Toda juventude é antiga

Pretensiosos. Todos os protagonistas de F. Scott Fitzgerald são assim. O autor descreve os jovens americanos dos anos 20 de uma forma tão mordaz que faz essas teorias recentes sobre a geração Y parecerem um museu de grandes novidades

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Eles são jovens, belos, autoconfiantes e mimados e, em algum momento entre os 20 e os 30 anos, vão tomar alguma decisão por capricho que arruinará suas vidas. Algum contemporâneo não reconhece esta descrição? Alguém aqui nunca teve a sensação inevitável de, nos últimos anos, ter morrido na praia? É difícil acreditar que não estamos falando de nós mesmos, hoje, agora. Impulsivos, perdidos numa virada de século mal explicada, adiando uma vida adulta que já passou da hora, levando até o fim as obsessões mais desbaratadas.

Pretensiosos. Todos os protagonistas de F. Scott Fitzgerald são assim. O autor descreve os jovens americanos dos anos 20 de uma forma tão mordaz que faz essas teorias recentes sobre a geração Y parecerem um museu de grandes novidades. Toda juventude é antiga: a adolescência tardia, as farras mais ousadas, a euforia por um futuro brilhante que, no final das contas, nunca chega. “Destinados a um daqueles momentos imortais que acontecem de forma tão radiante que sua luz é suficiente para iluminar anos” (1922, p. 125). As ruas ainda estão cheias de Anthonys, Glorias e Amorys irresponsáveis, vivendo de festas, jazz, vazio e amores obcecados. Metade do mundo desaprova. A outra metade morre de inveja.

Os romances de F. Scott Fitzgerald nunca se repetem. Mesmo que, no fundo, todos os protagonistas sejam ele e que todas as protagonistas sejam Zelda. Em todos os livros. Mesmo depois da briga e da separação, dela adoecer na Europa: toda a bibliografia dele reescreve mil vezes a mesma história atormentada, interrompida, “uma presteza romântica como jamais encontrei em qualquer outra pessoa e que, provavelmente, jamais tornarei a encontrar” (1925, p.5). Lamentei quando, em 2013, divulgaram que a canção do filme “O Grande Gatsby” foi desclassificada às vésperas do Oscar. Ironicamente, morreu na praia. A letra era triste, desesperançada. Repetia e repetia, numa tradução livre:

“Você ainda vai me amar

Quando eu não for mais jovem e belo?

Você ainda vai me amar

Quando eu só tiver a minha alma amargurada para ofertar?”

Em algum momento, todos aqueles personagens se perguntam isso. Quando a festa termina. Quando o dinheiro acaba. Quando os anos varrem quase tudo e a decadência se aproxima como se duas pessoas estivessem conversando e, no chão, suas sombras se alongassem uma sobre a outra. O que vai acontecer quando não formos mais jovens e belos? O que acontece depois dos bailes, das conquistas, das vaidades? Essa pergunta já faz quase cem anos. Outros jovens vão deixando de ser jovens. E, até hoje, ninguém sabe a resposta exata.

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