"Os heróis nunca morrem", disse Timochenko

Depois de dois anos e meia presa, a antiga primeira-ministra apareceu na Praça da Independência numa cadeira de rodas. Primeiro comoveu. A seguir deu ordens à multidão: não podem deixar a praça até haver a certeza de que a Ucrânia "não volta atrás".

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Iulia Timochenko, ex-primeira-ministra da Ucrânia BULENT KILIC/AFP
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Timochenko e a filha, no aeroporto de Kiev REUTERS/Maks Levin
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Milhares de pessoas na Praça da Independência REUTERS/Baz Ratner
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Os telemóveis acesos como forma de apoio a Timochenko REUTERS/Baz Ratner

Timochenko, a maior rival política do Presidente, agora demitido, estava presa há dois anos e meio, num processo com mais do que prováveis motivações vindicativas. Ao dirigir-se aos manifestantes da Maidan, no dia em que tudo aconteceu na Ucrânia, tentou incluir-se nas malhas do movimento contestatário, assumindo-lhe a herança e a liderança. “Lamentei tanto não estar aqui, quando vocês lutavam nas barricadas, sem poder trabalhar para que tudo fosse feito de forma pacífica”, disse ela, na sua cadeira de rodas, com as suas tranças louras. “Quando vi na televisão um rapaz cair ferido e os outros a arriscarem a vida para o irem ajudar, eu chorei e rezei”, contou ainda, antes de começar a dar ordens: “Ninguém tem o direito de deixar esta praça enquanto não mudarmos o país. Enquanto não tivermos a certeza de que há uma autoridade que não permitirá que o país volte para trás, ninguém tem o direito de sair daqui.”

A multidão aplaudiu, mas não foi a apoteose. Para os milhares de manifestantes armados de bastões, escudos e capacetes, era demasiado para um só dia. Estavam esgotados, atordoados pelo seu próprio poder, num dia em que de manhã esperavam um massacre e à tarde já guardavam as portas do Parlamento.

Foi lá, no edifício à volta do qual costumavam manifestar-se os apoiantes do regime, que a situação começou a virar. Ao fim da tarde, o Parlamento demitiu o Presidente do país, Viktor Ianukovitch, cumprindo a exigência dos milhares de pessoas que se manifestaram durante meses na Praça da Independência de Kiev.

A votação decorreu quando os manifestantes já controlavam a cidade, de súbito esvaziada de forças policiais e militares, e o Presidente já voara oportunamente para Kharkiv, a segunda cidade do país e a mais próxima da Rússia, geográfica e afectivamente.

De lá, Ianukovitch anunciou, numa entrevista televisiva, que não aceitava a decisão do Parlamento, que classificou como "ilegal" e "golpista", conduzida por forças nazis. Deu a entender que se preparava para regressar a Kiev e reassumir as suas funções como se nada fosse, mas ninguém acreditou. O palácio presidencial encontrava-se desde o início da tarde abandonado, sem qualquer força de segurança que o guardasse, e pelo interior da residência de luxo do chefe de Estado já grupos de manifestantes recolhiam lembranças e se espantavam com a piscina interior, as salas de massagens, etc. Ou seja, por muito que o desejasse, Ianukovitch não teria para onde voltar.

Quem voltou foi Iulia Timoshenko, líder do Pátria, o maior partido da oposição, e líder da chamada Revolução Laranja, que em 2004 conseguiu anular as eleições que davam a vitória a Ianukovitch. Mas não é claro o papel que poderá vir a assumir na nova estrutura do poder. Timoshenko, que foi primeira-ministra durante cerca de três anos, é por muitos conotada com a oligarquia corrupta e muito daquilo que hoje fez cair o regime.

Aliás, nada é certo neste momento na Ucrânia. O poder está na rua, e não se sabe quem domina a rua. Em algumas horas, os deputados no Parlamento afadigaram-se a fazer História. Anularam a Constituição, repondo o texto de 2004, convocaram eleições presidenciais para 25 de Maio, nomearam o número dois do partido Pátria, Oleksander Tourtchinov, para presidente da assembleia, com carácter provisório, para que possam ser aprovadas novas leis, anunciaram a constituição de novo Governo, aprovaram uma moção condenando qualquer tentativa de dividir o país.

Tudo isto enquanto cá fora tudo mudava também. Pela manhã, na Maidan, a Praça da Independência, os manifestantes organizavam-se em brigadas de combate, juntando todos os grupos armados numa Unidade de Auto-defesa de Maidan, reforçavam as barricadas, acendiam fogueiras, dispunham colunas de pneus, traziam camiões e blindados roubados à polícia, para ajudar a bloquear os acessos. Filas de pessoas passavam de mão em mão as pedras que acumulavam em montes dispostos estrategicamente, para serem facilmente alcançadas e lançadas contra os polícias.

Vários carros com os corpos de pessoas mortas nos confrontos dos últimos dias entraram na Praça. Os corpos foram retirados dos carros, mostrados à multidão, que gritou “Heróis! Heróis!”. Os mortos são levados a seguir para as suas regiões de origem. A mãe de um dos assassinados disse: “O meu filho não era um extremista nem terrorista. Só estava a manifestar-se, como todas as outras pessoas.”

Após um dia de paz, que se seguiu a outro de violenta repressão, com mais de 80 mortos, esperava-se um novo ataque da polícia ou dos militares. Ianukovith anunciara um acordo com a oposição, que ninguém levou a sério. Era decerto uma manobra de diversão, para ganhar tempo. Ninguém mata 100 pessoas em três dias, com a ajuda de snipers altamente especializados, para a seguir desistir de tudo, pensava-se na Maidan.

Mas nada aconteceu. E quando os primeiros camiões carregados de manifestantes se aventuraram pelas ruas da cidade, encontraram-nas vazias. Não havia polícias, não havia militares. A cidade era deles agora.

“Vamos ao Parlamento, e lançamos cocktails molotov sobre todos os deputados do (Partido das) Regiões”, alvitrava um manifestante ensanduichado entre centenas na caixa aberta de um camião. “Não”, respondia outro. “Vamos esperar que eles resolvam as questões lá dentro, de forma pacífica”.

No Parque Marinski, em frente ao Parlamento, começaram a concentrar-se centenas de manifestantes. Ali, onde, desde que os protestos começaram, no fim de Novembro, se reuniam frequentemente os apoiantes de Ianukovitch, restavam agora apenas restos de estrados, de bandeiras, de merendas. Alguns manifestantes removiam estes vestígios, preparando o local para um novo tipo de festa, enquanto, porém, um grupo de médicos já montava um hospital de tendas, para ajudar os feridos de um eventual confronto. “Eles disparam a matar”, disse Andrei, 27 anos, voluntário e médico dentista. “Dispararam sobre duas pessoas da Cruz Vermelha, que estavam bem identificadas.”

Ali ao lado, alguém já erguera uma espécie de altar, com um crucifixo e velas acesas, onde várias mulheres se ajoelham para rezar. Como as portas do Parlamento se encontrassem de súbito evacuadas de polícia, alguns jovens de capacetes, bastões e escudos assumiram os seus lugares, assegurando, de cócoras, que os deputados da nação cumpriam adequadamente a sua função.

A notícia da libertação da cidade correu depressa, e a meio da tarde já milhares de pessoas se concentravam junto do Parlamento. Não já os activistas do costume, com os seus equipamentos de combate, mas grupos de estudantes, famílias com crianças.

Para Anna, 21 anos, estudante de Biologia (a especializar-se em morcegos), a mobilização generalizada em apoio a Maidan representa uma nova fase na consciência popular da Ucrânia. “Neste momento a situação é pacífica, e espero que continue assim. Não vimos aqui para lutar, mas para nos manifestarmos. Com a nossa presença queremos mostrar que nos importamos, que nos preocupamos. Que, a partir de agora, o povo está a controlar os acontecimentos.”

Para ela, isso é o essencial da revolução em curso: inaugurar uma era em que o povo fiscaliza os actos do poder. “Há três categorias de pessoas: os que apoiam Maidan, os que condenam Maidan e os que não querem saber e ficam em casa. Estes últimos não contam para nada, é como se não existissem. Os segundos foram derrotados. O primeiro grupo é que vai conduzir os acontecimentos."

Para Anna, as lógicas eleitorais não têm muito significado no momento. Manda quem se preocupou, quem sofreu, quem agiu. “O Presidente é um criminoso. Fez da Ucrânia um país de corrupção, de terror. Os mais pobres não têm qualquer possibilidade de ganhar um salário decente, e os homens de negócios honestos, que trabalharam e se esforçaram, são vítimas de extorsão permanente, por parte de funcionários e amigos do regime. Vivemos num regime feudal. Mas as pessoas têm uma mentalidade aberta, não querem mais viver no feudalismo.”

Anna é oriunda de Kharkiv, a cidade considerada o feudo de Ianukovitch. Mas não acredita que a população da zona, apesar das suas afinidades com a Rússia, esteja interessada numa secessão da Ucrânia. Há notícias de que vários líderes locais já fugiram para a Rússia, mas isso é porque, diz Anna, “foram eleitos de forma fraudulenta, não querem ficar isolados, sabem que o povo os iria demitir. O povo nessas regiões não quer a separação”.

Anna tem consciência do perigo que representam os grupos de extrema-direita que estão a conduzir a revolução. “Não sei o que pretendem no futuro, quais são os seus interesses. Mas neste momento estão muito motivados, têm capacidade de agir.”

O amigo de Anna, Ivan, 27 anos, que trabalha como técnico na fábrica de aviões Antonov, não vê motivos para preocupação. “Eles não são violentos, não querem morte e sangue, como se diz na Europa. São apenas nacionalistas, e isso é bom”, explica, referindo-se a grupos como o Public Sector ou a Organização Nacionalista Ucraniana, em relação a quem não esconde a simpatia.

Anna admite que também simpatiza com esses grupos. “Nós agora precisamos deles. Porque o patriotismo é uma ideia que toca o coração das pessoas. Já ninguém se comove com ideais humanistas ou igualitaristas. Isso é utópico, não funciona neste país”. Ivan acrescenta que, nas revoluções, é normal que os grupos mais extremistas assumam a vanguarda”. E nos Estados da Europa de Leste, como em todos que viveram sob um regime socialista, as ideias de direita, e não de esquerda, são em geral mais conotadas com rebeldia, progresso e independência, mais simpáticas aos jovens. Nesse sentido, seria normal que fosse a extrema-direita a chefiar a revolução. “No futuro, teremos de os pôr no seu lugar. O povo terá de criar mecanismos para os controlar, como terá de fazer com todos os políticos.”