Rumo à legitimação do formato videomusical

Apesar de o vídeo musical ter ascendido ao estatuto de género mediático mais consumido e disseminado pelos utilizadores da Web, a maioria dos media teima em ignorar esta evidência e a referir serviços de "streaming" como o futuro

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jamesgrayking/Flickr

2013 acabou por se revelar um ano importante para a legitimação dos vídeos musicais. Destaco três acontecimentos particularmente significativos.

Em Fevereiro, a Billboard anunciava que a ordenação das diversas tabelas de venda do seu Hot 100 passaria a incorporar dados das visualizações do YouTube monitorizados pela Nielsen. Até àquela data, os tops da indústria musical norte-americana baseavam-se exclusivamente em dados relativos às vendas físicas e "airplay" radiofónico. Com este anúncio, as visualizações de vídeos musicais encomendados ou autorizados pelas editoras passaram a ser contabilizadas. A medida, como é óbvio, só peca por tardia: alguns nativos digitais podem ter dificuldade em saber o que é um “single”, mas todos sabem bem o que é um “vídeo musical”.

Em Abril, o Museu da Imagem em Movimento de Nova-Iorque acolheu ao longo de três meses uma gigantesca exposição intitulada "Spectacle" que, pela primeira vez, celebrou a história e a arte do vídeo musical. Apesar de resultar da união das duas formas de comunicação mais influentes do pós-guerra (a música popular e o cinema), o formato videomusical foi, ao longo de quase quatro décadas, sempre visto como um pouco apreciado, e ainda menos estudado, subgénero cinematográfico. Que um quarto da programação anual de um dos mais prestigiados museus do mundo dedicado à sétima arte tenha sido dedicado ao formato representa um significativo e público reconhecimento do vídeo musical enquanto genuína forma de expressão artística.

Em Novembro, a Google Inc. organizou e transmitiu pela Web a primeira edição dos YouTube Music Awards. Apesar de o evento não ter conseguido corresponder totalmente às expectativas que foram sendo criadas, a gala representou a primeira alternativa, à escala global, aos eventos análogos que a MTV tem vindo a organizar desde a década de 80 (VMAs e EMAs) e deslocou de forma decidida o enfoque dado ao vídeo musical como mero veículo promocional ao serviço da indústria discográfica e do "star system" para a sua celebração enquanto formato para onde converge simultaneamente a criatividade de músicos e fãs.

Apesar de o surgimento de gigantescos repositórios audiovisuais como o YouTube e o Vimeo e de outras redes sociais terem permitido a ascensão do vídeo musical ao estatuto de género mediático mais consumido e disseminado pelos utilizadores da Web, a maioria dos media teima em ignorar esta evidência e a referir serviços de "streaming" musical como o Spotify, o Rdio, o Pandora e outros similares como o futuro da fruição musical na emergente paisagem mediática digital. Os utilizadores, como é óbvio, não caem na cantiga e há já alguns anos que a maioria tem vindo a eleger o vídeo musical como o único formato que lhes pode providenciar, gratuitamente e com uma crescente qualidade áudio e vídeo, uma experiência musical multimediática outrora fornecida por um conjunto diverso, e não raras vezes oneroso, de dispositivos mediáticos.

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