Editorial

O sprint perigoso de Matteo Renzi

Diz-se em Itália que a ideologia do novo primeiro-ministro, Matteo Renzi, é a velocidade.

Em teoria, não deveria surpreender que um político que tem pressa em atingir os seus objectivos chegasse antes do previsto à liderança do Governo. Os italianos gostam de velocidade e, tal como o democrata Matteo Renzi, desesperam com a lentidão do seu sistema político. Mas também sabem que a rapidez implica riscos.

O líder do Partido Democrata (PD) não queria chegar a primeiro-ministro sem eleições. Mas perante a recusa do Presidente, Napolitano, em convocá-las, estava obrigado a defenestrar o primeiro-ministro em exercício, o seu colega de partido Enrico Letta, que chegara à chefia do Governo antes de Renzi assumir a liderança do PD.

A defenestração de Letta foi um episódio típico da política à italiana que Renzi despreza. Por isso e por ter aceitado governar sem antes ir a votos, o mais importante fenómeno político dos últimos tempos em Itália corre o risco de tropeçar nos próprios passos.

E isso não seria bom para a Itália, porque o jovem presidente da Câmara de Florença parece capaz de introduzir uma dinâmica reformista que em Itália todos reclamam mas que nunca ultrapassa o campo do discurso.  Pouco depois de ter chegado à liderança do partido, negociou uma reforma profunda do sistema eleitoral com Berlusconi, derrubando um tabu e revelando ser um pragmático que não se importa de chocar as cabeças bem-pensantes do seu partido. Renzi é um outsider que acusa a esquerda de ter medo do futuro e que, por seu turno, não tem medo de dizer aos italianos que a austeridade é necessária e que não têm nada que culpar a senhora Merkel.

Serão as urnas a decidir o futuro desta promessa de mudança para a Itália. O resultado que o PD obtiver nas eleições europeias será decisivo para o legitimar politicamente ou não. Renzi gosta de velocidade, mas decidiu seguir por uma estrada que não queria. O exercício de condução à vista será um teste decisivo para o jovem político que não tem medo do futuro e não pode ter medo do presente.

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