Freguesia de Ponte de Lima ameaça boicotar eleições por causa de linha de alta tensão

Linha vai atravessar freguesia de Gemieira e tanto a junta como os moradores contestam o traçado

Segundo o autarca de Gemieira, o traçado proposto coloca a linha a passar pelo meio do casario da aldeia
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Segundo o autarca de Gemieira, o traçado proposto coloca a linha a passar pelo meio do casario da aldeia Gonçalo Português

O presidente da Junta de Freguesia de Gemieira, no concelho de Ponte de Lima, afirmou esta quarta-feira que a população está "disposta a tudo", inclusive a boicotar as próximas eleições, para travar a passagem de uma linha de alta tensão pela aldeia.

De acordo com o autarca António Sá Matos, a posição surge devido aos receios com os "possíveis impactos negativos" da nova linha eléctrica de alta tensão na saúde da população, no património natural e construído e pela "desvalorização" dos terrenos, que deixam de permitir construção.

"Pelo menos que afastem isso no mínimo 500 metros das habitações. Da forma como está, não vamos permitir. A população está disposta a tudo para impedir que avance", disse à agência Lusa António Sá Matos, assumindo que esta linha "vai rasgar toda a freguesia", habitada por 600 pessoas.

Em causa está a construção de uma linha eléctrica de 400 KV, de Fontefria, em território galego (Espanha) até à fronteira portuguesa, com o seu prolongamento à rede eléctrica nacional, no âmbito da Rede Nacional de Transporte (RNT) operada pela empresa Rede Eléctrica Nacional (REN).

"As pessoas querem sair à rua e até já falam em boicotar as eleições [europeias]. Não entendem por que é que a linha tem de passar pelo meio da freguesia, estragar a nossa terra e não deixar qualquer benefício para a população", sublinhou.

O troço português, cujo Estudo de Impacto Ambiental (EIA) está em consulta pública até quinta-feira, prevê a passagem desta linha através de oito dos dez concelhos do distrito de Viana do Castelo e ainda por Vila Nova de Famalicão, Barcelos (ambos do distrito de Braga), Vila do Conde e Póvoa de Varzim (os dois do distrito do Porto).

O autarca de Gemieira garante que esta será a freguesia de Ponte de Lima "mais afectada", de acordo com a proposta actual, pela proximidade a vinte habitações, a um aglomerado de 14 moinhos, uma quinta de turismo rural de relevância internacional, áreas de produção agrícola e uma ecovia junto ao rio Lima.

"Esta linha obriga a um corredor de 17 metros de largura e a uma faixa de protecção de mais 25 metros para cada lado. Quer dizer que as árvores vão ser todas abatidas e a vegetação arrancada, destruindo o nosso património natural e a imagem da freguesia", assume ainda o autarca.

Segundo António Sá Matos, um grupo de cidadãos de Gemieira já reuniu mais de 200 assinaturas num documento de contestação ao traçado e que será enviado esta semana às entidades públicas, no âmbito da consulta ambiental do projecto. Iniciativa idêntica decorre na freguesia de Ribeira, igualmente em Ponte de Lima, e que também será atravessada pela linha.

De acordo com o documento em Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) na Agência Portuguesa do Ambiente, o troço nacional deste projecto prevê a construção de duas novas linhas duplas trifásicas de 400 KV, atravessando, potencialmente, 121 freguesias.

Trata-se de um novo eixo de ligação entre a fronteira e o Porto que, ainda de acordo com o documento, "permitirá dar resposta simultânea a várias necessidades de reforço da rede, no sentido da recepção de nova produção renovável na zona do Minho", mas também para garantir o "aumento das capacidades de interligação com Espanha e de melhores condições de alimentação aos consumos do Minho litoral".