Um troféu para sarar as feridas da revolução

Comandada há poucos meses pelo espanhol Javier Clemente, a Líbia conseguiu um feito histórico na segunda principal competição africana de selecções.

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Jogadores da Líbia com o troféu conquistado Alexander Joe/AFP
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A festa da selecção líbia com a vitória na final da CHAN Alexander Joe/AFP
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A Líbia bateu o Gana no desempate por grandes penalidades Alexander Joe/AFP
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A festa nas ruas da capital Trípoli durou pela noite dentro Mahmud Turkia/AFP
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Este foi o primeiro troféu continental da história da selecção líbia Mahmud Turkia/AFP

O pesadelo recente pelo qual passou a Líbia está longe de terminar, porque a revolução que começou no início de 2011 e levou à queda de Muammar Khadafi deixou como herança um quotidiano de violência e confrontos entre milícias rivais. Mas, pelo menos durante alguns dias, as multidões nas ruas puseram de parte a rivalidade entre facções e uniram-se sob a bandeira vermelha, preta e verde, para celebrar. O motivo da festa? A conquista histórica obtida pela Líbia no Campeonato das Nações Africanas.

Não confundir este torneio com o Campeonato Africano das Nações (CAN), criado na década de 1950 e que, a cada dois anos, reúne as maiores estrelas do futebol africano. O Campeonato das Nações Africanas (CHAN, na sigla inglesa) também é disputado por selecções africanas, mas surgiu apenas em 2007 (a primeira edição disputou-se em 2009) e tem como principal particularidade a condicionante de apenas poderem ser utilizados jogadores que actuam no campeonato do próprio país.

A CHAN 2014, a terceira edição da prova, nem começou bem para a Líbia, que tinha sido escolhida para organizar a competição mas acabou por ver o torneio ser entregue à África do Sul por razões de segurança. Esse foi o único percalço no percurso dos líbios. Os “cavaleiros do Mediterrâneo” chegaram à fase final da CHAN após a desistência da Argélia – a mesma equipa que tinha afastado a Líbia da edição anterior, em 2011 – que não conseguiu reunir uma selecção suficientemente forte.

Com as competições internas ainda num lento regresso à normalidade possível, os líbios não geravam grandes expectativas antes da CHAN 2014. Mas a equipa orientada por Javier Clemente, ex-seleccionador de Espanha e campeão espanhol pelo Athletic Bilbau surpreendeu tudo e todos. No cargo apenas desde Setembro, o técnico conseguiu criar um grupo unido: “Podem não ter sido a equipa mais espectacular do torneio, mas os rapazes de Javier Clemente mostraram determinação e empenho sem igual para conquistar o primeiro troféu continental da história”, podia ler-se no portal MTNFootball.

Ultrapassada a fase de grupos, a Líbia enfrentou – e superou – três desempates por grandes penalidades: Gabão nos quartos-de-final, Zimbabwe nas “meias” e Gana na final. Esta foi a primeira presença de uma selecção líbia na final de uma competição continental desde 1982, quando foi anfitriã da CAN mas perdeu para o Gana no encontro decisivo. Passados 32 anos, a desforra chegou – e com um significado especial. “Esta vitória é boa para o povo líbio, para o crescimento do desporto e a estabilidade social”, sublinhou Javier Clemente.

No regresso a casa, a equipa foi recebida em apoteose. Havia vários milhares de adeptos no aeroporto de Bengazi e cerca de 500 conseguiram romper a barreira de segurança e chegar junto do avião que trouxe a equipa. Trípoli proporcionou novo banho de multidão aos jogadores, que deverão percorrer outras cidades do país em celebração. E agora venha 2017, ano em que a Líbia vai organizar a CAN.

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias de futebol e campeonatos periféricos