Soares tem reunido com diferentes correntes socialistas, excepto a de Seguro

Encontros promovidos pelo histórico socialista são olhados, dentro e fora do partido, como de oposição ao líder. Mas Soares não desistiu de fazer oposição ao Governo e pode retomar “modelo Aula Magna”.

Mário Soares não esconde que pretende com este encontro puxar para a esquerda o PS de António José Seguro
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Soares e Seguro ainda não estiveram juntos este ano Rui Gaudêncio

À superfície, o PS parece um partido pacificado. Mas de forma cíclica, surgem declarações que revelam a impaciência no seio do principal partido da oposição em relação à actual direcção.

O mais recente protagonista a agitar as águas foi o ex-presidente do Governo regional do Açores, Carlos César, que em entrevista à Rádio Renascença divulgada terça-feira, ousou dizer aquilo que alguns apenas assumem entre camaradas. “Se houvesse uma situação de anormalidade, em que o PS não obtivesse um bom resultado [nas eleições europeias], é evidente que essa questão [liderança do partido] deveria ser colocada”.

Revelou também ter conversado com o secretário-geral socialista, António José Seguro, sobre um “eventual comprometimento” seu nas europeias, mas que “não tinha disponibilidade” para participar na lista do partido.

 António José Seguro reagiu quarta-feira, no Parlamento, garantindo que o “PS está de boa saúde e recomenda-se”, e prometendo que “no momento adequado o PS divulgará, quer o cabeça de lista, quer a lista às europeias”. E sobre as críticas de César – que Seguro estaria a falar demais – o secretário-geral disse apenas o seu “adversário” era “o Governo”.

Mas a realidade é que o silêncio da direcção socialista em relação aos candidatos às europeias está gerar alguma impaciência no universo socialista. E receios de que a aparente inoperância resulte num mau resultado eleitoral a 25 de Maio. Daí que, mesmo sem manifestações públicas, nas últimas semanas tenham sido feitas movimentações.

O “pólo aglutinador”, na definição de um dirigente socialista, tem sido o ex-presidente da República Mário Soares. As iniciativas públicas não têm sido tão numerosas, embora nos bastidores se mantenha muito activo. Desde há semanas que o ex-líder socialista tem promovido contactos ao mais alto nível nas diferentes correntes socialistas. Nem de propósito, Carlos César esteve com Soares na sua fundação há cerca de 15 dias.

No entanto, tem sido evidente ao longo dos últimos meses o desencanto do histórico socialista com o actual líder do PS. Em Abril do ano passado, num almoço na sede do partido, Soares ainda classificava Seguro como “um bom líder, evidentemente”, fiel aos valores socialistas.

Mas em Julho, depois crise política gerada por Paulo Portas, que levou Seguro a negociar com o CDS e com o PSD, Soares foi duro. “Fiquei desiludido com o discurso brando com que anunciou o desacordo e deixou algumas portas abertas para uma nova discussão”, disse numa entrevista. E em Novembro, questionou a capacidade de combate do actual secretário-geral. "Se o PS fosse um bocadinho mais activo, tinha 90% com certeza" nas sondagens, disse na apresentação de um livro de crónicas da sua autoria.

Deslocar Aula Magna para o Porto

A verdade é que Mário Soares não desiste de se manter na arena política e chegou mesmo a ponderar reeditar as sessões públicas da Aula Magna – que foi replicada em Coimbra. Desta vez, o plano era deslocar a iniciativa para o Porto.

O PÚBLICO contactou Mário Soares sobre a sessão pública e os encontros mantidos nas últimas semanas. Através do seu gabinete, na Fundação Mário Soares, fez saber em relação às duas questões que “isso não tem qualquer fundamento”.

Mas Vítor Ramalho, que tem colaborado na organização dos eventos de Soares, admitiu que se chegou a pensar em preparar mais uma sessão pública “na mesma linha das anteriores, a ter lugar no Porto, com um modelo idêntico e o mais abrangente possível”. Mas acrescentou depois que “não vai mesmo realizar-se”.

Manuel Alegre confirmou também ao PÚBLICO que debateu com Soares a réplica portista da Aula Magna depois da iniciativa organizada em Coimbra, “que correu muito bem”. “E alargar eventualmente a outras cidades”, acrescentou o ex-deputado.

Nenhum dos socialistas mais próximos de Mário Soares assume que a particular pro-actividade do ex-Presidente esteja relacionada com a direcção do PS. “O António José Seguro não tinha que estar [na Aula Magna]”, começa por frisar Alegre. E também lembra que “sempre houve no PS” quem assumisse publicamente posições mais criticas à liderança. “Nós temos que ser impacientes com a situação em que o país está”, acrescenta. António Ramalho apenas adianta que o ex-presidente tem estado activo: “Sei que ele está atento”, disse sem precisar.

Mas o PÚBLICO sabe que nas últimas semanas Mário Soares tem chamado a si as diferentes correntes que existem no PS. Os encontros não são novidade. Mas as últimas semanas foram em maior número.

Manuel Alegre confirmou ter reunido com o ex-chefe de Estado. O ex-presidente Jorge Sampaio também se reuniu com Soares, apurou o PÚBLICO. Depois destes foi a vez de José Sócrates e Pedro Silva Pereira. E já depois de Carlos César foi a vez dos dirigentes Pedro Nuno Santos e Pedro Delgado Alves.

António José Seguro não quis dizer se nas últimas semanas esteve com o fundador do PS. “A agenda pública do secretário-geral é conhecida”, respondeu o seu gabinete. Mas o PÚBLICO sabe que os dois socialistas ainda não estiveram juntos este ano.   

Sobre a leitura a fazer das movimentações soaristas, um destacado socialista mais à esquerda do PS admite que esta não podia ser mais preocupante para Seguro: “Mário Soares quer um candidato [para a liderança do PS] à força toda.”

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