Editorial

Suíça diz um sim, um não e um logo se vê

O sim que trava a imigração ganhou. A direita nacionalista ganhou. A Europa perdeu.

Na Suíça bastam 100 mil assinaturas para se convocar um referendo. E neste sistema de democracia directa fazem-se referendos sobre tudo: desde o uso de armas e a proibição de fumar até às coisas aparentemente mais ridículas, como a de saber se um animal alvo de abuso ou de maus tratos deve ou não ter direito a um advogado. Só no ano passado foram 11 os referendos a nível nacional.

Ontem foram a votos três novas perguntas: uma sobre a expansão da rede rodoviária, outra sobre o aborto (saber se deve ser o seguro de saúde ou a própria mulher a arcar com as despesas de um aborto) e, a mais mediática, sobre a possibilidade de se colocar ou não um travão e um sistema de quotas à imigração europeia.

A iniciativa – Contra a Imigração de Massas – foi do Partido do Povo Suíço, que nunca escondeu ao que vinha. Foram os mesmos que propuseram, em 2010, um referendo para a expulsão de estrangeiros que tivessem cometido uma qualquer infracção (por exemplo, trabalhar para além do horário de trabalho) ou que no ano anterior conseguiram proibir a construção de minaretes (as torres das mesquitas) em território suíço. Mas não só de tiques islamófobos é feita esta direita nacionalista. Olham para o projecto da construção europeia com algum desdém, mas os seus argumentos convenceram a maioria dos suíços que foram votar. Responsabilizam os estrangeiros pelo aumento da criminalidade, pela subida das rendas das casas, pela descida dos salários e por transportes públicos apinhados de gente. A culpa há-de ser de alguém: neste caso, dizem, é dos “outros”.

Este sim da Suíça também foi mais um não ao projecto europeu. Por duas vezes os suíços, em referendo como não podia deixar de ser, recusaram a adesão à União Europeia. Mas em 2002 estabeleceram com a União uma série de compromissos para a livre circulação de pessoas como contrapartida de terem acesso ao mercado único.

E foi aqui que os suíços votaram num "logo se vê", porque as consequências deste referendo são imprevisíveis para a própria economia helvética. Como diz Viviane Reding, “a Suíça não pode ficar só com o que gosta”. E o que gosta é que à União, além dos imigrantes indesejados, também vai buscar mão-de-obra qualificada (os gestores de empresas como a Roche, Novartis, UBS ou Credit Suisse estarão em pânico com o sim). É para onde vende 55% das suas exportações (e importa 80%) e, segundo a OCDE, é o país que mais beneficia da livre circulação.

O saldo entre a receita fiscal obtida com os imigrantes e os custos administrativos, sociais e de infra-estruturas que lhes podem ser imputados é positivo em 6,5 mil milhões de francos.

A Europa deve ter uma resposta firme para a Suíça e olhar para o resultado do referendo como um aviso para as eleições de Maio, já que os partidos da direita nacionalista vão aproveitar a onda para tentar semear e colher o voto baseado num sentimento anti-imigração.