Cervejas perdem peso nas exportações agro-alimentares e são ultrapassadas pelas conservas

Em 2013, o sector cervejeiro vendeu menos 34 milhões de euros para o estrangeiro. Só para Angola, que compra quase 62% da cerveja nacional, a queda foi de 26,3 milhões.

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A indústria das cervejas já não é a terceira maior exportadora entre os produtos agrícolas e alimentares. A posição que ocupava desde 2011 é, agora, da responsabilidade das conservas de peixe que, em cinco anos, nunca contribuíram tanto para as vendas internacionais do sector agro-alimentar.

De acordo com os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre o comércio internacional, compilados pela Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, as exportações de cerveja caíram 14,6%, para um valor total de 199,6 milhões de euros, que atira este produto para a quarta posição do ranking das exportações agro-alimentares, numa tabela que é liderada pelo vinho e azeite.

As vendas de cerveja representam, agora, 3,9% do total das exportações do sector, o que significa um recuo para níveis de 2009, quando a indústria vendia pouco mais de 136 milhões de euros e contribuía em 3,7% para o comércio internacional de produtos agrícolas e alimentares.

Analisando os últimos 12 anos, conclui-se que as exportações subiram consecutivamente desde 2001, caindo pela primeira vez em 2009 (de 144,7 para 136,6 milhões). Seguiu-se uma recuperação que atingiu o auge em 2012, ano em que a queda do consumo interno levou as empresas a reforçarem estratégias de internacionalização. Ao mesmo tempo que os portugueses reduziam em força o consumo de cerveja, os mercados externos compravam quase 319 milhões de litros, no valor de 234 milhões, o mais alto de sempre.

A evolução positiva foi travada em 2013, com a indústria cervejeira a vender menos 34 milhões de euros para o estrangeiro, face a 2012. Só para Angola, que compra quase 62% da cerveja nacional, a queda foi de 26,3 milhões. O comércio com o maior cliente influenciou negativamente o resultado global das exportações de cerveja, já que, contas feitas, perto de 80% da diminuição verificada no ano passado ficou a dever-se ao mercado angolano. No total, venderam-se 42,7 milhões de litros para aquele destino, correspondentes a 123,2 milhões de euros. 

A indústria portuguesa tenta, há muito, produzir neste país africano, onde enfrenta a concorrência da Cuca, a marca local de excelência. Depois de já ter tido planos para construir uma fábrica de raiz, que nunca chegou a avançar, a Sociedade Central de Cervejas (SCC) optou por fazer uma parceria com a Sodiba, empresa controlada por Isabel dos Santos e o marido, Sindika Dokolo. A marca Sagres será produzida sob licença em 2015. Também a rival Unicer tenta, há pelo menos quatro anos, ter produção local. As previsões mais recentes feitas pelo actual líder da cervejeira, João Abecasis, apontam o arranque para 2016, no âmbito da Única, a joint-venture que a Unicer tem com accionistas angolanos.

Francisco Gírio, secretário-geral da Associação Portuguesa dos Produtores de Cerveja, diz não ter ainda dados estatísticos fornecidos pelas empresas, mas recorda que, durante o primeiro semestre do ano passado, as vendas para Angola “foram severamente afectadas pelo efeito da greve nos portos em Portugal, por problemas de desalfandegamento no destino que atrasaram em vários meses a entrada de cerveja nacional em Angola - assunto que só acabou por ser completamente resolvido a meio de 2013 - e ainda pela incerteza causada pelo anunciado aumento das pautas aduaneiras”.

A mesma opinião é partilhada por Nuno Pinto de Magalhães, director de comunicação da SCC, dona da Sagres, que viu cair as vendas para Angola em 20%, em termos de volume. “No total, as exportações pesavam 25% no negócio da SCC em 2012 e em 2013 passaram a representar 20%, muito devido à queda do mercado angolano”, sustenta.

O presidente executivo da Unicer, dona da Super Bock, sublinha que as vendas no estrangeiro “mantêm uma trajectória de crescimento” e destaca subidas na Suíça e na Arábia Saudita. No total, a cervejeira exportou 40% do volume de cervejas, mas a evolução em Angola foi negativa, admite João Abecassis, sem adiantar números. Este é o principal país onde a Unicer “desenvolve actividade, logo a seguir a Portugal”. “É para este país que mais exportamos e prosseguimos com o projecto de complementar este negócio com a vertente de produção local”, adianta.

Nem todas as empresas viram cair as vendas fora de portas. A Empresa de Cervejas da Madeira (ECM), dona da Coral, conseguiu aumentar em 25% a facturação no estrangeiro, “passando a representar 1,5 milhões de euros”, refere o director de marketing, João Rodrigues. O peso dos clientes internacionais passou de 2,5% para 3,2% e o objectivo para 2014 é “manter o ritmo de crescimento”. Em Portugal, a ECM conseguiu aumentar as vendas, mas à custa de “perda de rentabilidade do negócio, fruto da pressão dos preços no sector”.

Antoni Folguera, da Font Salem, admite que também a empresa do grupo espanhol Damm instalada em Santarém, sofreu uma redução das vendas em Angola. "Compensámos a queda com acréscimos em outros países, nomeadamente África e Ásia", afirma, acrescentando que o mercado espanhol, onde se faz "uma boa parte" das vendas, teve "um fraco comportamento".

Conservas captam consumidores

Enquanto as exportações de cerveja de malte perdem fôlego, as vendas internacionais de preparações e conservas de peixe conseguem, pela primeira vez desde 2009, estar entre os três produtos mais exportados. Nunca, em cinco anos, o sector contribuiu tanto para as exportações do sector agro-alimentar: passou de um peso de 3,2% em 2009 para 4% em 2013. Foi em 2012 que a indústria das conservas de peixe deu o maior salto, passando de oitavo para quarto maior exportador. A tendência de crescimento tem sido constante e as vendas internacionais ultrapassaram em 2013 os 206 milhões de euros, uma subida de 15,6% face ao ano anterior.

Castro e Melo, secretário-geral da Associação Nacional das Indústrias de Conservas de Peixe (ANICP), diz que os números reflectem o trabalho que as empresas conserveiras têm feito no exterior (60 a 65% da produção segue para o estrangeiro). Mas, ao mesmo tempo, é fruto de uma "nova mentalidade do consumidor", também sentida no mercado interno. O responsável dá o exemplo da Loja das Conservas, em Lisboa, onde a ANICP é parceira, para sublinhar a "redescoberta" do produto.

Maria Cristina Reynal, sócia de A Poveira e responsável pelo departamento de exportação da empresa de Póvoa de Varzim, dona da marca Minerva, conta que a facturação quase duplicou no ano passado, graças à entrada em laboração da nova fábrica, que inclui uma linha de produção de conservas de atum. Suíça, Estados Unidos, Camboja foram mercados que se abriram, num ano em que a facturação passou de 4,5 para 7,5 milhões de euros.

Ainda assim, a escassez de matéria-prima (sobretudo de sardinha, o produto estrela das conservas portuguesas) continuou a desafiar os industriais. Castro e Melo lembra que o preço "aumentou exponencialmente".