A Arco outra vez numa “fase ascendente”

A quebra no mercado espanhol, em 2013, pode ter chegado aos 62%, mas não é de compradores espanhóis que se faz hoje em dia a Arco. Com a Bélgica a comprar, os galeristas dizem-se satisfeitos com a feira de Madrid.

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"The Black Hole Analogy", de 2013, Galeria Graça Brandão João Maria Gusmão e Pedro Paiva
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"Silk Building Blocks", Galeria Baginski FERNANDA FRAGATEIRO
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"Man drawing", Galeria Baginski Liliana Porter
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"Epílogo", Galeria Baginski Vasco Araújo
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"Ghost in a modern chair", Galeria Baginski ANDRÉ ROMÃO
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"Untitled" (2012), galeria Filomena Soares José Pedro Croft
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"Mountain and figures" (2013), galeria Filomena Soares Bruno Pacheco
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"Mountain Flag Group", galeria Filomena Soares BRUNO PACHECO
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"Toureiro" (2013), galeria Mário Sequeira JASON MARTIN
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"Miss Lu" (2013), galeria Mário Sequeira JOSÉ BECHARA
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"Wlaking in Mumbai" (2013), galeria Mário Sequeira JULIAN OPIE
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"Napoli" (2013), galeria Quadrado Azul Paulo Nozolino
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"Untitled" (2007), galeria Quadrado Azul Francisco Tropa
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"MFC", galeria Carlos Carvalho Paulo Catrica
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"Registo", galeria Fonseca Macedo CATARINA BRANCO

A uma feira de arte os galeristas vão vender, certo? Não só. Não é o mais comum, mas enquanto vendem podem acabar também a comprar. De resto, em certos momentos – sobretudo os de crise –, comprar pode ser o melhor dos negócios.

Seriam duas da tarde, na sexta-feria, quando Edward Tyler nos recebeu no stand da sua galeria, a nova-iorquina Edward Tyler Nahem Fine Arts, uma das galerias do Pavilhão 7 da Arco, aquele onde se concentram mais agentes “blue chip” – os que negoceiam valores mais conservadores (ou seja, mais altos e estabelecidos). Encerrados os dois primeiros dias, reservados a profissionais, a Arco abriu ontem ao grande público e a essa hora era já impossível circular no stand em frente, o da espanhola Leandro Navarro, com a que será a peça mais cara da edição deste ano da Arco – um Picasso cubista, um pequeno óleo sobre tela de 1922 marcado a 1,2 milhões de euros.

O Keith Harring de 1982 que Edward Tyler tem no seu stand está quase ao mesmo preço: um milhão. Dois compradores estão interessados na tela amarelo vibrante, um terceiro coleccionador propõe-se a ser ele a vender ao galerista – um dos seus desenhos do mesmo autor.

Edward Tyler não concretizou o negócio – o que não quer dizer que não venha ainda a concretizar… “O que muita gente não percebe é que uma feira é marketing”, diz-nos o galerista a sorrir. “Ao mostrar determinado trabalho, atraem-se pessoas que têm obras do mesmo artista e estão interessadas em comprar ou vender…”

Este é o nono ano que Edward Tyler está na Arco. Passou pelo pico de mercado anterior a 2009 e tem atravessado os anos mais recentes, de crise. “O pior ano foi o ano passado”, diz-nos. E faz eco do que dizem as generalidade dos agentes neste 2014: “Este ano parece bastante melhor. O ambiente não é esfusiante, mas é positivo. Tendo em conta tudo o que se passa, está bem…”

Como a maior parte dos galeristas – sobretudo este ano… – , Edward Tyler recusa falar de valores, mas, sobre o nível médio da Arco, conta como na sua participação conheceu um coleccionador espanhol com quem foi conversando ao longo de duas edições sem qualquer venda. “À terceira edição fez-me uma compra de seis milhões.”

São as excepções. Mas o optimismo moderado de Edward Tyler não é: repete-se pela maioria das galerias internacionais, incluindo as portuguesas, mesmo as com mais dificudades de afirmação – este ano 13, entre as 219 totais, de 23 países, que até amanha estão na feira.

Pedro Cera, que faz parte do comité de selecção da Arco, diz que “não se pode falar numa recuperação milagrosa, porque não é verdade”, mas refere “um sentimento geral”: “Correu bem.”

Com obras vendidas de todos os portugueses que tem na sua galeria – Gil Heitor Cortesão, Ana Manso, Diogo Evangelista… –, Pedro Cera diz que o recobro “vai levar o seu tempo”: “Não voltámos ao registo de 2007 e 2008. Mas as coisas têm melhorado de ano para ano. Não sei se vamos voltar à velocidade pré-crash, mas começam, de novo, a criar-se as condições para isso.”

Vera Cortês diz ter começado a sentir essa recuperação ainda em Lisboa, sobretudo nos últimos meses: “Tive um bom ano, não me posso queixar, mas desde Novembro nota-se uma diferença. Estamos numa fase ascendente.”

Na Arco, este ano, Vera Cortês declara ser notório o renovado interesse pela generalidade dos artistas da sua galeria e não apenas por um ou dois protagonistas. Notória foi também, diz, a presença de alguns compradores portugueses que há já algum tempo não visitavam a feira.

Mas não é dos compradores portugueses que mais se fala num momento em que a Bélgica parece estar a oferecer a Madrid os seus melhores coleccionadores.

Numa edição da Arco que começou “sem grandes expectivas”, mas em que vendeu já peças entre 11 mil e 70 mil euros, é de coleccionadores belgas que fala Cristina Guerra, referindo ainda o interesse de dois museus internacionais por um dos seus artistas: Yonamine. E é da Bélgica que se fala também na dinamarquesa Nicolai Wallner, onde uma nova peça de Dan Graham a 330 mil euros tem funcionado como cartão-de-visita e conseguiu dois interessados.

A Bélgica, mas também a Itália e os Estados Unidos. É destas nacionalidades que fala, por exemplo, Manuel Ulisses, da Galeria Quadrado Azul, onde se expõem obras de artistas como Francisco Tropa, Paulo Nozolino, Hugo Canoilas, Ana Manso e Mika Tajima e onde as vendas, até ontem, iam dos 5 mil aos 20 mil euros.  

E falta o pós-feira. É então que Leandro Navarro conta vender o seu Picasso. Na Arco houve interessados, “sobretudo suíços e norte-americanos”, diz o galerista. Satisfeito com o programa de coleccionadores que a feira convidou para a sua 33.ª edição, explica que mostrar um Picasso na Arco é mais uma questão de “prazer”: “Sei que vou tê-lo na galeria talvez cerca de dois meses e depois vendê-lo. Um Picasso vende sempre.”