Obama e Hollande no mundo de Jefferson, o mais francês dos presidentes dos EUA

Na primeira visita de Estado a Washington de um líder francês em 18 anos o simbolismo veio antes da política.

Hollande e Obama na casa que Jefferson desenhou e que hoje está transformada em museu
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Hollande e Obama na casa que Jefferson desenhou e que hoje está transformada em museu Larry Downing/AFP

Esta terça-feira, começa a visita política. As primeiras horas de François Hollande nos Estados Unidos foram passadas em excursão com Barack Obama: o Presidente norte-americano convidou o francês a visitar a casa-museu de Thomas Jefferson, terceiro chefe de Estado do país e um dos que melhor simbolizam os longos laços entre as duas nações.

“Thomas Jefferson representa o que é melhor na América, mas como vemos ao caminhar pela sua casa, o que ele também representa é o laço incrível e os presentes incríveis que França deu aos Estados Unidos, porque ele era um verdadeiro francófono “, disse Obama aos jornalistas.

Antes de ser Presidente, Jefferson foi embaixador em Paris. Muitos dos utensílios que os dois líderes viram na cozinha da casa que o próprio desenhou foram trazidos por ele de França.

Hollande lembrou, por seu turno, o papel do general francês Marquis de Lafayette no esforço de George Washington para derrotar o poder colonial britânico. “Éramos aliados no tempo de Jefferson e de Lafayette. Ainda somos aliados hoje. Éramos amigos do tempo de Jefferson e Lafayette e seremos amigos para sempre”, disse.

Obama encontrou-se com Hollande na base áerea militar de Andrews, a uma hora de estrada de Washington. Dali seguiram no Air Force One até Monticello, na Virginia.

A moradia, no cimo de um monte e rodeada por uma plantação, também simboliza a complicada história dos EUA, notou Obama. “Foram escravos que ajudaram a construir esta estrutura magnífica”, disse o anfitrião. “Serve também para nos lembrar a ambos que estamos num combate contínuo pelos direitos de todos os povos.”

Primeiro os símbolos, depois a política. Os símbolos contam e há uma década, depois da invasão do Iraque pelos EUA de George W. Bush, uma visita deste género seria impensável. Os dois líderes sublinharam isso mesmo num texto conjunto publicado na segunda-feira nos jornais The Washington Post e Le Monde. “Nos últimos anos a nossa aliança transformou-se”, dizem.

Esta é a primeira visita de Estado que Obama organiza no seu segundo mandato na Casa Branca – e a primeira visita deste género de um Presidente francês a Washington em 18 anos.

Antes da política, haverá ainda lugar para as formalidades. Pelas 9h de Washington (14h em Lisboa), Hollande chega à Casa Branca ao som de 21 tiros de canhão e dos dois hinos nacionais, seguindo-se uma revista às tropas. Durante a manhã, os dois líderes vão discutir os temas internacionais da agenda comum – Síria, Irão, Ucrânia, Sahel, Líbia – e as relações económicas, antes de uma conferência de imprensa comum, às 12h locais.

O tema das escutas da Agência Nacional de Segurança (NSA) dos EUA não está naturalmente na agenda, mas os jornais franceses interrogam-se se Hollande o trará para a discussão. As revelações do ex-consultor da agência Edward Snowden, que mostram como os líderes europeus estiveram entre os mais escutados, abriram “um período difícil, não só entre a França e os EUA, mas também entre a Europa e os EUA”, disse o Presidente francês numa entrevista à revista Time. As tácticas usadas pela NSA “nunca deveriam ter existido”, defendeu.

Corra o dia como correr, a noite será de jantar de Estado na Casa Branca com costeletas e vinho norte-americano, e actuação musical de Mary J. Blige, uma cantora de R&B do Bronx.