Reportagem

“Se os suíços continuarem a deixar entrar toda a gente, os cofres não vão aguentar!”

Os portugueses na Suíça não estão preocupados com o referendo. Mas apontam a chegada massiva de novos imigrantes como uma ameaça. Por isso, dizem compreender eventuais limitações no acesso à assistência social por parte dos imigrantes.

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PÚBLICO

Não acredita que o “sim” vá ganhar no referendo deste domingo que visa limitar a entrada de imigrantes na Suíça. Por isso, Yolanda de Carvalho, uma portuguesa a residir há 20 anos em Täsch, uma aldeia a quatro horas de Genebra, não perdeu o sono a pensar nas suas consequências. Apesar disso, preocupa-se com o “caos social” que a chegada diária de milhares de imigrantes à Suíça ameaça. “Em Zermatt, que é uma das maiores estâncias de esqui, a poucos quilómetros de Täsch, o patrão de um hotel decidiu despedir tudo o que era pessoal antigo, portugueses incluídos, e contratar polacos. Paga-lhes menos 70% do que pagava aos portugueses e mantém-nos todos juntos em casas que nem isolamento têm”.

Criou-se o chamado “dumping salarial”. Com a chegada de novos portugueses (Portugal constitui a terceira maior comunidade de imigrantes, a seguir à Itália e à Alemanha), mas também de polacos, búlgaros e albaneses, entre outros provenientes dos países recém-chegados à União Europeia, aumentam os preços das casas e o caos rodoviário e baixam os salários. “As auto-estradas, mesmo com obras recentes, não têm capacidade de escoamento. Criam-se filas de trânsito de horas”, descreve um emigrante português em Lausanne, no blogue sonhosmilka.blogspot.pt.

Um “zoom” em Täsch, para ajudar a perceber por que é que, apesar destas novas realidades, Yolanda não está demasiado preocupada: “Estamos perfeitamente integrados. Aliás, somos cerca de 700, numa localidade que tem entre 1.100 a 1.200 habitantes. As pessoas compraram casa, montaram negócios, os filhos já frequentam o ensino universitário. Eu e o meu marido temos uma loja de fotografia. Há restaurantes, produtos portugueses nos supermercados. É uma localidade que chega a ter 30 mil pessoas todos os dias de férias. O desemprego é baixo”.

Em cidades como Genebra, Zurique e Lausanne, a realidade, porém, é mais sombria. “Há cada vez mais portugueses a viver nos carros ou na estação de comboio com temperaturas extremamente baixas às quais não estamos habituados! Portugueses que arriscam tudo ao sair de Portugal sem dinheiro sequer para comer ou regressar”, lê-se no sonhosmilka.blogspot.pt. O autor acrescenta que, como ele, muitos emigrantes já integrados têm-se posto à noite a distribuir sandes na estação de comboio a sem-abrigo sujeitos a temperaturas de -12ºC.

Mais de 318 mil portugueses na Suíça
Só nos últimos cinco anos, chegaram à Suíça 154.731 novos emigrantes portugueses. Segundo os indicadores suíços, que o investigador José Carlos Marques há anos a esmiuçar os fluxos migratórios dos portugueses, analisou, em 2012, chegaram 32.965 portugueses, entre permanentes e temporários. “Penso que a maioria foi para as profissões pouco qualificadas”, caracteriza Marques.

No final do mesmo ano, contavam-se 238.432 portugueses com autorização de residência permanente. Se a estes somássemos os 79.752 com autorização de permanência de curta duração, o universo subia para os 318.184 portugueses na Suíça. Compõem uma comunidade que, segundo José Carlos Marques, “nunca teve uma imagem negativa associada”. Mas há sinais que podem preocupar. Por exemplo: o número de portugueses a beneficiar de assistência social não parou de aumentar nos últimos cinco anos. Fixou-se nos 10.234 no final de 2012.

Tudo somado, a equação sobre o referendo torna-se complexa. Na cabeça de Yolanda, pelo menos: “Por um lado, seria cruel fecharem as fronteiras aos emigrantes ou seleccionarem entre os bons e os maus. E penso que isso não vai acontecer porque os empregadores têm muito peso junto do poder político e a eles interessa-lhes que haja muitas pessoas dispostas a trabalhar e a servir de moeda de troca. Mas, por outro lado, se os suíços continuarem a deixar entrar toda a gente, os cofres do país não vão aguentar o rombo!”.

A Suíça exige 12 meses de descontos para conceder o subsídio de desemprego. Mas a regra tem nuances. “Imagine um pai imigrante que trabalha e a esposa junta-se a ele sem trabalhar e têm um filho na escola”, exemplifica Yolanda. “Se o pai ficar desempregado antes dos 12 meses, o agregado vai receber uma ajuda do Estado para garantir que a criança continua a frequentar a escola. É uma questão de direitos humanos, mas, para mim, esse subsídio devia cessar nos casos em que a pessoa se demitiu ou foi despedida com justa causa. A lei devia ser modificada, não para travar a entrada de novos imigrantes, mas para que não se pague tanto aos que já cá estão sem vontade de trabalhar”.

“Claro que votei ‘não’"
Até poderia ser assim não fosse dar-se o caso de uma medida dessas ter de ser aplicada aos suíços também, sob pena de se estar a discriminar entre suíços e europeus, opina Alexandre Afonso, filho de emigrantes portugueses na Suíça. “O governo suíço é obrigado a seguir as regras do tratamento igual para os trabalhadores do mercado comum”, nota. Nasceu e cresceu na Suíça, doutorou-se em Lausanne. Agora, Alexandre Afonso é docente no King’s College, em Londres, e, na qualidade de emigrante suíço, já foi chamado a votar no referendo. “Claro que votei ‘não’”, revela.

Se o “sim” vencesse, teria de haver uma maioria no Parlamento para que, antes de decorridos três anos, o governo suíço renegociasse com a União Europeia o contrato de livre circulação. Alexandre não acredita que isso venha a acontecer. “O acordo sobre a livre circulação de trabalhadores é um dos elementos centrais nas relações entre a Suíça e a União Europeia. Se fosse posto em causa, todos os acordos bilaterais com a União Europeia seriam invalidados, o que colocaria a Suíça numa situação problemática, nomeadamente por causa da sua dependência da mão-de-obra europeia”. Os imigrantes representam um quarto da mão-de-obra suíça. Por outro lado “é difícil imaginar a União Europeia a aceitar, por exemplo, que a Suíça limitasse a reunião familiar, que está garantida por acordos internacionais”.

Apesar do “previsível ‘não’”, José Carlos Marques admite que a Suíça dê alguns passos atrás nas políticas de integração dos imigrantes. “Se os países não puderem controlar a entrada de imigrantes, é natural que procurem medidas indirectas para travar esse fluxo. Em Inglaterra também se está a discutir as limitações no acesso aos apoios sociais”, recorda. É “um passo atrás”. Porque “os emigrantes que saem à procura de trabalho, e que são a maioria, acabam por ser prejudicados”. Portugueses incluídos. “Começa-se a ver pessoas preocupadas com a possibilidade de serem mandadas embora”, confirma Rita Rito, 40 anos, há um ano na Suíça, onde trabalha numa empresa da área da electricidade. “A senhora que faz limpeza na minha casa, e que é portuguesa também, está desempregada há mais de um ano e a viver da Segurança Social de cá, está com medo de ser posta porta fora”.

Com vínculo de trabalho seguro, e à espera de ver deferido o seu pedido de autorização de permanência por mais um ano, Rita começa a ver uma Suíça “saturada de tantos imigrantes”. “Tem sido uma loucura, todos os dias chega gente. Apesar de ser imigrante aqui, tenho que reconhecer que limitar as entradas é uma atitude inteligente. Uma forma de os suíços se protegerem”.