Sara Nunes Adriano Miranda
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Sara Nunes Adriano Miranda

Eles estão a traçar novos caminhos na arquitectura

O que tem em comum um museu temporário de Andy Warhol, uma ilustração num livro infantil, um vídeo sobre um edifício ou uma peça de dança? São as outras “obras” dos jovens arquitectos portugueses

São arquitectos de formação, mas procuraram outros caminhos que não deixam de estar ligados à profissão. Da dança à ilustração, passando pelas instalações e pelo vídeo, estes arquitectos estão a reinventar a forma como olhamos para a arquitectura.

Sara Nunes, editora de vídeo

“Cheguei à conclusão que projectar era aborrecidíssimo”

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Like Architects Renato Cruz Santos

A arquitectura levou Sara Nunes a Madrid, em 2011, mas foram as competências na edição de vídeo que saltaram à vista dos seus novos empregadores. Na altura, o escritório precisava de alguém nesta área para realizar um vídeo sobre o projecto de uma exposição para o Japão. Sara ficou responsável pelo trabalho. “Aceitei, com algum medo, porque o que eu sabia era o básico, mas, a partir daí, nunca mais parei de fazer vídeo”, conta a arquitecta de 28 anos.

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Mafalda Mendonça Renato Cruz Santos

Sara continuou a trabalhar em projecto, mas descobriu que gostava mais de comunicar, principalmente, em vídeo. “Durante o exercício da profissão acabei por perceber que projectar era aborrecidíssimo”, conta Sara, realçando que a paixão pelo vídeo falou mais alto.

Resolveu regressar a Portugal, já com uma ideia na mala. A Building Pictures, fundada em Abril de 2013, é uma empresa especializada em vídeos sobre arquitectura. Apesar de ainda estar a dar os primeiros passos, Sara reconhece que o projecto superou as expectativas. Já tem mais de 20 trabalhos no portefólio, está a organizar um workshop, a promover um concurso de vídeos e a realizar uma série sobre arquitectura à moda do Porto.

Diogo Aguiar, arquitecto

“Somos um atelier experimental”

O trabalho dos Like Architects chamou a atenção de um dos prémios Pritzker português. Souto Moura perguntou-lhes, há pouco tempo, se consideravam ser mais artistas ou mais arquitectos. Diogo Aguiar, um dos fundadores do projecto, recorda este episódio com a descontração de quem não se deixa rotular. Se a arquitectura efémera marcou o início do atelier, é a vontade de experimentar e de inovar que está na essência dos Like Architects.

O bar construído com caixas de plástico, que ganhou o prémio de “Edifício do ano” do ArchDaily em 2010, foi um “exercício” de faculdade, mas que mostrou ser possível construir com materiais inusitados, usando o “detalhe do desenho arquitectónico em objectos do quotidiano”, explica Diogo Aguiar.

Desde então, utilizaram latas metálicas de tinta para construir um museu temporário de Andy Warhol num centro comercial, transformaram fontes de Guimarães, durante a Capital Europeia da Cultura, e criaram um labirinto de lâmpadas LED, no Centro Cultural de Belém. Pelo meio, trabalham em projectos “mais próximos da arquitectura convencional”, mas para os quais são procurados pelo “carácter diferenciador” das suas soluções. “Somos um atelier experimental, sobretudo, porque não recorre a normas e convenções para encontrar a solução arquitectónica para cada projecto”, salienta o arquitecto de 30 anos.

Ângela Vieira, ilustradora

“A arquitectura é demasiado rígida para mim”

Se Ângela Vieira, 28 anos, tivesse ingressado num escritório de arquitectura quando acabou o curso, isso teria sido um desvio no caminho que queria mesmo seguir. Esta arquitecta de Braga é hoje ilustradora a tempo inteiro. Encontrou nos livros infantis terreno fértil para os seus desenhos fantásticos e irreais.

“Quando estava a acabar o curso tentei arranjar estágio, mas comecei a perceber que a arquitectura não era aquilo que me dava mais satisfação, como não consegui arranjar logo estágio, resolvi usar este tempo para fazer o que gostava”, conta Ângela Vieira. Assim, foram surgindo as primeira ilustrações e quando resolveu lançar-se como ilustradora tinha “dois ou três” desenhos no portefólio. Desde então, nunca ficou sem trabalho na área.

“A arquitectura é demasiado rígida para mim, sempre adorei a fantasia e o irreal”, refere Ângela, sem deixar de reconhecer que a formação em arquitectura dá-lhe uma “noção de espaço diferente” que está presente nas suas ilustrações.

Mafalda Mendonça, bailarina, arquitecta e pintora

“Há um contágio entre dança, pintura e arquitectura”

Os dias de Mafalda Mendonça nunca são iguais e estão divididos entre a dança, a arquitectura e a pintura. Há alturas em que se sente mais bailaria, outras em que se sente mais arquitecta. Mas sempre com uma certeza: “não consigo viver sem ter o contágio destas três áreas”.

A arquitecta de 25 anos tem formação secundária em dança e dá aulas para crianças desde 2010. Ao mesmo tempo, é bailarina no espaço La Marmita, em Vila Nova Gaia, e, desde o ano passado, está a estagiar para entrar na Ordem dos Arquitectos e a fazer um curso sobre estudos de património na Faculdade de Arquitectura do Porto (FAUP). Ainda consegue pintar e expor com alguma frequência.

Pode parecer impossível conciliar tantas actividades, mas, para Mafalda, não poderia ser de outra forma. “Não é fácil, mas eu não consigo ver as coisas de outra maneira”, afirma. Mafalda não se imagina a actuar num só campo. “A minha percepção de espaço enquanto bailarina também influencia o meu trabalho de arquitecta, na pintura, pinto corpos em movimento, ao mesmo tempo, penso sempre nos espaços onde estes corpos estão”, explica. “Pretendo que esteja tudo ligado, até porque a formação em arquitectura é muito lata e nos permite sempre ter influências externas”, conclui.