Editorial

Alta ansiedade

O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, recusou ontem amavelmente umas bolas cor de laranja anti-stress que lhe eram oferecidas no Salão Internacional do Sector Alimentar e Bebidas, onde fez um novo apelo ao consenso com o PS – e no qual António José Seguro lhe devolveu o convite, com uma resposta negativa.

Diz Passos Coelho que está tranquilo e não precisa das tais laranjas (com as quais Seguro foi fotografado), mas sugeriu que elas fariam falta a muitos políticos que andam ansiosos. Esta declaração foi feita num momento em que foi possível detectar alguma ansiedade na multiplicação dos apelos ao consenso que foram ouvidos do lado do Governo. Passos (duas vezes), Maria Luís Albuquerque e Pires de Lima insistiram nessa tecla, por sinal numa altura em que aumentam os sinais de que a Europa prefere para Portugal uma saída “limpa” do programa do ajustamento.

Será esse o motivo para esta sucessão de apelos ao consenso (que o primeiro-ministro, negando qualquer ideia de ansiedade, diz não precisarem de resposta urgente)?

O problema de fundo, porém, está em que o consenso, ao contrário das laranjas verdadeiras, não cresce nas árvores. Passos (e o resto do Governo) tem toda a razão quando enumera as vantagens do consenso, nomeadamente as externas. Mas, neste momento, não sabemos sequer o que é que Governo e os socialistas pensam ser melhor para o país, se uma saída limpa ou se o programa cautelar. O executivo diz que só decide na hora, os socialistas limitam-se a dizer que um cautelar seria uma derrota para o Governo…

É uma amostra de como o discurso dos grandes partidos se resume ao soundbite do momento. Ora nunca vão existir consensos se não existirem pontos de partida claros para o diálogo. E convém lembrar que, em Dezembro, Passos Coelho dispensou o PS da obrigatoriedade de um compromisso por causa do cautelar. Porque haveria o PS de querer entrar, agora que o problema parece ser, precisamente, a hipótese de não vir a existir um… cautelar?