlia semanal Poetas do Povo, em que habitualmente declama poemas de outros autores, porque não gosta de ler o que escreve. Pela primeira vez, lê os seus versos por se identificar com a temática da tertúlia, “A Poesia do Ser ou não Ser”.

Desde Fevereiro de 2013 que Poetas do Povo, uma iniciativa dinamizada pela empresa Cultural Trend Lisbon, conta com a participação de artistas dos mais diversos quadrantes, todos eles ligados à palavra: actores, poetas, radialistas e performers. “Estas noites são feitas de muita improvisação. No fundo, o objectivo é sempre criar um diálogo espontâneo, in loco, entre os convidados e com o público também”, explica José Anjos, um dos organizadores da tertúlia. As palavras declamadas pelos participantes geralmente são acompanhadas por música tocada ao vivo. “Um belo casamento que tem resultado até agora”, acrescenta.

A voz de Paula, embalada pelo som das cordas, toma conta do espaço. Mas ao fundo ouvem-se moedas que caem na caixa registadora e talheres que tocam na loiça. Os jantares continuam a ser servidos durante a sessão de poesia. Caldo verde, salada de polvo e peixinhos da horta são alguns dos pratos degustados pelos presentes. Numa mesa a um canto está sentado um casal sexagenário que raramente falta às tertúlias. “Sempre gostei muito da palavra, da poesia e aqui encontrei isso, esse aconchego. O ambiente também é muito bom, as pessoas são carinhosas, talvez por sermos os velhinhos que aparecem todas as segundas-feiras”, revela Francisco Rosa, soltando uma gargalhada. No entanto, este habitué não se contenta com uma simples apresentação de poemas: “Quando se diz poesia em público, acho que ela deve ter alguma representação, não é teatro, mas está no terreno do teatro. Poesia lê-se no sofá, se é para dizer em público a poesia tem de ter esse complemento.”

No Zazou – Bazar & Café, a caminho da Sé de Lisboa, as leituras de poesia e de contos assumem contornos performativos. Durante a leitura de uma história erótica, uma bailarina, sentada numa cadeira vermelha, move-se lentamente, num misto de timidez e sensualidade. O público presente é convidado a colocar uma venda nos olhos para, nas palavras de Sérgio Neves, “sentir de uma outra maneira o conto”. Todos aceitam o desafio. Nas noites de sexta-feira, às palavras lidas juntam-se o teatro, a dança, a música e a projecção de imagens e vídeos. “É sempre uma leitura interpretativa, dinâmica e interactiva”, explica Sérgio Neves, representante do Grupo Freya – Associação Arte e Cultura, que organiza desde Setembro de 2013 tertúlias literárias no café Zazou.

Convívio e lançamento de novos autores

Num café na Rua dos Fanqueiros, em Lisboa, também se lêem contos, mas de horror. David Soares, autor dos romances Batalha, O Evangelho do Enforcado, Lisboa Triunfante e A Conspiração dos Antepassados, publicados pela editora Saída de Emergência, conta uma história de sua autoria, na Tertúlia Assombrada – Uma Tertúlia dos Diabos. Este é o segundo encontro literário organizado pela Time Bank Lisboa, no Café 100 Artes. Nestas tertúlias, com uma periodicidade quase mensal, divulgam-se trabalhos de escritores com algumas obras publicadas, mas todos são incentivados a ler as suas histórias. “Apesar de termos sempre um escritor mais conhecido como cabeça de cartaz da tertúlia, o convite é especialmente para todos aqueles que não são escritores, mas que gostam de escrever e sentem necessidade de partilhar as suas vivências”, explica Teresa Melo, membro da Time Bank Lisboa, uma espécie de “banco de horas”, um modelo de economia alternativa (quem tiver uma conta online da Time Bank acumula horas despendidas na prestação de serviços, que depois podem ser gastas num serviço feito por um terceiro em seu benefício).

Quem assiste às leituras tem de partilhar mesa com desconhecidos, devido à dimensão reduzida do café. “As pessoas não se importam de estar um bocadinho mais apertadas quando há tertúlias, ficam a conhecer-se e algumas pessoas já fizeram aqui amizades”, diz Maria Torres, proprietária do estabelecimento. “As tertúlias animam o espaço e sentimos que as pessoas também se sentem bem, trocam ideias e ouvem contar histórias, uma coisa muito rara hoje em dia”, acrescenta.

As tertúlias literárias promovem o convívio e a divulgação de manifestações artísticas. Mas, no entender de Carmen Filomena, estas reuniões culturais também são uma boa solução para os estabelecimentos, em tempos de crise: “As casas começam a ficar com pouca clientela e organizando estas coisas os colegas chamam-se uns aos outros e vão-se fomentando noites mais movimentadas.” A actriz e dinamizadora de cursos de Arte de Dizer tinha o hábito de reunir as antigas alunas em jantares. Como estes se foram tornando cada vez menos regulares, Carmen decidiu organizar encontros literários mais estruturados e frequentes. O bar Inda a Noite É Uma Criança, na Praça das Flores, foi o local eleito para as sessões de poesia e é lá que, desde Outubro de 2012, qualquer pessoa pode partilhar poesia nas noites de quinta-feira, basta tocar à campainha e entrar.

As sessões geralmente contam com a presença de convidados. Victor Espadinha e Tozé Brito são o destaque da noite, cantam poemas franceses e portugueses, ao som da guitarra. “Realmente aqui nascem ideias, vai-se a pensar numa frase que se ouviu”, confessa Tozé Brito. Num momento em que a publicação de livros é cada vez mais difícil, o compositor e administrador da Sociedade Portuguesa de Autores encara as tertúlias como uma alternativa para os autores divulgarem as suas criações: “Estes espaços são onde se pode começar a ser ouvido, a ser dito e a coisa passa de boca em boca e é aqui que podem nascer grandes poetas. São bons exercícios para quem está a começar a escrever.”

ROTEIRO

Tertúlias às Quintas

Bar do Teatro Rápido

Rua Serpa Pinto, 14, Lisboa
Periodicidade: Mensal

Poetas do Povo
Povo (Restaurante/Bar)
Rua Nova do Carvalho, 32, Lisboa
Periodicidade: Semanal (segundas-feiras)

 
Tertúlias – Grupo Freya
Zazou – Bazar & Café
Calçada do Correio Velho, 7, Lisboa
Periodicidade: Semanal (sextas-feiras)

 
Tertúlias – Time Bank
Café 100 Artes
Rua dos Fanqueiros, 162, Lisboa
Periodicidade: Mensal

 
Tertúlias Poéticas
Inda a Noite é uma Criança (Bar)
Praça das Flores, 8, Lisboa
Periodicidade: Semanal (quintas-feiras)