O amor de Ira Sachs é uma coisa estranha (e comovente)

Love Is Strange , melodrama sobre a velhice com um John Lithgow imperial, é a primeira grande fita do festival de Berlim

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Love Is Strange é uma pequena obra-prima de câmara

Sim, Wes Anderson é um autor perfeito para abrir um festival de cinema, ainda por cima com um grande estúdio como a Fox por trás (é ver a preponderância de Grand Budapest Hotel nas primeiras páginas da imprensa berlinense). Mas um festival de cinema serve, também, para descobrir ou chamar a atenção para o que, de outro modo, nos passaria ao lado. Quer porque o marketing cada vez mais normalizado não sabe o que tem em mãos, quer porque o negócio do cinema não sabe o que fazer com filmes fora da gaveta.

Como o Snowpiercer de Bong Joon-hoo, de estreia bloqueada por conflitos com os irmãos Weinstein, mas cujas passagens especiais no Forum (na versão original coreana) esgotaram com tal antecedência que a própria imprensa não consegue bilhetes. 

A verdade é que é para desvendar pequenas jóias que nos quebram o coração sem estarmos à espera, e às quais não chegaríamos de outro modo, que os festivais (também) servem. E Love Is Strange (na secção paralela Panorama), do americano Ira Sachs, é um desses filmes, que antes de ser visto corre o risco de ser enfiado na gaveta do "problema social", do "cinema queer" ou do "filme gay", mas que precisa apenas de nos sentar à frente do ecrã para nos comover com a sua história.

Sim, os seus "heróis" são um casal gay na casa dos 60/70, que partilham vida há 40 anos e se casaram finalmente - mas não é o casamento nem a homossexualidade que interessam a Ira Sachs. Antes a velhice, a idade, o amor. Porque, de repente, Ben e George precisam de vender o apartamento nova-iorquino onde fizeram a sua vida e, enquanto não encontram outro, vêem-se obrigados a viver com amigos e família - e cada um para seu lado, que o preço das rendas em Nova Iorque não é barato e o espaço não abunda.

Nesse movimento, Love Is Strange torna-se num melodrama de sublime contenção sobre o envelhecimento, ao som dos nocturnos de Chopin, com a câmara sempre focada nos seus maravilhosos actores. Que o casal seja interpretado por John Lithgow e Alfred Molina é a primeira mais-valia (Lithgow, então, tem aqui o papel de uma vida); que junto a eles esteja a demasiado rara Marisa Tomei, como uma sobrinha com problemas familiares, apenas sublinha que Sachs está mais interessado em trabalhar a humanidade e a emoção de gente normal que percebe de repente como o tempo passou.

Mas Love Is Strange, apesar de ser uma pequena obra-prima de câmara, é o tipo de filme de que o "mercado" (português, mas não só) pouco quer saber. Que, provavelmente, só vamos poder ver em festivais (como o anterior filme de Sachs, Keep the Lights On, que venceu o Queer Lisboa em 2012), mas que merecia melhor sorte.

Melhor sorte merecia também o primeiro filme do concurso oficial (que está já adquirido para distribuição portuguesa, mas que, com alguma sorte, vai ser despejado para cumprir contrato, como tantas vezes acontece com o novo cinema inglês). Os primeiros 30 minutos de '71 (Competição) são viscerais, electrizantes: acompanham o treino de um soldado britânico enviado em seguida para Belfast, em 1971, no pico dos "Troubles" da Irlanda do Norte, e a sua primeira operação no terreno, que corre tão mal que ele dá por si sozinho por trás das "linhas inimigas" sem estar preparado.

É uma entrada de estadão, que dá bem a medida do ódio, do medo, da confusão, da crueldade, da compaixão, da dúvida da Irlanda do Norte dos anos 1970, e lança o filme para uma angustiante caça ao homem. Seria bom que Yann Demange, estreante na longa-metragem vindo da televisão britânica, conseguisse manter o filme ao mesmo nível de intensidade; se dependesse só dele, não seria difícil, que o seu tratamento do espaço e do ritmo mete no chinelo aquilo que hoje em dia passa por "acção" na indústria americana. Mas o argumento de Gregory Burke acaba por se conformar à fórmula do thriller político (mais um...) sobre a Irlanda do Norte. '71 volta a erguer-se no final, com um olhar desencantado, muito inglês, sobre a irredutível solidão de uma personagem que percebe não ter passado, literalmente, de carne para canhão; saímos com a sensação de ter visto um filme que passou rente à grandeza, mas que tem muito que o recomende.