Opinião

Boa ética e boa ciência: o percurso da investigação em células estaminais

A bioética poderá ser um bom passaporte para um debate sério e esclarecedor.

Vivemos numa época de importante viragem no paradigma da relação entre a ética e a investigação em saúde. O hiato temporal entre as descobertas científicas e a concomitante reflexão ética desvanece-se progressivamente; a ética, ou talvez mais correctamente a bioética, encontrou o seu ritmo. Hoje, a ciência vai acontecendo e a bioética vai reflectindo; reflectindo sobre as possibilidades, equacionado os riscos, avançando propostas que, sem serem científicas, imprimem matizes importantes no ritmo do desenvolvimento científico.

A mais recente descoberta na área das células estaminais, as designadas células STAP, células de pluripotência induzida por estímulo ambiental, ilustram, uma vez mais, como o facto de se trazer, por parte da ética, dúvidas e desafios à ciência, de modo a resolver objecções ou incertezas éticas se tornou num saudável exercício de boa ética e boa ciência. Talvez se deva saudar esta evolução como promissora do futuro relacionamento entre ética e investigação, comprovado o estímulo (e não o bloqueio) que a reflexão ética pode trazer ao engenho do investigador.

Na verdade, o campo de reflexão da bioética tem sofrido nos últimos anos consideráveis alterações. Para este facto, contribuiu em nosso entender uma mudança fundamental na agenda da ética; a ética passou a incluir no seu campo de reflexão, não só as situações persistentes (abortamento, eutanásia, e outras) mas também as situações emergentes (clonagem, terapia génica, células estaminais, nanotecnologia, entre outras). Este exercício de antecipação, uma vez que em muitas das situações a reflexão ética precede os aspectos científicos, permitiu um confluir entre as abordagens das duas áreas, científica e ética, tornando-se num estímulo à reflexão e à procura de soluções, que potenciam não só o progresso científico, mas também o progresso moral.

A história, com menos de 20 anos, do percurso da investigação em células estaminais, essencialmente no que concerne ao impulso na investigação em células estaminais de adultos, e mais recentemente, as estratégias apresentadas para obter células estaminais pluripotentes evitando a destruição do embrião, parece-nos bastante ilustrativa desta tendência de concertação entre a agenda científica e ética.

Os estudos apresentados pela primeira vez em 2006 pela equipa de Yananaka sobre a possibilidade de reprogramar geneticamente células estaminais de adultos, adquirindo, assim, características das células estaminais pluripotentes, e a publicação esta semana do trabalho de Obokata sobre a obtenção de células estaminais pluripotentes induzida por estímulos ambientais causadores de stress celular são exemplos claros desta nova tendência. Estas células designadas de células estaminais de pluripotência induzida, genética ou ambientalmente, representaram um avanço espantoso e uma área de investigação com potencialidades crescentes.

Um debate sério e esclarecedor só será possível, se forem afastados todos os subterfúgios rebuscados e equacionadas as reais perspectivas. A bioética poderá ser um bom passaporte, porque, ao mesmo tempo que reconhece as diferenças, parece capaz de dar conta de eventuais “solidariedades ocultas” em diferentes regiões do saber. Trata-se, numa palavra, de transformar o conhecimento em esperança, isto é, em acções para fazer um mundo melhor, na continuidade do tempo que se escapa e da irreversibilidade da vida.

Nota: para informações mais detalhadas consultar o artigo Carvalho A.S., Ramalho-Santos J. 2013. How can ethics relate to science? The case of stem cell research. European Journal of Human Genetics. 2013 Jun;21(6):591-5.

Directora do Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa