É muito isto

Histeria de arte

A maior parte dos jovens não considera o trabalho de operário especializado como uma carreira viável, mas eu garanto que as pessoas podem ganhar muito mais como operários especializados do que com um diploma de história de arte.”

Quem disse isto foi, toda a gente sabe, Pedro Passos Coelho. Como qualquer bom filisteu de direita (passe o pleonasmo), o desprezo pelas artes é patente. Passos Coelho cospe na cultura (e não é um cuspir desafiador, um cuspir artístico que põe em causa o statu quo, uma escarreta cheia de revolta. É mesmo um cuspir porcalhão). Há um endeusamento da economia e um rebaixamento da arte, a sobreposição do artesão sobre o artista, típica do ultraneoliberalismo fanático que nos governa. Com este primeiro-ministro, estamos condenados à barbárie. Ah, espera… (pausa para fingir que alguém que está a ler este texto me interrompe e me dá a conhecer factos novos que tornarão ilógico todo o meu raciocínio. É um artifício dramático que, admito, funciona melhor oralmente. Enfim, peço que o leitor tenha paciência).

Olha, afinal parece que não foi o radical Passos Coelho que proferiu o disparate. Diz que foi o simpático Barack Obama, aqui há dias. Como é que um homem da esquerda, um humanista, um escritor, foi capaz de uma afirmação daquelas, prenhe da asquerosa visão economicista que normalmente associamos à direita troglodita, é um mistério. Mas, de mistérios anda cheio o mundo. Por exemplo, ninguém diria que a colecção Miró, a mais importante reunião de obras de arte dentro das fronteiras de Portugal, um espólio tão excepcional que leva curadores de museus a ter ataques de choro em público, um pout pourri de pinturas que, se sair do país, faz imediatamente a taxa de analfabetismo subir 27% (dados do Pordata), ninguém diria que foi escolhida por banqueiros, esses escroques pontas-de-lança da direita dos interesses, semifascistas broncos.

Se fosse português, Barack Obama nunca teria dito aquilo. Em Portugal, não faz sentido opor a formação técnico-profissional ao estudo de História de Arte. Não são caminhos incompatíveis. No nosso país, um jovem pode aprender a ser metalúrgico e mesmo assim ser especialista em História de Arte. É que em Portugal, para se ser historiador de Arte, não é preciso ir à escola. Nas últimas duas semanas, brotaram cerca de 16 mil peritos autodidactas em Arte Contemporânea, prontos para dar pareceres sobre a colecção Miró. E estou a contar só com o Fórum TSF.

Nos Estados Unidos, a ideia retrógrada é que é preciso frequentar o ensino superior durante cinco anos para ter acesso ao conhecimento específico em História de Arte. Cá, não: confiamos na comunicação social para disseminar erudição. Ultimamente, um português só precisa de assistir a cinco minutos de televisão por dia para conseguir discorrer à vontade sobre Arte Contemporânea. Se adormecer a ver um programa de comentário político, quando acordar é uma sumidade em surrealismo, com competências para atribuir preços a qualquer rabisco que lhe apareça à frente.

Os portugueses a-do-ram arte. É preciso não esquecer que, em 2013, só na loja de souvenirs do Museu Berardo gastaram 174 milhões de euros em ímanes, daqueles que se usam para prender papel nas portas dos frigoríficos. Normalmente, os portugueses escolhem reproduções de quadros do Miró.

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