Opinião

Todas as crianças vão à escola com sapatos

1. Depois de uma breve interrupção, desculpem-me os leitores se esta crónica fugir ao habitual e avançar em ordem dispersa. Mesmo assim, começo pela Europa. A calma parece instalar-se sobre a crise, os mercados mostram-se mais confiantes, o dramatismo que envolvia cada decisão desapareceu, e até o tribunal de Karlsruhe quis contribuir para este clima de apaziguamento. Convenhamos que tem sido este o padrão habitual das suas decisões, revelando um razoável bom senso político. O acórdão é também inédito: mesmo que lhes pareça que o BCE ultrapassou os limites legais do seu mandato, decidiram que o melhor seria enviar a questão para o Tribunal Europeu de Justiça para que decida se houve ou não violação dos tratados. Uma decisão contrária teria efeitos desastrosos. Basta lembrar que a acalmia de que estamos a usufruir deve-se, em primeiro lugar, às declarações de Mario Draghi no Verão de 2012 ("[O BCE fará] tudo, insisto, tudo [para defender o euro]") e a sua decisão de criar um instrumento de barragem contra os mercados (OMT), caso algum país tivesse dificuldade em financiar-se. Qualquer machadada sobre esta poderosa arma dissuasora teria um efeito muito negativo.

Dito isto, a crise não acabou. A economia europeia continua a crescer muito menos do que as suas equivalentes anglo-saxónicas. O desemprego é ainda demasiado alto. E falta, naturalmente, uma visão de conjunto para o pós-crise, que pode estar na cabeça da chanceler, mas que terá de ser discutida com os outros. E o momento para o fazer até pode ser particularmente favorável, quando os governos nacionais precisam de apresentar uma visão positiva da Europa, que ajude a esvaziar a vaga nacionalista e xenófoba das forças extremistas. Quanto a nós, estamos a discutir qual é a melhor fórmula para sair do programa, no próximo mês de Maio. Uma saída “limpa” daria muito jeito ao Governo, para efeitos eleitorais (Portas pode continuar a usar as suas tiradas “patrióticas”, como se estivéssemos prestes a libertar-nos da ocupação espanhola). Mas interessa-nos jogar pelo seguro. Qualquer turbulência cambial num “emergente” pode ter consequências sobre nós. Qualquer problema em Itália também. Uma linha de crédito seria mais vantajosa, caso os juros da dívida voltassem a subir. Para quem está vergado ao peso de uma dívida que atinge 130% do PIB, todas as cautelas são poucas.

2. Mudemos, então, de assunto. De repente, a discussão sobre a “saída limpa” dá lugar à saída aparentemente obscura dos 85 Mirós com que o Estado ficou quando nacionalizou o BPN. Só olho para os museus do ponto de vista do utilizador medianamente informado. Mas há duas coisas que não se entendem neste debate enfurecido sobre o resgate dos Mirós. Primeiro, que “o Miró é nosso”. O que isto quer dizer não sei bem. Apenas constato que vem na linha de “a maternidade é nossa”. A segunda coisa é a maneira atabalhoada com que o Governo geriu esta venda, mostrando mais uma vez que não é propriamente um perito em matéria da legalidade. 

Para mim, o Miró é o seguinte. Quando começámos a viajar pela Europa com os nossos filhos (ainda adolescentes), incluindo sempre um programa de museus a troco de outras coisas mais divertidas, resolvemos começar por Barcelona. Adoraram o museu Miró e o museu Picasso (“Afinal ele também sabe desenhar”). Depois, ficámos estoicamente horas e horas na bicha do Vaticano em pleno mês de Agosto até conseguir chegar à Capela Sistina. A teimosia da minha filha mais nova, que decidiu que queria ver a Gioconda, obrigou-nos a entrar numa fila que dava duas voltas ao Louvre, entre bandos de americanos e de japoneses ruidosos. Para que ela descobrisse que a Gioconda afinal era uma coisa pequena e o que valia mesmo a pena era a Vitória de Samotrácia.

Não sei bem porquê, mas o caso Miró trouxe-me isto tudo à memória. Hoje, o papel das cidades como grandes pólos de atracção tornou-se fundamental para a competitividade da economia. Essa capacidade de atracção passa por colocá-las na rota dos grandes eventos culturais, sejam eles museus ou orquestras, ou inovação. Lisboa tinha esse desafio a vencer e convenhamos que, nos últimos tempos, a oferta cultural ou universitária já começa aproximar-se do circuito europeu. Sem perceber nada do assunto, a única questão que coloco é esta: o Miró pode ser olhado deste ponto de vista? É a melhor forma de encontrar uma resposta razoável. Percebe-se a necessidade de reduzir despesa. Essa é, aliás, a única razão do primeiro-ministro para justificar a venda. É legítima, mas não pode ser aceite sem discussão. Os Mirós não são nossos, como diz a esquerda. Mas a urgência do momento deve ser confrontada com os eventuais ganhos futuros. É bom que haja muitos europeus que queiram trazer os seus filhos a Lisboa, também por este tipo de oferta – que não é uma questão bizantina. Ainda me lembro das discussões sobre a vinda para cá da Ford-Volkswagen e sobre se devíamos utilizar fundos europeus para a incentivar a instalar-se aqui. Da parte dos alemães havia uma série de critérios de escolha. Um deles era saber se havia ópera em Lisboa. Parece mentira, mas é verdade. Já superámos essa fase. Mas continuamos a ter de valorizar o que temos de bom, incluindo a cultura e o património.

3. Esta história leva-me a outra, que também tem a ver com a imagem que damos de nós próprios. Veio a Lisboa na semana passada uma equipa da France Culture para fazer uma série de programas sobre os 40 anos do 25 de Abril. A jornalista era jovem, competente, procurou informar-se antes de fazer as perguntas. Creio que fui a última entrevista que fez antes de regressar a Paris. Sabemos que a esquerda francesa sempre teve uma visão “romântica” da revolução portuguesa. Mas foi de uma extrema dificuldade explicar-lhe duas ideias feitas que trazia provavelmente de Paris e que viu confortadas pela maioria das entrevistas que fez.

A primeira era que estávamos hoje pior do que no 25 de Abril, por causa da crise. Para ela, e para muita gente por cá, o país anterior à queda da ditadura é uma projecção que nunca foi vivida e que, portanto, só pode ser feita com os olhos de hoje. Quem tem menos de 50 anos não tem a memória viva das coisas. Não era apenas a falta de liberdade. Portugal era um país muito, muito pobre, pouco escolarizado, sem saneamento básico, onde numa qualquer aldeia do interior as crianças iam para a escola descalças, independentemente do frio ou do calor e as suas barrigas eram anormalmente grandes. Os liceus eram um privilégio para as classes médias mais privilegiadas das cidades. A saúde estava acessível a poucos. E lá tive eu de explicar que o nosso Serviço Nacional de Saúde, com crise ou sem crise, estava ao nível dos melhores sistemas europeus. Os números não deixam mentir. Que a taxa de mortalidade infantil, que era uma das piores da Europa, estava hoje abaixo da média europeia. Que, apesar de todas as dificuldades, a esperança de vida das mulheres aproximava-se a passos largos da recordista França. E que isto não se devia a um milagre de Nossa Senhora de Fátima. Quarenta anos depois, este país está irreconhecível. A crise está a empobrecer-nos de uma maneira que nunca pensaríamos possível. O Governo não respeita nada nem ninguém, quando se trata de arrecadar. A classe média está a pagar a crise praticamente sozinha e a “compressão” dos seus rendimentos é brutal. Tudo isto é verdade, mas todas as crianças vão para a escola com sapatos.

A segunda ideia feita: 2014 seria um ano marcado pela violência nas ruas. Tentei convencê-la de que isso era muito pouco provável, mas acabámos por fazer uma aposta: daqui a um ano venha cá e vamos ver. Espero ganhar a aposta. Entretanto, seria útil que começássemos rapidamente a acreditar que pode haver – que tem de haver um futuro para além da troika. Será austero, disso ninguém duvida. Mas dependerá sobretudo das escolhas que fizermos para nós próprios. Discutimos furiosamente os Mirós, como se deles dependesse o futuro da pátria. Era bom que discutíssemos com o mesmo vigor o que queremos que a pátria seja.