Pedro Soenen
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Megafone

Lisboa menina, moça e ilustrada

Nos tempos que correm, a educação artística tornou-se ainda mais urgente e fulcral, devendo os pais fomentar o seu desenvolvimento desde a mais tenra idade dos filhos, começando pelos livros que lhes lêem e mostram

Em 2012, grávida da Guadalupe, ao visitar a Bienal Internacional de Ilustração Infantil sorri para mim própria com a expectativa de ela já poder vir comigo pelo seu próprio pé na edição seguinte da Ilustrarte. Chegado finalmente o momento, entre ventos e tempestades lá fomos as duas rumo ao Museu da Electricidade, com entrada gratuita e uma exposição de 150 obras de todas as cores à nossa espera.

Com uma óptima acessibilidade, graças a um elevador “semi-manual”, este museu permite o uso do carrinho de bebé para evitar que o jogo da apanhada entre os pais e os mais pequenos se prolongue demasiado. Procurando experimentar um misto de "um bocadinho andando, um bocadinho de carro", lançámo-nos à descoberta, mas claro, o carrinho passeou-se quase sempre vazio, preferindo a Lupe deambular a pé pelo espaço (que lhe devia parecer realmente gigantesco).

Este ano a exposição parece no entanto mais vazia, mais despojada, talvez devido à forma como está montada — as obras estão dentro de grandes e altos cubos de luz feitos de esponja, criando uma sensação de montanhas sem grande acessibilidade para os pequenos. Uma criança mais baixa terá de se pôr em bicos de pés para visualizar a maior parte das ilustrações... Apesar de tudo, havia algumas peças ao nível da Lupe e nessas a pequena conseguiu sempre identificar um objecto ou um animal, apontando afincadamente com o seu dedo.

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O ponto alto aconteceu quando ela descobriu que podia pegar em todos os livros do escritor José Jorge Letria, na parte da exposição que comemora os seus 40 anos de produtiva carreira. Nessa altura, os sofás de esponja passaram a servir de mesas e a pequena folheou muito animadamente as publicações. O trabalho excepcional da ilustradora italiana Chiara Carrer foi alvo de destaque nesta edição, podendo ser apreciado de forma mais tradicional — ou seja, exposto na parede, tanto na sua forma original como nos livros onde foi reproduzido.

No momento de necessidade da Lupe, as instalações do museu revelaram-se muitíssimo adequadas, com um fraldário espaçoso e bem iluminado.

Poderia ser um debate interessante discutir se, tal como no caso de alguns brinquedos, certas ilustrações denominadas infantis podem agradar mais aos pais (e aos artistas) do que propriamente às crianças, devido sobretudo ao facto de não lhes oferecerem referências imediatas ou uma representação “directa” do mundo. Penso que a questão se deve pôr equacionando de forma complementar as funções da ilustração infantil como representação didáctica (explicação, eco) e como pura introdução à Arte (despertar do sentido estético).

Nos tempos que correm, a educação artística tornou-se ainda mais urgente e fulcral, devendo os pais fomentar o seu desenvolvimento desde a mais tenra idade dos filhos, começando pelos livros que lhes lêem e mostram. Ser-se mãe ou pai é poder ser-se novamente criança, com a vantagem de estarmos disso conscientes. Como disse Picasso, “Todas as crianças nascem artistas. O problema é como permanecer artistas ao crescer.”