Líder da oposição venezuelana detido

Leopoldo López é o organizador do movimento de desobediência civil em curso. Quatro pessoas já morreram e o clima nas manifestações é de alta tensão.

Leonardo López a ser escoltado pela polícia
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Leonardo López a ser escoltado pela polícia JUAN BARRETO/AFP

Às doze horas e vinte e três minutos (hora local) desta terça-feira, Leopoldo López entregou-se à polícia de Caracas. Dezenas de pessoas que assistiram à cena protestaram, tentaram cercar os homens fardados.

Nesse momento, o risco de a violência rebentar em Caracas, a capital da Venezuela, e noutras cidades onde se realizam gigantescos protestos antichavistas, aumentou. Não havia quem soubesse como se iria portar a enorme massa humana que López mobilizou na sua estratégia para derrubar o regime – como não há quem saiba como se irão portar os chavistas ou a polícia destacada em grande número para as ruas. Há batalhões de polícia motorizada em vários bairros da capital e unidades da polícia de choque.

No pouco tempo que esteve na frente da manifestação de Caracas, Leopoldo López dirigiu-se à multidão – na Praça Brión, no bairro Chacaíto, disse que o povo venezuelano tem o direito de se manifestar e que estava ali pacificamente a exercer o seu direito.

Desde que começou a campanha de desobediência civil, há duas semanas, que López é apresentado como o líder da oposição. À campanha chamou “A Saída”, porque acredita que esse será o final da revolta popular a que deu início e que diz deve ser constante, para a pressão sobre o desgastado Governo do Presidente Nicolas Maduro não abrandar.

Na imprensa estrangeira (sobretudo na americana), López é apresentado como um radical com vida própria, ou seja, alguém que gosta pouco de obedecer às regras e procura soluções pouco habituais.

Se era esse o percurso que planeava quando, nos anos de 1990, se juntou a dois amigos para fundar a associação civil Primeiro Justiça, não se sabe. O percurso que se seguiu obrigou-o a ir por outro caminho.

No final dessa década, López, Julio Borges e Henrique Capriles fundaram o Primeiro Justiça, que rapidamente se tornou o maior partido da oposição na Venezuela. Os três rapazes personificavam tudo aquilo contra o qual Chávez fizera a sua revolução bolivariana – eram filhos de boas famílias e, em resumo, uns privilegiados. López estudou na prestigiada Universidade de Harvard, nos Estados Undios. 

Em nome do Primeiro Justiça, Capriles e López foram a votos e foram eleitos. López chefiou a Junta de Freguesia de Chacao (Caracas), onde, contaram os jornais venezuelanos, aplicou uma gestão que começava a dar frutos quando foi acusado de erros de gestão e proibido de se candidatar a cargos públicos durante seis anos. O partido concentrou-se, então, em Capriles, que foi ascendendo na hierarquia e ganhando notoriedade junto da opinião pública – presidente da Câmara de Baruya Caracas, governador do estado de Miranda e duas vezes candidato à presidência, uma vez contra Chávez, outra contra Maduro (que venceu por uma unha negra). 

Com caminhos tão díspares, a amizade entre Henrique e Leopoldo deteriorou-se e López saiu do Primeiro Justiça, em 2008, começando a ser conotado com a ala mais radical da oposição unida na grande coligação Mesa da Unidade Democrática. Mas foi López quem, dentro da Mesa, geriu as campanhas de Capriles.

Aos 42 anos, este economista casado e com dois filhos está a viver a sua hora. As autoridades têm agora 48 horas para levar Leopoldo López perante um juiz e formular uma acusação – que Maduro já disse qual seria: incitação à desordem pública. Nos confrontos entre manifestantes antichavistas e a polícia morreram já quatro pessoas. Após a prisão de López, eclodiram confrontos na Avenida do Libertador e em Chacaíto.